Crônicas Científicas: Treinador com joystick nas mãos

Sem ciência, não há coerência!

Esta crôncia tem inspiração no livro de Wilton Carlos Santana, denominado “Pedagogia do Futsal – aprender para jogar”, especificamente sobre a seção “Criar uma atmosfera sociomoral” pgs. 170-173. Para obter o livro, clique aqui.

A crônica não representa um momento específico, mas a união de diferentes experiências vividas, protagonizadas e observadas por Duda Bernardi ao longo de sua vida profissional.


“Sei que todo treinador de futsal quer e precisa entender mais sobre futsal, mas não pode gostar mais deste do que de seus alunos”

(Wilton Carlos Santana)

Em minhas andanças por aí, sempre procuro os ginásios, quadras e campos, principalmente, por estes serem espaço em que posso ver crianças e jovens envolvidos com o esporte.

Gosto de me sentar nas arquibancadas e observar mais do que o jogo de dentro da quadra/campo (no seu sentido estratégico-tático-técnico). Gosto de analisar as relações, aquela parte abstrata que é o motor do sentimento humano, aquilo que nos revela a alma sem nos darmos conta. Hoje, minha crônica tem a ver com isso, o quanto nossa maneira de se relacionar com o aluno expõe o fazer pedagógico encarnado em nossas ações.

Dia destes, sentei-me num pequeno ginásio perto de casa. Em quadra duas equipes, que me pareciam sub-8, se enfrentavam. O que mais me chamou a atenção não foram as crianças, mas o protagonismo dos dois treinadores. As manifestações da torcida e os apitos dos árbitros se misturavam com a gritaria das meninas, mas pareciam uma suave trilha sonora que adornava e destacavam ainda mais as orientações e direcionamentos dos treinadores à beira da quadra, cujas vozes preenchiam o ginásio.

Eu, particularmente, nunca julguei o treinador pelo grau de energia dele à beira da quadra. Acredito que isso não seja algo ruim, necessariamente. O que mais me interessa é para onde ele canaliza esta energia e o que eu via ali era que ambos os treinadores a canalizavam para o mesmo objetivo que as crianças: a bola, o jogo, o posicionamento, a organização ofensiva e defensiva. Era como se capitaneassem a equipe muito de perto, quase que jogando com as própria crianças.

O que mais via e ouvia eram correções, muitas correções:

– Vem pra cá Juju. Tá errada!

– Ana, vai pra lá. Você joga de pivô, aí não é sua posição!

– Não Bia! Era para passar e não para finalizar! Tá errado!

– Você tá livre! Vai pro gol, vai pro gol Cris!!! Vai para o gol!!!

Enquanto tentava entender quais seriam as consequências daquilo, ouvi ao meu lado uma voz tímida que destoou daquele som difuso de fundo que preenchia o vazio entre um grito e outro de cada treinador:

– Parece videogame, né? – a voz era de uma jovem.

Eu estava tão absorvido prestando atenção aos treinadores e à maneira que se relacionavam com os meninas que achei que tinha ouvido coisas. Olhei para o lado e vi que a garota me olhava como se ela percebesse o quanto as atitudes dos treinadores estavam me entretendo.

– As meninas não sabem se obedecem ao treinador ou se jogam. É como se o treinador tivesse um joystick nas mãos – complementou ela – Parece um videogame.

Ela era uma adolescente de uns 15 ou 16 anos. Usava o mesmo uniforme que uma das equipes. Estava suada, presumi que devia ter jogando antes. Aquilo o que ela falou me intrigou tanto que ao olhar novamente para a quadra vi ali novas relações.

Cada informação dos treinadores era diretiva e os verbos mais comuns que eu ouvia eram ditos no imperativo, mais ou menos assim: “vai!”, “volta!”, “vem!”, “fica!”, “passa!”, “finaliza!”. Tudo eram ordens e, de fato, parecia o acionamento de um joystick com os botões direcionais (para cima, para baixo, para esquerda, para direita) e os botões funcionais (finalizar e passar). O controle, literalmente, estava nas mãos dos treinadores. Eles eram os verdadeiros jogadores.

– Aquele ali é meu treinador – ela apontou para um deles – e eu estou aqui sozinha deste lado porque hoje eu briguei com ele. Ele acha que manda em mim no jogo, mas não manda.

Vi que sua equipe estava toda do outro lado, sentada vendo o jogo de frente para seu treinador. A garota estava sentada às suas costas, sozinha.

– O que houve?

– Eu marquei um gol e ele me tirou da quadra brigando comigo.

Ela me olhou esperando alguma reação, mas eu não sabia o que responder. Ela marcou um gol, ora! A informação parecia não fazer nenhum sentido para mim. Então ela continuou:

– Quando eu ia finalizar ele pediu para eu passar a bola, mas não passei. Finalizei e fiz o gol. Eu sabia que poderia dar certo, então fui lá e arrisquei.

– Ué! Você resolveu o problema da melhor maneira possível. Fez um ponto para seu time. Não estou entendendo – completei.

– É, mas aí ele me tirou da quadra e disse que para ele aquele gol não valeu. Quando o jogo acabou, foi 12 a 8 para nossa equipe, mas ele disse no vestiário que havíamos vencido por 11 a 8. Quando peguei a súmula vi que ele tinha riscado o meu gol.

Estava claro para mim! É claro que aquele gol não valeria para ele. É como se o jogo tivesse saído de seu controle e aquele gol e apesar de legítimo este gol não havia sido marcado por ele e por suas intervenções e direcionamentos. Ele não foi o protagonista daquele momento.

A ideia de um treinador com joystick nas mãos nunca mais saiu de mim desde aquele dia, principalmente ao olhar pra trás e ver o treinador que um dia eu fui (e será que ainda sou? Me coloquei a questionar isso a partir daquele dia).

Aquela garota me fez aprender algo novo. Ter o controle do jogo nas mãos faz do treinador o verdadeiro jogador do jogo. Esta necessidade de controlar (de ser o jogador) passou a representar algo que para mim talvez seja uma das piores faces assumidas pelo treinador que atua com crianças: gostar mais do esporte em si do que de seus próprios alunos, chegando ao ponto de usar as crianças para sua satisfação e deleite.

Pensemos sobre isso…

O projeto “Crônicas Científicas” tem por objetivo apresentar como a produção científica em Pedagogia do Esporte possui importantes aplicações práticas e sociais. O intuito é motivar que estes debates cheguem a quem realmente precisa, desmistificando a máxima de que “Ciência não serve pra nada”. Assim, o site Pedagogia do Handebol se coloca como intermediador entre a Universidade e os treinadores e professores de handebol que nos acessam. Seguimos na luta!


Prof. Lucas Leonardo

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