Crônicas Pedagógicas: Placar final – 58×01

Por muito tempo todos vamos nos lembrar do fatídico episódio dos 7×1 que o futebol brasileiro passou durante a Copa do Mundo masculina disputada no próprio Brasil. Houve, naquele momento, independente das posições individuais manifestadas, a insurgência de sensações e sentimentos quase viscerais em grande parte do mundo futebolístico. Aquele resultado chocou!

Recentemente, li uma reportagem que retrata como humilhação o fato da equipe mirim (sub-13) do Real Madrid vencer por 167×05 a equipe da L’Alcora pelo campeonato espanhol de basquetebol (ver reportagem em: https://www.elconfidencial.com/deportes/baloncesto/2018-06-18/baloncesto-real-madrid-alevin-l-alcora-polemica_1580480/).

Humilhação? Mas não é assim o esporte, uns vencem e outros perdem? O 7×1 no futebol não poderia ser comparado aos 167×05 no basquete? Talvez sim. Mas em se tratando de esporte para crianças, a coisa é bem mais complicada. Mais complicado ainda foi lembrar, ao ler a reportagem do basquete, que um dia fui protagonista de uma situação muito parecida.

Alguns anos antes do 7×1, eu disputava a penúltima rodada da Liga de Handebol do estado em que eu vivia. Éramos vice-líderes da competição, pois tínhamos um saldo de gols inferior ao da equipe colocada na primeira posição. A competição era infantil, portanto, sub-14. Nesta rodada, tínhamos a oportunidade de enfrentar a equipe lanterna da competição que não havia vencido nenhum jogo até então. Essa era, segundo minha percepção naquele momento, a oportunidade de tentar a liderança da competição.

Ser líder era mais do que estar à frente, era a garantia de que não gastaríamos verba com viagem para a disputa das semifinais e finais, uma vez que a competição tinha em seu regulamento que as finais iriam para a casa da equipe melhor colocada. Não gastar com transporte e alimentação era essencial, pois já estava difícil pagar as contas da equipe até aquele momento. Esta era minha maior motivação naquela reta final de fase classificatória.

Estávamos 60 gols atrás da equipe líder, logo, precisávamos de 61 gols de vantagem no jogo para sermos líderes e disputar a última rodada contra a equipe que dividia conosco o topo da tabela. Para ajudar, a equipe adversária chegou ao jogo com apenas seis atletas, 5 de quadra e um goleiro. Era a nossa chance!

No vestiário, inflei os garotos: “Temos que fazer 61 gols em 50 minutos e não tomar nenhum. Vocês podem, eu sei que podem. Eles estão com um jogador a menos. Vamos marcar pressão, deixar um jogador na sobra, roubar a bola e fazer um gol atrás do outro”.

Os meninos entraram obstinados. Um gol atrás do outro. Terminamos o primeiro tempo com 30×0. Mesmo assim, eu não estava satisfeito. Exigi ainda mais dos garotos, combinei de colocarmos um jogador fixo na marca dos sete metros adversários, defendo 5×5 e lançando contra-ataques para este jogador. Fomos com tudo para o segundo tempo.

Quando estava algo em torno de 45 gols para nossa equipe, os adversários encaixaram um contra-ataque e marcaram um gol. Eu não podia acreditar. Lembro-me da sonora bronca. Lembro-me de o ginásio ficar calado enquanto meus gritos ecoavam: “Não posso acreditar nisso! Como vocês deixaram isso acontecer?”

Pedi um tempo técnico, aliás, um sonoro tempo técnico! Os garotos voltaram para a quadra perceptivelmente alterados emocionalmente, parecia clima de guerra. A empreitada era homérica, 10 minutos para atingirem o total de 62 gols, agora que havíamos sofrido um revés.

Criamos as situações, mas erramos tiros de sete metros, o goleiro adversário cresceu no fim do jogo e a partida terminou 58×01. Com este resultado, iriamos para a última rodada contra a equipe líder, que vinha invicta há 2 anos na competição e que era a única equipe para a qual havia perdido no ano anterior. Eu, que antes buscaria um empate na casa deles, não poderia mais empatar. Era vencer ou tirar dinheiro de onde não tinha para pagar duas prováveis viagem de 3 horas em dias consecutivos para jogar as finais. Meu castelo desmoronou naquele momento.

