Crônicas Pedagógicas: O Dilema de Duda

A situação de erro de substituição é bastante comum quando lidamos com crianças que estão iniciando sua inserção na prática competitiva. Eu mesmo já passei por essa situação inúmeras vezes, mas uma circunstância dessas que me ocorreu há alguns anos marcou profundamente minha maneira de atuar no handebol de base no que diz respeito ao sendo de justiça.

Era um jogo da primeira fase de uma forte liga do interior de São Paulo, estávamos perdendo e, pelo que eu havia percebido, não venceríamos a partida. Resolvi então dar início a um processo de substituições em minha equipe visando dar maior tempo de quadra para a criançada do banco.

Mas, adivinha o que aconteceu na primeira substituição? Marina, por ainda não entender direito a regra referente às substituições acabou cometendo um erro. Enquanto a Júlia se dirigia para a zona de substituição, ela entrou correndo na quadra deixando minha equipe com oito jogadoras na quadra.

Foi então que ouvi um apito vindo do secretário que estava na mesa, ele chamou um dos árbitros e falou: “Houve erro de substituição, a número 13 entrou na quadra antes de a número 10 sair”. Imediatamente, Daniel, o árbitro da partida, foi em direção da Marina e sinalizou punição por 2 minutos para ela. Ela olhou para mim sem entender o que estava acontecendo e eu pedi para ela respeitar a sinalização do árbitro, pois ele estava correto, esta é uma regra que regula o jogo que visa controlar uma situação que constitui o handebol: apenas sete jogadores podem permanecer em quadra.

Até aí, tudo bem, faz parte, né? Mas, a afirmação que veio a seguir é que possibilitou que um episódio marcante me ocorresse. Depois que a Marina saiu pela exclusão, minha equipe ainda continuava com sete jogadoras em quadra, então, Daniel olhando para mim disse: “Duda, foi erro de substituição, você precisa escolher uma menina para tirar da quadra”. 

Quase que instintivamente olhei para Adriana, que dentre as meninas que estavam na quadra era aquela que não se destacava tanto, e quando fui chamá-la, ela protestou com cara de choro:

– De novo eu professor Duda? Por que quando isso acontece você sempre me tira? É porque eu sou ruim, né?

Meu corpo travou, parei com a mão dirigida para ela e quase me engasguei com minhas palavras que agora eu engolia à seco. Ela me fez relembrar muito rapidamente que em outras situações como estas eu sempre a chamava para sair e ficar fora do jogo. Como agravante, eu quase nunca deixava ela retornar, pois colocava outra menina do banco para jogar.

Ela me mostrou muito mais, ela sabia que eu a considerava, entre as sete titulares, a de menor rendimento e parecia se sentir injustiçada por uma decisão única e exclusivamente minha. Eu realmente estava sendo injusto com ela, pois por causa de outras crianças, era ela quem perdia a chance de continuar jogando. Foi então que naquele momento me virei para Daniel e disse: 

– Será que realmente precisamos fazer isso? Elas têm apenas 11 e 12 anos, não é justo tirar uma delas assim.  Veja que situação delicada que sobra para mim? Eu ter que escolher uma delas para sair? Temos que fazer algo diferente quando isso acontece.

Vi que Daniel ficou pensativo. Ele olhou para mim e disse que as regras deviam ser cumpridas, mas bateu em meu ombro de modo camarada e disse baixinho:

– Nunca tinha pensado nesta situação como injusta para a criança. Vamos conversar depois, pode ser?

Assenti com a cabeça, mas precisava tomar uma decisão. Foi então que criei uma solução que me parecia mais justa para o que havia ocorrido. Respondi rapidamente para Adriana:

– Drica, fica tranquila, hoje vamos fazer de um modo mais justo. Vamos tirar na sorte? – peguei uma garrafinha de água, reuni as meninas em roda e completei – Vou girar a garrafinha aqui no meio da roda, quando ela parar, vou tirar da quadra a jogadora para que ela apontar. Nada mais justo do que a sorte num caso destes, né? – Elas concordaram.

