Crônicas Pedagógicas: Eu posso pegar a bola?

Handebol é um esporte quase sempre estereotipado por um modelo pré-concebido: “Um jogo de bola em que a defesa se organiza numa barreira em volta da área que só o goleiro pode pisar, no qual devemos arremessar por cima da barreira para marcar gol”.

Às vezes acho que isso é um pouco culpa da desinformação, afinal, é bem difícil assistirmos jogos de handebol, pelo menos, na quantidade que eu gostaria de assistir.

Aliás, é partindo dessa falta de entendimento do jogo que eu contextualizo esta crônica.

Entender o jogo, em sua lógica, é fundamental para que nossos alunos iniciantes possam jogar ainda melhor. Eu, por algum tempo, pequei em não entender o funcionamento lógico do handebol por considerá-lo esse tal jogo de barreira contra o ataque, descrito anteriormente.

Mas, existe uma coisa maravilhosa em nossa vida como professores/treinadores: nossos alunos!

Ah nossos alunos! Eles nos abarrotam de pistas pedagógicas por meio de sua linguagem verbal e não-verbal. Às vezes, quando conversam uns com os outros ou mesmo conosco, e quando demonstram desinteresse ou interesse em alguma atividade proposta, eles nos dizem muito mais do que imaginam, muito mais do que, muitas vezes, nós somos capazes de compreender.

O mais impressionante, porém, é que estas pequenas pistas, que poderiam nos fazer pedagogos do esporte ainda mais competentes, são ignoradas por muitos de nós, que envenenados pela a arrogância de pensar que todo conhecimento deve ser transmitido de nós para eles, numa via única, nos cegamos para todos os sinais que eles nos dão.

Há alguns anos, um desses sinais iluminou as bases de minha atual pedagogia do handebol.

Durante uma aula de handebol, estávamos no meio de um coletivo, crianças de 12 e 13 anos em quadra. Como num fluxo esperado, enquanto uma equipe saiu da defesa para levar a bola para o ataque, a outra equipe rapidamente se colocou ao redor da linha de seis metros, levantou seus braços e ali ficou.

A bola ia e vinha, de mão em mão entre os atacantes, até que um deles a deixou escapar. Vagarosamente, a bola quicou na direção da defesa, chegando bem pertinho da linha de tiro livre (a famosa linha pontilhada que na verdade é tracejada).

Percebi que um de meus alunos, o Carlinhos, saiu da barreira, correu em direção à bola, mas parou antes da linha de tiro livre. A bola vinha em sua direção, mas um dos atacantes correu e a pegou primeiro.

Notei que Carlinhos tinha todas as condições para recuperar a bola, estava perto o suficiente para pegá-la antes do atacante da outra equipe para depois sair num contra-ataque, mas não o fez. Parei a aula e argumentei:

– Carlinhos, a bola estava na sua frente, por que não a pegou?

– Eu posso pegá-la professor Duda?

– Ora, claro que pode! O que te fez pensar que não poderia?

– Ela estava fora da linha pontilhada, professor. Eu achava que eu tinha que esperar a bola entrar na linha pontilhada para eu tentar pegá-la.

Aquilo me fez parar para pensar.

Em nenhum momento de minhas aulas eu havia falado aquilo para Carlinhos. Mas, de algum modo ele associou um fato ao outro, por eu sempre ter ensinado a eles que deveriam ficar na barreira da defesa, com as mãos para cima, aguardando a outra equipe chegar bem pertinho, para então buscar a bola.

Ele deve ter olhado para as linhas da quadra e pensado: “Acho que só posso pegar a bola depois da linha pontilhada”. Isso fazia muito sentido pela maneira como eu dirigia as aulas.

Esta foi uma das luzes que iluminaram minhas condutas pedagógicas desde então.

Percebi que, assim como deveria ser, Carlinhos queria muito ter a bola para si. Mas, motivado pela minha pedagogia, ele se condicionou a esperar a bola chegar perto dele para tentar pegá-la. Isso é totalmente anti-lógico, afinal, porque esperar a bola chegar perto do próprio gol para só então tentar recuperá-la?

Notei que deveria mudar de estratégia. Passei a adotar a defesa individual como referência defensiva e notei Carlinhos mais feliz nas aulas. Aliás, não só Carlinhos.

Notei algo a mais, os defensores passaram a dificultar mais o ataque e recuperar mais bolas e mais gols começaram a acontecer. Felicidade total nas aulas.

Não demorou muito para os alunos entenderem que para atacar melhor, deveriam correr mais, ocupar novos espaços da quadra e com isso, quando na defesa, as crianças perceberam logo que dar alguns passinhos para trás e esperar um pouco mais perto da área poderia ajudá-los a fechar mais o centro da quadra antes de tentar marcar alguém e recuperar a bola.

Em poucos meses, defender ao redor da área deixou de ser um modelo pré-concebido pelo treinador, mas uma maneira que os alunos encontraram de transformar a defesa individual numa defesa mais inteligente. Pois, ao se aglomerarem na frente da área dificultavam ao ataque, porém, as condutas de recuperação de bola se mantiveram e aconteciam com grande frequência.

Carlinhos, um garoto que queria muito ter a bola e achava que não poderia sair para fora da linha de tiro livre para pegá-la, agora, arriscava-se na quadra, ora acertava e recuperava bolas para sua equipe, ora errava, porém, estava feliz jogando.

Ele podia, finalmente, jogar de verdade!

Notei, a partir deste processo que handebol não é um jogo de barreira contra o ataque adversário, mas um jogo de recuperação de bola.

Desde então, ensino handebol assim por onde passo.

2 comentários sobre “Crônicas Pedagógicas: Eu posso pegar a bola?

  1. Excelente. Temos que estar sempre atentos para que informações que para nós são simples, cheguem a eles de uma maneira que gere outra interpretação. Essa percepção é importante para que os alunos não tenham um repertório limitado de ações, onde eles podem ser muito mais atuantes e eficientes.

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