Você está Dispensado!

Crônicas Pedagógicas: Você está dispensado!

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Como somos incoerentes em alguns momentos!

Recentemente, reencontrei alguns ex-atletas de um antigo projeto esportivo em que trabalhei como treinador de handebol e coordenador. Conversas sempre prazerosas e saudosas. Sempre que me despeço destes, agora, jovens adultos, tenho a sensação de dever cumprido.

Apesar de tantas boas lembranças, em meu último encontro com um destes jovens, uma pergunta perturbadora veio à tona:

– Prof. Duda, você se lembra do Érico?

– Sim, Jonathan, me lembro dele sim. Como fui incoerente com ele.

– Por que você o dispensou? Aquilo nos assustou muito, mexeu com cada um de nós, ficamos com medo de sermos dispensados também. Foi muito repentino.

Érico era um garoto tardio. Ele foi selecionado para a equipe, pois eu tinha como postura não negar a entrada de nenhum garoto que tivesse vontade de jogar handebol. Para mim, handebol deveria ser para todos. Mas Érico era tardio e nunca tinha jogado handebol. Era menor, mais fraco fisicamente e parecia não conseguir seguir o ritmo do grupo.

Mesmo assim, ele não atrapalhava em nada o treino. Cometia mais erros que os outros, mas seguia treinando com frequência impecável e com aparente vontade de fazer as coisas darem certo. Alguns dias, eu colocava Érico para treinar com um grupo de “reforço” onde garotos, independentemente das idades, treinavam juntos. Mesmo ali, Érico demonstrava dificuldades.

Já a equipe de sua categoria era promissora. Liderava sua chave na liga do estado. Estávamos invictos na competição, mas eu sentia que o clima do grupo, formado por meninos de 13 e 14 anos, tendia à acomodação. Era a iminência dos playoffs e era o momento de balançar aquele grupo e mostrar que precisariam fazer mais do que vinham fazendo.

Foi então que, não sei de onde, tive uma ideia que comuniquei ao professor que me auxiliava no projeto: iria dispensar o Érico. Fui questionado por este meu grande amigo, mas indaguei que aquele era um projeto de rendimento esportivo, que eu havia dado todas as chances para o garoto e que ele não estava correspondendo em rendimento. Meu amigo tentou ponderar a situação:

– Duda, deixa o menino aí!

– João, há males que vem para o bem. Com a dispensa dele a molecada da equipe vai sentir que precisam corresponder nos treinos. Vou manter minha decisão.

– Você quem sabe Duda. Dei minha opinião, mas é você que coordena o projeto. Se acha que vai ter o resultado esperado com isso, vai lá e faz.

Uma semana antes dos playoffs chamei o Érico:

– Oi professor Duda, quer conversar comigo? – Ele estava visivelmente tenso. A salinha de bolas era um local em que tinha conversas bem sérias com a molecada.

Fui assertivo:

– Érico, você não está conseguindo acompanhar o grupo, estamos na reta final e preciso me focar naqueles que estão dando conta do recado. Vou ter que dispensá-lo.

– Mas, professor, eu juro que vou melhorar – ele já chorava neste momento.

– Infelizmente não vou mudar minha decisão. Desculpe Érico, mas assim é o esporte.

O esporte é assim? De que esporte eu estava falando para ele?

Ancorado na perspectiva de rendimento, entendia que o esporte era avaliado apenas pelo desenvolvimento dentro de quadra. Érico era um garoto exemplar, vinha visivelmente se desenvolvendo enquanto pessoa ao fazer parte daquele grupo. Encarava as dificuldades de frente, nunca desanimava e estava sempre atento às minhas broncas e orientações. Sua mãe, muito presente, em conversas comigo dizia o quanto o esporte vinha ajudando Érico com sua timidez, na ampliação de relacionamentos com pessoas diferentes e no compromisso com a escola.Mas, pra mim, esporte em nada tinha haver com aquilo.

Meu objetivo era formar atletas capazes de render em quadra. E pior, hoje tenho consciência de que isso era feito muito mais por mim do que por eles. Eu, como treinador e líder daquela equipe, queria as honras e os méritos. Queria ser referência e para mim isso só poderia ser conquistado com resultados expressivos dentro de quadra e Érico não vinha correspondendo.

Vejam como a maneira de se entender o papel do esporte pode nos pregar peças. Eu fui vítima da minha própria incoerência, principalmente por estar lidando com crianças e jovens.

Apesar da nossa conversa, quando me levantei, Érico veio em minha direção e me abraçou, agradecendo-me a oportunidade. Durante o abraço eu tive um lampejo e uma cena parecida veio à minha mente, pois há cerca de 15 anos a mesma conversa, os mesmos argumentos e um desfecho muito parecido acontecia. Só que o atleta dispensado era eu.

Mais um ponto à favor de minha incoerência!

Ao ver Érico sair, eu me via saindo chorando de uma sala anexa ao ginásio de esportes onde treinava.

