Crônicas Científicas: Ele é o pior do time!

Sem ciência, não há coerência!

Esta crônica é baseada em parte dos resultados apresentados no artigo científico de Abel Merino, Ana Arraiz e Fernando Sabirón, chamado “La construcción de la identidad competitiva del niño que práctica fútbol prebenjamín”, publicado na Revista de Psicología del Deporte, volume 28, número 1, páginas 89–96 de 2019 [clique aqui para baixar]


Nós treinadores temos algumas crenças que não representam necessariamente aquilo que ocorre debaixo de nossos olhos. Um exemplo disso decorre do fato de imaginarmos que crianças são incapazes de associar alguns fatos que tentamos esconder delas. Como somos tolos!

Certo dia, estava participando de um torneio para crianças de 7 e 8 anos de idade que era organizado em formato de festival de um dia pelos próprios professores dos times, num clima bastante descontraído e com a proposta do mini-handebol.

Num daqueles jogos desanimadores, em que o placar é tão vantajoso para o adversário que já nos damos por vencidos, tomei uma decisão, olhei para o banco de reservas e disse:

– Marquinho, vem! Vamos jogar?

Marquinho era um garotinho de 8 anos de idade. Embora o placar fosse de 8 gols para o adversário e só faltassem 5 minutos do último período do jogo, Marquinho sorriu, levantou-se e entrou em quadra. Este era o último jogo do dia. Ele tinha jogado muito pouco naquele festival, era iniciante – estava há apenas 4 semanas nas aulas de handebol – ainda não jogava tão bem e eu preferi dar oportunidades para quem conhecia melhor o handebol até aquele momento.

Minha intenção com esta substituição era clara para todos os pais presentes, colocar o garotinho iniciante em quadra para que ele experimentasse um pouco do jogo, por pura diversão. Ele entrou aplaudido por todos no ginásio.

Marquinho substituiu Júlia – sim, o evento era misto – que tinha a mesma idade de Marquinho e sempre foi protagonista fazendo muitos gols nos jogos. Ela era realmente boa de bola!

Assim que Júlia saiu, ofereci minha mão para cumprimentá-la, ela bateu em minha mão com um pouco mais de força do que eu imaginava que ela faria. Estava um tanto brava por estar perdendo o jogo final e/ou por sair do jogo, pensei eu. Foi então que ela me disse:

– Ele é o pior do time! Ah, já perdemos mesmo…

Aquilo me assustou. Como, com 8 anos de idade a noção de hierarquia interna no grupo era tão clara para Júlia? De fato, Marquinho era aquele que tinha maior dificuldade dentro a equipe. Perguntei imediatamente para Júlia:

– Por que você acha isso?

– Ele sempre entra no finalzinho do jogo, ou quando já ganhamos ou quando já perdemos, sempre é assim.

– E o que me diria de você? Você acha que é boa, Júlia?

– Eu sou a melhor do time. Em jogo difícil você troca todo mundo, menos eu.

Novo susto!

Era exatamente isso o que eu fazia. Quando o jogo era mais disputado Júlia nunca saia da quadra. Em contrapartida, nos jogos já vencidos ou perdidos, em função dos placares elásticos à favor ou contra, sempre colocava Marquinho e, quase sempre, tirava Júlia para que ele e outros reservas entrassem em quadra.

Aquilo me preocupou. Como será que Marquinho entendia tudo aquilo?

Acabada a partida, todos receberam a premiação coletiva, uma medalha de ouro de participação. Júlia já tinha feito as contas e dizia para todos do time:

– Ficamos em segundo, a medalha é de ouro, mas na verdade a nossa deveria ser de prata!

Nunca havia notado aquele comportamento antes. Era revelador ver que outras crianças do time conversavam a mesma coisa. Muitos tinham plena consciência do que acontecia. Sabiam placares, pontuação. Até falavam em artilharia!

Chamei Marquinho e fui bem direto:

– Marquinho, me diga uma coisa, gostou de participar do festival hoje?

– Sim Professor. Foi legal porque eu joguei! – Parecia animado.

 – Mas, não acha que jogou pouco? Foram cinco partidas e você só jogou o finalzinho de algumas delas, não foi?

Ele não respondeu exatamente minha pergunta:

– Professor, se eu entrei é porque sou bom. Estou muito feliz!

Foi interessante ver como colocamos todas as crianças dentro da mesma caixinha: ingênuos e incapazes de entender o que está havendo. O que havia ali, na realidade, eram manifestações diferentes das crianças construírem suas identidades competitivas.

Talvez, alguns ainda sejam como Marquinho, que de ingênuo não tem nada, pois já está criando esquemas que o permitem avaliar quem é bom e quem é ruim, embora com base em critérios muito amplos ainda: entrar ou não na quadra mostra quem é bom e quem é ruim – critério que não é totalmente descabido, não é? Pense sua prática diária e suas decisões como treinador e treinadora sobre quem joga e quem não joga.

Júlia, porém, deixa muito claro que a construção de sua identidade competitiva já se baseava em outros fatores: em que momentos e circunstâncias se entra, se sai ou se permanece na partida. Júlia era inclusive capaz de se intitular a melhor do time – e era – além de apontar Marquinho como a pior – eu não podia negar na época que isso era verdade.

Com base nisso, percebi como a gestão de programas esportivos envolvendo crianças deve ser cuidadosa no tocante às relações estabelecidas pelas próprias crianças, uma vez que diferentes maneiras de lidar com a competitividade afloram ao longo do envolvimento delas com o esporte. Isso se relaciona também com o modo como a própria criança se avalia e como ela percebe as competências de seus colegas, mesmo que haja imprecisões em suas análises.

Provavelmente, crianças que entendem o esporte como Júlia, com muito mais clareza do que imaginamos, podem avaliar a si mesmas e serem avaliadas por outras crianças como não tão hábeis, e isso cria um senso de hierarquia muito claro na concepção dessas crianças, mas nossas crenças não nos permitem enxergar que isso está ocorrendo, pois ainda queremos acreditar que crianças são ingênuas e incapazes de entender de hierarquia de rendimento. Que tolice!

O que mais me assusta, no entanto, é que tanto a percepção ainda incipiente de Marquinho, como extremamente elaborada de Júlia, se justificavam baseadas em minhas escolhas sobre quem joga e quem não joga, fundamentalmente.

Nunca mais consegui participar de um festival de crianças sem levar isso em consideração e sem tentar, antes de tudo, entender como as crianças compreendiam suas identidades competitivas.

Percebi, no fim das contas, que ingênuos somos nós.

O projeto “Crônicas Científicas” tem por objetivo apresentar como a produção científica em Pedagogia do Esporte possui importantes aplicações práticas e sociais. O intuito é motivar que estes debates cheguem a quem realmente precisa, desmistificando a máxima de que “Ciência não serve pra nada”. Assim, o site Pedagogia do Handebol se coloca como intermediador entre a Universidade e os treinadores e professores de handebol que nos acessam. Seguimos na luta!


Prof. Lucas Leonardo

2 comentários sobre “Crônicas Científicas: Ele é o pior do time!

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