Girei a garrafinha e ela terminou apontada ironicamente para minha melhor atleta, a única que eu não pensava em tirar de quadra de jeito nenhum, pois ela me ajudaria a organizar minimamente o jogo quando eu fizesse as substituições que pretendia. Então falei:

– Yasmin, hoje quem sai é você! – Ela atendeu à solicitação e saiu da quadra voluntariamente.

Foi quando Daniel parou do meu lado antes de reiniciar o jogo e disse:

– Duda, nunca tinha me colocado no lugar das atletas até ouvir o que a menina do seu time disse a você. Realmente, é muito chato para a criançada ter que sair por escolha do treinador nesta situação. Também pude me colocar em sua situação, deve ser um grande dilema ter que escolher alguém para sair, ainda mais em se tratando de crianças.

– Pois é, Daniel. Mas resolvi pelo sorteio, dos males o menor.

Ele complementou:

– Duda, ano que vem vamos debater uma forma de resolver isso pela regra adaptada da competição mirim. Não é justo para treinadores e para as crianças isso acontecer desta forma, temos que propor mudanças.

O jogo continuou, fiz mais substituições e perdi a partida. Isso aconteceu ainda mais algumas vezes ao longo da temporada e, em todas elas, resolvi girando a garrafinha. Era o melhor que eu poderia fazer.

No início do ano seguinte, durante o congresso técnico, tivemos a oportunidade de debater as regras adaptadas e eu levantei esta situação. Inicialmente, ninguém pareceu entender a gravidade do que era o cumprimento da regra oficial do handebol em relação a esta situação na categoria mirim. Senti que a garrafinha seria girada mais algumas vezes naquele ano.

Mesmo ser sem convidado (nunca foi costume os árbitros serem convidados para estas reuniões), Daniel se fez presente, e reforçou meu ponto de vista. Parece que um árbitro ter opinado pela flexibilização desta regra fez com que alguns treinadores dessem maior atenção para a situação. Depois de falar, Daniel fez uma proposta:

– Sempre que houver um erro de substituição, ainda acho fundamental que o jogo seja parado e a posse de bola seja dada para a equipe adversária, porém, não podemos deixar a decisão sobre quem sai por dois minutos ficar nas mãos de quem lidera as crianças. O treinador deve estabelecer com elas uma relação de confiança com as crianças e esta situação atrapalha a construção desta relação. Sugiro que a criança que estava na quadra e seria substituída saia por exclusão mesmo que o erro seja da criança que estava entrando, afinal, ela já não iria sair mesmo? – Parecia tão óbvio. 

Todos os treinadores se entreolharam e responderam afirmativamente para esta proposta. E, assim foi feito durante o novo ano competitivo. 

Penso que é fundamental termos sensibilidade para entender que algumas situações definidas pelas regras oficiais do jogo, embora sejam pertinentes para o jogo de adolescentes e adultos, possuem nuances diferentes quando se trata do esporte de crianças e jovens. O que é justo para quem é mais velho, pode ser injusto para quem ainda é criança.

Não se trata de passar a mão na cabeça da criança e tentar privá-la da negatividade da vida. Afinal, a negação é fundamental para formação de seu caráter e seus valores. Penso que a competição em si já é um ambiente suficientemente capaz de fazê-las lidar com alegrias e frustrações em volumes suficientes para que haja equilíbrio na formação moral para a vida em sociedade.

Mas, minimizar injustiças nesta faixa etária, considero algo fundamental, afinal, se trata de um período em que o juízo moral da criança já é capaz de julgar as injustiças, como fez Adriana, de modo que estes valores passem a ser incorporados em sua vida a partir de seu juízo moral.

Reforço, novamente, não se trata de minimizar os impactos da derrota. Nunca considerei perder necessariamente ruim, afinal, quem entra em quadra tem que estar ali diante desta tensão fundamental para firmar valores para vida. Porém, impedir que haja injustiças é fundamental, e é a partir da avaliação do que é justo ou injusto que defendo a flexibilização das regras do jogo durante a iniciação ao handebol.