Acompanhei sua subida de longe, sua saída pela porta de vidro e o vi entrar no carro de sua mãe que o esperava. Vi o carro saindo depois de ficar parado alguns segundos a mais do que o normal. Lembrei-me imediatamente de quando entrei no carro de meus pais, muito triste, explicando para eles que eu havia sido dispensado de um time ao qual eu tinha me dedicado de corpo e alma, e que mesmo eu tendo acabado de ser campeão estadual com aquela equipe, o que eu havia oferecido não era suficiente. Lembrei do rosto de minha mãe mudando, era tristeza o que via nos olhos dela.

Lembrei-me da sensação de ver meus colegas em quadra e eu na arquibancada assistindo seus jogos. Imaginei o Érico fazendo o mesmo, mas ele não o fez durante aquele finalzinho de ano.

Lembrei-me de um dia deixar a tristeza de lado e continuar minha vida. Não sei se Érico fez o mesmo, embora imagine que sim.

O meu celular, naquele mesmo dia, tocou e conversei com sua mãe. Durante a conversa, ouvi algo que me tocou:

– Duda, ele tem você um grande exemplo. Ele gosta tanto de você que está se sentindo culpado pelo que aconteceu. Ele admira muito você.

Aquelas palavras doeram muito, pois eu senti o mesmo quando fui dispensado. De modo parecido eu admirava demais meu treinador e lembro-me de ter a sensação de que eu era um elo fraco que atrapalhava a equipe.

Quanta incoerência! Eu que havia passado por tudo aquilo fiz tudo aquilo voltar à tona, agora com o jovem Érico.

O resultado disso tudo? Garotos assustados, treinando sobre o imaginário de que poderiam ser dispensados na fase mais importante do ano, as finais da liga. Eles treinaram como nunca, porém o estímulo não veio de circunstâncias positivas, mas de uma ameaça que havia sido concretizada por uma ação que racionalmente não sei porque fiz. Era pura opressão.

No fim das contas, perdemos a semi-final e ficamos em terceiro lugar da Liga.

Quando peguei a medalha de bronze, apesar de feliz com a conquista (uma felicidade real, pois de algum modo aquilo era a coroação de um ano de muito trabalho), o Érico veio imediatamente em minha mente. Eu estava tão arrependido!

Os frutos competitivos não vieram como o esperado e todo clima que foi criado por aquela atitude foi muito negativo. Jonathan deixou isso muito claro em nossa conversa realizada alguns anos depois: “(…) ficamos com medo de sermos dispensados também”.

Suas palavras atestam minha ignorância naquela situação e ainda ecoam em minha mente, embora tenha aprendido muito com tudo isso e hoje perceba minha falha de conduta.

Érico me ensinou que nada daquilo vale o sonho, a dedicação e a oportunidade de uma criança se manter no esporte que ela escolheu para si. Não temos o direito de tirar isso delas. Eu que me orgulhava de não fazer seletivas, de não impedir que ninguém treinasse na equipe, havia sido muito incoerente, tudo por causa do conceito de esporte que ainda se moldava em mim e pendulava entre ações que viam o esporte como uma finalidade e como um meio.

Desejo que o Érico leia este texto, pois quero registrar aqui duas coisas que gostaria muito de dizer a ele se hoje eu o encontrasse:

“Érico, desculpe-me, sinceramente. Arrependo-me tanto do que fiz a você, pois sei exatamente como se sentiu.”

“Obrigado por me ensinar a ser um treinador melhor com outros jovens, mesmo que de modo tão amargo. Devo isso a você”.

E assim, continuo minha caminhada. Uma caminhada longa, na qual nunca paro de aprender e de me formar um treinador mais coerente para com os jovens que tenho a oportunidade de conhecer e dividir tanto aprendizado.

2 comentários sobre “Crônicas Pedagógicas: Você está dispensado!

  1. Duda,
    Amei sua colocação final: “E assim, continuo minha caminhada. Uma caminhada longa, na qual nunca paro de aprender e de me formar um treinador mais coerente.” Independente de forem jovens ou adultos, o melhor está no aprender. Gostaria de conversar mais sobre esse caso específico, creio que a riqueza por de trás do ocorrido não está no arrependimento.

    Mas, desde já, meu sinceros e solenes parabéns!

  2. DUDA, texto muito proveitoso, realmente nós que trabalhamos com a base temos que saber levar muito bem esses garotos em alguns momentos para não frustrar o momento esportivo que eles vivem, sabemos que até mesmo os melhores da equipe tem chances muito pequenas de se tornarem jogadores profissionais pela atual realidade da modalidade, mas nuca devemos Desestimular um sonho de criança/adolescente, pois pode trazer um fechamento muito grande ao estoque por parte deles!
    Espero ter sempre uma coerência na hora de tomar minhas decisões quanto técnico e dar oportunidades a todos mas infelizmente as vezes temos que deixar um ou outro de fora de uma competição ou outra mas vamos tentando equilibrar!

    Grande abraço e parabéns pelas crônicas!

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