Crônicas Pedagógicas: “Faça o que digo e faça o que eu faço”

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Todos temos boas intenções, ao menos no nosso discurso educacional. Não tenho dúvidas disso.

Todo treinador que conheço afirma “faço isso, pois sei que é o melhor para meus atletas”, afinal, temos uma firme crença em nossos atos. Cremos fazer sempre o melhor, caso contrário, por que lidar com o processo de ensino, vivência, aprendizagem e treinamento do handebol?

Neste sentido, quem de nós, quando questionados sobre a importância do esporte na infância e juventude, não se justificou dizendo que: “O esporte é importante para a socialização”, “O esporte forma o caráter”, “O esporte ensina valores”, “O esporte ensina a perder” ou “O esporte ensina a viver”?

Falamos muito, falamos bonito e com vivacidade quando defendemos os valores humanos para a formação de nossos alunos e atletas. Em nosso discurso, somos redentores por meio daquilo que oferecemos.

Falamos!

Mas, fazemos?

Paulo Freire, destaca em seu livro “Pedagogia da Autonomia” que nossa prática educacional deve “corporeificar“, ou seja, deve ser capaz de encarnar nosso discurso, sendo este um pressuposto que anda de mãos dadas com a ética (coerência) e a estética (beleza). A isso, denominamos Práxis Pedagógica.

Mas, se olharmos atentamente muitas de nossas condutas, será que fazemos o que falamos?

Vamos a alguns exemplos típicos de nosso meio:

  1. “Em meu projeto tenho preocupação com a educação de meus atletas, por isso, aqui oferecemos bolsas de estudos a todos!”
  2. “O esporte que promovo mira na qualidade de vida de meus alunos”
  3. “Enfatizo a tomada de decisão autônoma do jovem em meus treinos”
  4. “Em minhas aulas conquisto meus alunos com minha autoridade e não pelo autoritarismo”

Algumas destas frases já devem ter sido ditas por você, pois buscamos ser aceitos como grandes professores e para isso, falamos, falamos muito. Eu mesmo já disse algumas destas frases de peito cheio, orgulhoso.

Para cada um dos exemplos citados anteriormente, verdades ocultas aparecem na prática pedagógica, às quais se distanciam e são incoerentes com nossa fala e ao longo do tempo, aprendi que nem sempre a minha fala precedia minhas ações. Isso me balançou!

Pude compreender que eu não era o que eu dizia depois de algum tempo, quando tive contato com Dante Alencastro, discípulo e seguidor das ideias de um misterioso eremita chamado Bernardo. Este último, mesmo vivendo numa caverna, fundamentou importantes pilares para o que é hoje a minha coerência pedagógica.

Vejamos algumas verdades ocultas, tomando como base os exemplos apresentados anteriormente neste texto:

  1. Quem nunca viu um projeto esportivo dar muitas bolsas de estudos apenas para montar uma equipe imbatível para os jogos escolares?
  2. Quem nunca viu a qualidade de vida dos atletas ficar em segundo plano quando o mesmo treinador que a defende se abdica de retirar da quadra seu melhor atleta quando ele se machuca?
  3. Quantas vezes o professor que educa para as decisões autônomas pede um tempo técnico, não permite que seus atletas opinem em nenhum momento e ainda finaliza com a celebre frase: “Façam o que estou pedindo sem questionamentos!”?
  4. Quantas vezes atletas têm medo de falar com seu treinador por causa de seu perfil autoritário, sendo isso confundido com a conquista do respeito pela autoridade?

Mas, no fim das contas, quem somos nós enquanto professores/treinadores? Somos aquele que fala ou aquele que faz?

Bernardo ensinou a Dante, que ensinou para mim que “é no jogo que as máscaras caem”. Logo, é no fazer que a pessoa se mostra de verdade. Somos, portanto, verdadeiramente, aquele que faz e toda vez que fazemos algo, apresentamos de modo encarnado qual é a nossa verdadeira pedagogia por meio de nossas condutas que são impregnadas de intenções.

Aprendi com Dante, acerca disso, que “na minha prática a teoria não pode ser outra”. Ou seja, minha ação pedagógica não é capaz de refletir uma teoria que não esteja corporeificada em mim. Logo, sou repleto de teorias que me explicam enquanto atuo como professor e treinador.

Proponho a você um desafio de autorreflexão: analise sua fala e sua prática pedagógica.

Se sua fala se distancia de sua prática é porque sua fala não é verdadeiramente você. Analise principalmente a sua prática e tente perceber se ela atende a seus propósitos e valores mais íntimos. Possivelmente sim, e se estes propósitos não parecem muito ajustados com aquilo que você quer ser, encare seus demônios e tente lidar com eles.

Agora, se sua pedagogia é como a sua fala, não posso negar que você seja ético, embora, para mim, isso não seja suficiente. Caso sua fala e sua pedagogia se sustentem na opressão, aquela que minimiza a possibilidade de autonomia e liberdade por meio do esporte, penso que mesmo sendo você coerente, portanto ético, falta-lhe ainda a estética, a beleza pedagógica para que alcance a práxis pedagógica.

Por fim, peço que diante deste desafio, aceite-se e enfrente sem defesas o ônus e o bônus de quem você realmente é. Chega de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Se você não estiver satisfeito com o distanciamento entre o que você faz e aquilo que você diz, e quer ser cada vez mais parecido com sua fala cheia de tolerância, respeito e sensibilidade, afirmo que você pode mudar, mas adianto que toda ruptura leva ao conflito e o conflito interno é a maior barreira a ser rompida para a transformação.

Mas, se eu consegui, por que você não conseguiria? A busca da ética pedagógica passa por isso e como dica para sua transformação profissional, busque por referências que te balizem.

Todos temos nosso Dante, basta encontrá-lo!

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