O placar era de 58×01, e mesmo assim minha equipe saiu arrasada da quadra. A torcida não parecia aprovar o ocorrido e eu, com minha intempestiva personalidade, à qual marcou muito o início de minha carreira como treinador, estava irritado, muito irritado. Os garotos sabiam disso.

No vestiário a bronca foi enorme. Anos depois descobri que era possível ouvir tudo do lado fora, pois foi minha vez de estar na arquibancada daquele mesmo ginásio de esportes enquanto um treinador brigava com sua equipe. Senti muita vergonha de mim mesmo, embora, já soubesse que aquele meu jeito de atuar havia sido deixado para trás devido à maior maturidade, muita aprendizagem e terapia.

Saí derrotado e revoltado daquele jogo, mas não tinha a dimensão de tudo o que estava ocorrendo até o momento em que treinador da equipe adversária veio ter-se comigo:

– Parabéns Duda! Conseguiu o que desejava? Pelo jeito não, né?

– Olha Jair, sempre ensinei meus garotos a darem 100% de si na quadra. Ensinei a eles que respeito no esporte significa jogar tudo o que pode para que o adversário saiba que você não o menosprezou.

– Do que está falando Duda? Você não entende o que houve aqui? Qual a intenção de vencer uma equipe que veio sem reservas e com um jogador a menos por 58 gols?

– Eu precisava de saldo. Mesmo assim, não consegui o que planejei e terei que viajar para as finais, provavelmente. Não sei se venço a equipe do Claudião, eles não perdem nunca!

– Saldo Duda? Se esqueceu que antes dos números tínhamos crianças na quadra? Dê uma olhada para minha equipe? Comecei o ano com 18 garotos, fomos derrotados em todos os jogos por 15, 20 gols. A cada semana, tinha um garoto a menos treinando. Agora, com 58 gols de diferença você acha que minha cidade terá equipe de handebol novamente? Não se esqueça que para sua soberba continuar existindo você precisa de adversários, meu caro! Sem adversário, não há jogo.

Jair não me deixou responder, porém mesmo diante destas informações eu estava cego, consumido pela competição. Apesar das palavras de Jair não mensurei o tamanho do ocorrido de imediato. Na verdade, fiquei bastante bravo com ele por ter vindo me enfrentar pelo ocorrido na quadra.

Hoje, avalio tudo aquilo com muito pesar. Ao ler a matéria do jornal espanhol continuo a sentir vergonha pelo ocorrido, principalmente, por ter me deixado levar por um modelo de competição que me fez cego para o principal: crianças estavam a jogar handebol e, acredito eu, que aquele episódio possa ter justificado o abandono do esporte por parte de alguns daqueles cinco garotos adversários e, quem sabe, feito alguns dos 16 garotos de minha equipe pensarem se aquilo estava valendo à pena para eles.

Hoje sei que os 7×1 daquela Copa do Mundo de futebol masculino não tem, nem de perto, a mesma sobrecarga emocional de um 167×05 no basquete ou um 58×01 no handebol quando o público atingido é formado por crianças.

Entendo hoje que a díade treinador-competição, quando se trata do esporte de jovens, precisa ser melhor pensada por quem organiza e por que atua no esporte. Competir na infância não é só montar tabelas e colocar uma equipe de cada lado para jogar, é muito, muito mais do que isso. É necessário atuar no nível da ética e o treinador deve ser capacitado para adentrar a este ambiente, pois competição de criança não deve ser encarada como a competição de adultos.

Hoje tenho a convicção de que tenho que lutar por estas mudanças no esporte de crianças e jovens!

E, assim, sigo escrevendo minhas crônicas, estudando e tentando mudar esta realidade.

6 comentários sobre “Crônicas Pedagógicas: Placar final – 58×01

  1. Nessas categorias somos responsáveis por todos em quadra, incluindo os adversários. Somos educadores e devemos pensar em todos. Um campeonato é pequeno em relação ao futuro que nos espera. No início desse ano entrei com uma equipe sub10 e faltou meninas, somente tinha cinco e a goleira; a técnica do adversário colocou somente cinco. Fizemos um bom jogo. Meses depois, ocorreu o oposto; onde meu adversário mirim tinha apenas 05… conversei com as meninas e lembrei do episódio do início do ano… entramos com o mesmo número que elas. Fizemos um bom jogo, e todos saímos vencendo.

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