Pai, deixa a criança se divertir

Estava com minha equipe jogando uma partida de uma liga local formada pelos próprios treinadores das equipes envolvidas. Queríamos, com esta competição, ampliar a bagagem competitiva das crianças que jogavam pouco nas outras competições em que participávamos. Nossa preocupação era oferecer um espaço de protagonismo para estas crianças, para que elas se mantivessem praticando handebol.

O formato desta liga era bem diferente das competições convencionais, pois nela os jogos aconteciam em cidades muito próximas, custos baixíssimos e grande demanda pedagógica, por meio de regras adaptadas, grupo de arbitragem formado por atletas de categorias mais velhas das equipes e que recebiam grande apoio dos treinadores, que aliás, mantinham entre si um clima de muita cordialidade.

Minha equipe jogava contra a equipe da Andreia, treinadora de uma cidade vizinha à minha, contra a qual jogávamos com certa frequência. Nos conhecíamos bem e tínhamos muito respeito um pelo trabalho do outro.

Dentro de quadra tudo ocorria bem, o jogo fluía, as crianças aprendiam, os jovens árbitros desenvolviam novas habilidades e competências dentro da modalidade, mas, vez ou outra, eu ouvia um pai gritando da arquibancada logo atrás do banco da Andreia:

-Nossa, que moleque ruim!

-Tira ele da quadra!

-Ele só erra, o que ele está fazendo jogando?

Eu não tinha a menor ideia de quem era aquele cidadão, sei apenas que aquilo me incomodava muito, pois era uma atitude que estava completamente contrária com o ambiente que nós treinadores estávamos querendo criar naquele evento.

Não demorou muito e vieram as críticas dele à arbitragem:

-Quem é esse moleque apitando? Não tem nem idade para apitar um jogo! Isso é uma piada?

Era impressionante como aquele pai sozinho conseguia interferir tanto dentro da quadra. Percebi crianças com medo de jogar, com aquela sensação de que todas as palavras ofensivas se dirigiam a elas, vi os meninos que estavam lá para aprender a apitar, cada vez mais inseguros e errando muitos lances devido à essa pressão.

A arquibancada aquele dia estava relativamente cheia, acho que umas 80 pessoas assistiam aos jogos e percebia nitidamente quando dava umas olhadelas para trás que a maioria, composta de familiares das crianças, desaprovava aquelas atitudes.

Num dado momento, descobri que aquele pai era da cidade de Andreia, quando ele disse:

-Ou treinadora? E meu filho? Não vai jogar, não? Ele é muito melhor que essa criançada aí!

O que veio a seguir foi inesperado.

Andreia levantou-se do banco, dirigiu-se para a portinhola da quadra, a abriu e calmamente saiu da quadra para subir às arquibancadas. Apesar do jogo continuar acontecendo, da excessiva verbalização da criançada e dos apitos dos jovens árbitros, o som vindo das arquibancadas, incluindo os sonoros e grotescos gritos daquele pai, cessou. Parecia que o tempo havia parado.

Andreia dirigiu-se até o pai e aquilo me fez lembrar quando, uma vez 
fiz a mesma coisa, ao sair da quadra num jogo de crianças de até 14 anos de idade, mas diferentemente de Andreia, estava extremamente alterado e confrontei um pai de minha torcida que estava criando um clima muito pesado dentro de quadra ao menosprezar o próprio filho. O clima piorou ainda mais, embora eu considerasse que estava fazendo a coisa certa.

Com Andreia, tudo foi diferente. Ela dirigiu-se ao tal pai, sentou-se ao seu lado, e iniciou uma conversa calma. Eles conversavam num quase sussurro, afinal as palavras trocadas por eles eram inaudíveis a todos que estavam no ginásio. 

Sua expressão corporal era amistosa, ela abraçou o pai com um de seus braços e, olhos nos olhos, conversou com ele por uns 30 segundinhos. Parece pouco, não é? Mas aquela foi a dose correta de sensibilidade, pois ao fim da conversa ambos sorriram um para o outro e Andreia calmamente retornou à quadra.

E o pai depois desta conversa? Inicialmente calado, aos poucos, passou a incentivar, comemorar os gols das crianças da equipe de seu filho. Eu vi um momento em que ele inclusive aplaudiu um belo gol de um dos garotos de minha equipe. Mas, como aquilo foi possível?

Ao fim do jogo, fui conversar com a Andreia:

-Oi Andreia! Nossa, parabéns pela sua atitude com aquele pai.

-A culpa não é dele Duda.

-Como assim? – Respondi a ela.

-Infelizmente, todos veem o esporte como um fenômeno único e não percebem que ele é na verdade aquilo o que queremos fazer dele. Aquele pai veio aqui ver uma competição e não um espaço de aprendizagem, como nós queremos que seja.

-Entendi Andreia, mas o que você disse a ele afinal?

-Ora, perguntei o que ele achava que o seu filho estava pensando sobre o que ele vinha fazendo. Vi a expressão dele mudar na hora.

-Nossa, imagino que deve ter sido difícil ele encarar essa reflexão.

-Sim Duda, deve ter sido difícil mesmo. E, antes que ele me respondesse eu disse “competir não é só vencer ou perder, competir também é aprender. Deixa a criançada se divertir e aprender lá com a gente”.

Fiquei surpreso com a maneira cordial com a qual ela lidou com tudo aquilo. Mais do que isso, com o fato de ela encarnar em sua atitude os valores que estávamos querendo enfatizar naquele ambiente competitivo.

Após aquela rodada, nós professores nos reunimos e percebemos que precisaríamos criar algum tipo de comunicação com os pais e torcedores para que eles entendessem nosso objetivo com aquela competição.

E, assim, criamos alguns cartazes que eram pendurados na entrada do ginásio informando qual era a meta daquele torneio, qual era a postura esperada pelos pais e quais seriam nossas obrigações em quadra como treinadores. Isso modificou muito o clima das competições, que passaram a ser altamente direcionadas para o protagonismo das crianças e não para cultivar estresse e ansiedade nelas.

Este episódio me marcou de tal forma que mudou profundamente minha maneira de lidar com a torcida, geralmente familiares, que vão aos ginásios de esportes torcer por seus filhos, principalmente por entender que a maneira como o esporte é compreendido por eles se sustenta numa série de condutas que são puro reflexo do tradicionalismo com o qual o esporte é tratado. Isso fica ainda mais evidente em ambientes competitivos.

Aprendi muito sobre pedagogia do esporte e sobre como ser treinador com Andreia, assim como aprendi com muitos outros treinadores com os quais joguei contra ao longo de toda minha carreira.

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