Crônicas Científicas: Professor, existe uma Marta do Handebol?

Sem ciência, não há coerência!

Esta crônica se baseia nos resultados de dois Artigos Científicos listados abaixo:

1. Gisele Viola Machado, Larissa Galatti e Roberto Rodrigues Paes. “Seleção  de  conteúdos  e  procedimentos pedagógicos para o ensino do esporte em projetos sociais: reflexões  a  partir  dos  jogos  esportivos coletivos”, publicado na revista Motrivivência, edição número 39, páginas 164 a 176, no ano de 2012 (clique aqui);

2. Gisele Viola Machado, Larissa Galatti e Roberto Rodrigues Paes. “Pedagogia do esporte e o referencial histórico-cultural: interlocução entre teoria e prática”, publicado na revista Pensar a Prática, número 17, volume (2), páginas 414 a 430, no ano de 2014 (clique aqui).


Dia desses, logo no final de uma aula de iniciação ao handebol que eu desenvolvia no contraturno de uma escola municipal que eu trabalhei por alguns anos, fui questionado:

– Professor Duda, existe uma Marta do Handebol?

– Como assim Daniel? Marta do Handebol?

– Sim, uma craque, que jogue muito! Quando jogo bola na rua e marco um golaço eu saio gritando, “Ehhhhh da Marta! Camisa 10!”. Mas aqui na nossa aula, eu não sei que nome eu grito.

Ah, esses alunos! Nos tiram do centro e nos fazem pensar em coisas que muitas vezes não nos damos conta. Essa fala do Daniel estava contextualizada com o início da Copa do Mudo de Futebol de 2019 e a Marta era uma das grandes craques da competição. E como seria legal ver alunos e alunas comemorando gols conhecendo os ídolos do handebol. Como não havia pensando nisso antes?

Isso me fez repensar toda minha trajetória como treinador de handebol até então. Não posso negar que sempre fui um treinador dedicado. Sempre me atualizando – às vezes, inventando muita coisa nova – e buscando entender a intervenção por meio do esporte a partir de uma perspectiva plural e isso se manifestava principalmente com base em dois importantes referenciais: os aspectos técnico-táticos e socioeducativos.

Minhas aulas eram recheadas de situações que estimulavam a aprendizagem de habilidades motoras, controle do corpo, fundamentos técnicos aprendidos em conjunto com princípios táticos ofensivos e defensivos). Para isso, fazia uso do jogo como ambiente de aprendizagem e tinha muita preocupação com os conteúdos que fizessem mais sentido para cada grupo específico em função das idades e da experiência com o esporte.

Eram também um momento em que aproveitava muito para estimular aspectos como a amizade, cooperação, honestidade, respeito e ética. Para isso, toda aula era iniciada e terminada com uma roda de conversa, na qual os alunos e alunas poderiam falar, deixar suas opiniões, fazerem perguntas e o debate era muitas vezes amplificado por condutas propositais minhas em quadra.

Alguns dias eu apitava coisas erradas para ver a reação das equipes beneficiadas – será que tirariam proveito do meu erro ou seriam sinceras e não aceitariam isso? Outros dias eu errava apenas contra uma das equipes para ver se a criançada prejudicada saberia lidar com isso respeitando minha figura de professor – será que começariam a reclamar, falar que eu estava “roubando” ou passariam por cima disso pelo prazer de jogar? As rodas de conversa nestes dias eram acaloradas e o que surgia, com minha mediação, ajudava muito na aprendizagem socioeducativa da criançada.

Agora, eu nunca – e vejam vocês também se não cometeram esta heresia – havia falado sobre as personalidades de nosso handebol, poucos sabiam que o Brasil era campeão mundial feminino e uma das potências globais no handebol de areia. Não conheciam nenhuma equipe de handebol nacional e, sequer sabiam da existência de campeonatos estaduais e nacionais. A pergunta do Daniel mostrou minha falta de atenção para os referenciais histórico-culturais do handebol.

Mas, ainda havia tempo de corrigir isso? Coloquei-me a pensar…

Na aula seguinte, apareci com uma proposta de uma gincana. Dividi todas as minhas turmas de handebol formadas por alunos dos 4os e 5os anos, outra dos alunos dos 6os e 7os anos e, finalmente, a turma de 8os e 9os anos em duas grandes equipes, Amarelo e Vermelho, e propus algumas tarefas para eles:

Tarefa 1: Aproveitando a oportunidade de apresentar veículos de informação impresso para os alunos dos 4os e 5os anos, em conjunto com os respectivos professores, solicitei que procurassem em jornais de circulação estadual e municipal matérias que falassem sobre handebol e que fossem afixados num mural que eu coloquei na parede do pátio da escola. Inicialmente constatamos muita dificuldade de encontrar algo que não fosse relacionado com o futebol, ainda mais em ano de Copa do Mundo, debatemos isso na aula e os alunos me deram uma sugestão, ampliar a busca pela internet, mas só valiam sites de notícias de grande circulação e de competições oficiais.

