Quer ensinar bem handebol para iniciantes? Então, rasgue as regras do jogo!

Engana-se quem acha que para se aprender esportes a primeira aula deve ser de regras. Engana-se quem acha que crianças que estão iniciando a prática do handebol devem aprender de acordo com as regras.

Difícil de entender isso? Vou explicar rapidamente para você o porquê destas afirmações.

Os esportes constituem-se sob regras, às quais condicionam as ações dos jogadores e criam códigos que unificam a compreensão e as possibilidades de quem joga. Logo, as regras são parte imprescindível para a organização do esporte enquanto manifestação cultural humana.

Aliás, todo jogo é assim: dotado de regras. Basta buscarmos referências em estudos clássicos como de Johan Huizinga (Homo Ludens) e Roger Caillois (O jogo e os homens) para entendermos isso. Sem regras, definitivamente, não há jogo.

Ora, que grande contradição, não? No início deste texto disse para você rasgar as regras do handebol e agora afirmo que sem regras não há jogo?! E quem disse que não lidamos diariamente com contradições em nossa pedagogia do handebol?

Observando as regras do handebol, de maneira muito simplista, o que encontramos lá? Muitas orientações que limitam o jogar: limite para a quantidade de passos, limite de tempo que o jogador pode ficar com a bola e limites que orientam uso do drible. Há limites descritos sobre a maneira como deve ser realizado o contato físico, sobre o local em que a criança pode ou não pisar para arremessar e sobre quantidade máxima e mínima de jogadores.

Limites! As regras do handebol impõem muitos limites! E estes limites se opõem à liberdade de expressão (o impulso lúdico!), um aspecto essencial para quem inicia a prática esportiva.

Quando nos orientamos por uma “pedagogia das regras” para ensinar handebol aos iniciantes também limitamos nossas possibilidades pedagógicas, pois nos tornamos meros vigilantes das regras ao invés de pedagogos do esporte.

Pense agora comigo: quantas vezes por aula ou treino você fala para seus pequenos: “Isso não pode”, “Isso não vale”, “Perdeu a bola porque não deve fazer isso”, “pisou na área, não valeu seu gol”?

Quantos “nãos” estão presentes em sua pedagogia? Com quantos limites a criança que inicia a prática do handebol deve lidar em suas aulas e treinos?

Se a criança corre com a bola, você fala “andou!”.

Se ela dribla, segura a gola e volta a driblar, você avisa “duplo drible, bola do outro time!”.

Se ela dá um passo dentro da área do goleiro você retira dela a maior alegria do jogo: “Não valeu o gol, você invadiu a área”.

Se você tem 15 alunos na aula você avisa “Um vai ter que ficar de fora, pois as regras dizem que handebol é 7×7”.

Lidar com tantas limitações transforma a experiência desejada pelos iniciantes na prática do handebol em uma não-experiência: o jogo, fundamental e rico ambiente de aprendizagem, é subtituido por uma prática desprovida da liberdade, tão necessária para que a experiência vivida seja profunda, inquietante e significativa.

Joga-se pouco, pois quase nada o que a criança quer fazer ela pode. E, apesar de você tentar colocar a criança pra jogar, ela nunca entra no estado de jogo (aquele que nos arrebata, nos suspende da realidade e faz com que joguemos o jogo plenamente, mas também sejamos jogados pelo jogo).

Repito: para iniciantes aprenderem handebol, peguem as regras da modalidade, estude-as para saber como é o esporte, mas não as aplique de maneira cabal em suas aulas. Pelo menos momentaneamente, joga as regras fora!

Esqueça circuitos que ensinam três passos, substitua-os pela liberdade em correr com a bola, pois só assim crianças aprenderão a protagonizar o jogo sem medo dos limtes que o handebol impõe a elas.

Esqueça a rigidez sobre o duplo drible, substitua isso pela possibilidade da criança experimentar jogos que proibem o drible e depois jogos que estimulam o dribe. Junte a isso jogos em que ela pode driblar em algumas circunstâncias, que em outras ele deva segurar a bola e, se for necessário, que ela tenha ainda nova possibilidade de driblar a bola.

Não fique tão desesperado pelo modo como ela vai tocar o corpo do outro colega, sustentado apenas pelas regras. Estimule o contato físico de várias formas: inclua o toque corporal nas suas aulas e vá direcionando maneiras para que este contato seja respeitoso antes de ensinar exatamente o que a regra oficial pede.

Por fim, coloque a criançada na quadra, seja com mais do que sete jogadores, seja com menos do que sete. Esqueça por algum tempo as regras do jogo. Coloque-as para jogar.

Esqueça, inclusive, que alguns devem se identificar como goleiros usando uniformes diferentes, deixe isso de lado. E, se for o caso, coloque mais de um goleiro em cada gol, para aumentar o desafio do jogo para quem arremessa.

Ora, mas que grande bagunça, você deve estar pensando, afinal, se tudo isso o que eu disse valer jo jogo, não haverá regras a serem seguidas, não é?

Engano seu. Em suas aulas para iniciantes as regras podem dizer o seguinte:

  • Jogo 1: O jogador poderá correr à vontade com a bola – assim a criança aprenderá a fintar e a buscar espaços vazios a partir da sua liberdade de ação no jogo.
  • Jogo 2: Se o jogador for tocado por um adversário ele não poderá mais correr com a bola e deverá quicar para continuar ou poderá passar – assim ele aprende que antes de driblar, ele deve tentar se livrar de seus marcadores segurando a bola e, depois que for tocado, poderá tomar decisões: passar ou continuar?
  • Jogo 3: A criança poderá arremessar no gol sem se preocupar se dá um passo dentro da área – assim ela vai aprender a se ajustar em relação à sua perna de impulsão mesmo que pise na área, mas sem ter aquela linha que limita sua ação no jogo.

E sabe qual é a melhor parte de tudo isso é: a cada aula você pode ajustar uma destas regras, aproximando-as ou afastando-as das regras oficiais do handebol. Afinal, o jogo permite isso: as regras do jogo podem ser sempre negociadas e acordadas, modificando-se indefinidamente sempre que convier a quem joga.

Em nosso caso, isso também se aplica a quem ensina e sabe o que quer com as modificações que promove nas regras oficiais do handebol, no caso você, professor/treinador.

Assim, o handebol perde seu status de esporte imutável e se justifica pedagogicamente por sua essência, uma vez que esporte é antes de tudo JOGO!

Se em suas aulas você entender que handebol é mais um dos vários jogos que podem ser abordados – apesar deste ser sua finalidade pedagógica – seu alunos aprenderão a jogar handebol iniciando pela liberdade de ações devido à flexibilidade das regras previstas nos jogos de sua aula ou treino. E com tempo e paciência, seus alunos aprenderão handebol muito melhor do que se tudo fosse limitado às regras que burocratizam o jogo excessivamente.

Entendeu agora? Regras sim, mas considerando ofertar maior liberdade do que limitações, por isso defendo tão intensamente uma pedagogia do jogo aplicada ao Handebol!

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