Aos poucos, os murais foram ganhando vida, cor, formas, enfeites – que coisa linda – e, nos dias de aula, nas rodas de conversa eu solicitava para que os alunos falassem sobre o que haviam encontrado. Nomes de equipes apareceram. Descobriram inclusive que na cidade havia um time de handebol feminino que jogava uma liga importante do interior. Nas aulas, eles já diziam que eram torcedores desta equipe e me deram uma demanda:

– Professor Duda, será que conseguiríamos assistir um jogo do time da cidade?

– Claro que sim! – Naquele mesmo mês eu consegui um ônibus da prefeitura e, num sábado de manhã, todos os alunos de todas as turmas puderam assistir ao jogo desta equipe. Foi um dia muito bacana!

Tarefa 2: Aos alunos do 6os e 7os anos ficaram responsáveis por apresentar um documentário feito com vídeos da internet e filmagens realizadas com pessoas da comunidade escolar. O tema era a história do handebol brasileiro. A equipe amarela ficou com o “Handebol Feminino” e a equipe Vermelha com o “Handebol Masculino”.

Os resultados foram muito além do que eu esperava. Em cada nova aula eu pedia para que as equipes informassem como andava a elaboração do documentário. Cada representante dos grupos falava com muita propriedade sobre a história das seleções, evolução das regras e sobre os principais atletas brasileiro. Diziam que professores, coordenadores, pessoal da limpeza e da cozinha liam o mural e sabiam uma série de informações sobre o handebol brasileiro.

O grupo vermelho já falava com intimidade sobre o Bruno Souza, um dos maiores jogadores de handebol masculino do país, apontaram a evolução do handebol masculino brasileiro depois da vinda de “um treinador espanhol chamado Jordi Ribera”. A equipe amarela, orgulhosa, relatava que o Brasil já teve duas melhores do mundo: “A Alê e a Duda, igual a você professor!” e que o Brasil havia sido campeão mundial. Ambas as equipes perceberam como o Brasil era forte no handebol de areia e quiseram experimentar como esse jogo funcionava.

Diante disso, dediquei uma semana de nossas aulas para ensinar como era o handebol de areia, levando-os para jogar num pedaço adaptado do parquinho da escola. Diversão sem igual!

No final de dois meses de pesquisa, os grupos apresentaram os documentários na “feira de ciências” e nele havia professores e professoras, merendeiras, seguranças, diretoria, todos dando suas opiniões em entrevistas, além de vídeos editados com imagens baixadas na internet.

Tarefa 3. Já os grupos dos 8os e 9os anos ficaram responsáveis por alimentar um blog só sobre informações referentes ao handebol feminino e masculino. E não é que deu certo? Eles se dividiram em colunistas, editores, fotógrafos. Cobriam os treinos dos mais novos, atualizavam os resultados das principais ligas e competições brasileiras que eles encontraram sites da internet. O grupo amarelo, aproveitando a existência de uma equipe feminina na cidade conseguiu entrevistar a treinadora da equipe no dia em que fomos para o ginásio ver o jogo e colocaram a reportagem no blog.

O resultado disso tudo?

Quando perguntavam: “Para que time você torce?” a resposta de muitos alunos passou a ser: “Depende, no handebol ou no futebol?”

Quando Daniel marcava gols bonitos ele me dizia: “Esse foi igual ao que o Haniel Langaro fez naquele vídeo que eu te mostrei, prôfe!” – Haniel, uma Marta do Handebol, é um dos mais promissores atletas masculinos, destacando-se em ligas internacionais. Jogando muito!

Quando tinha jogo do time da cidade, alguns alunos mais apaixonados se organizavam e iam de caravana com seus pais e familiares assistir: “Prôfe! Ganhei uma camiseta do time da cidade, olha que legal!”

Moral da história: é fundamental que tenhamos maior equilíbrio nos três referenciais, o técnico-tático, o socioeducativo e o histórico-cultural em nossa intervenção com o handebol.

Vou além: talvez, se entendermos a importância de referendarmos em nossas aulas e treinos a importância do referencial histórico-cultural do handebol, possamos, finalmente, fazer nosso esporte crescer, aos menos em meio às crianças que jogam handebol em nossas aulas e treinos, ampliando sua paixão para além da prática, mas também para o seu contexto local.

O projeto “Crônicas Científicas” tem por objetivo apresentar como a produção científica em Pedagogia do Esporte possui importantes aplicações práticas e sociais. O intuito é motivar que estes debates cheguem a quem realmente precisa, desmistificando a máxima de que “Ciência não serve pra nada”. Assim, o site Pedagogia do Handebol se coloca como intermediador entre a Universidade e os treinadores e professores de handebol que nos acessam. Seguimos na luta!


Prof. Lucas Leonardo

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