Crônicas Pedagógicas: mais àquele que tem mais!

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No fim de um treino, Vilma, que era uma atleta da equipe sub-14, me perguntou:

– Professor Duda, porque a Yasmin, a Mariana e a Milena também estão treinando com a equipe mais velha e eu não?

Olhei assustado para ela. Uma pergunta direta, olho no olho. Foi difícil responder.

– Olha Vilma, eu, bem… – Ela não deixou nem eu completar

– Professor, no início do ano você disse que com você todas teriam as mesmas oportunidades de aprender, que o treino só começaria quando todas nós chegássemos e que se houvesse atraso, o grupo deveria esperar.

– Sim, Vilma, eu disse, é que… – Já não sabia mais como me esquivar.

– Pois, é? Se elas treinam com as duas categorias, elas têm mais oportunidades e eu menos. Não acho isso justo!

Não soube como respondê-la. Falei a ela que iria refletir sobre o assunto, mas nem precisei pensar muito. Imediatamente me lembrei do chamado “efeito Mateus”, que foi primeiramente abordado pelo sociólogo Robert Merton.

Merton se baseia na bíblia cristã, mais especificamente no evangelho de Mateus que retrata o seguinte: “A todo aquele que tem, será dado mais, e terá em abundância. Mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mateus, 25, 28-29)”. Perceberam a semelhança entre este pressuposto bíblico e o que a Vilma tinha me falado?

Vilma, ao me confrontar, mostrou nas entrelinhas que sabia os motivos que levaram Yasmin, Mariana e Milena a treinar com a categoria sub-16, embora tivessem apenas 14 anos de idade. Vilma, de maneira sutil, embora muito direta pelo confronto direto comigo, me dizia: “Se elas já são boas, porque você dá mais oportunidades para elas ao invés de dar para mim que preciso aprender mais”. Fazia muito sentido.

Por gostar de trabalhar com crianças e jovens, por ser um curioso irremediável e por meio de muito estudo, percebi que o conhecimento empírico dos treinadores acaba sendo responsável por colocar em prática, diariamente, o “efeito Mateus” nas quadras de handebol de crianças e jovens, principalmente pelo conhecimento dos treinadores se sustentar, geralmente, no rendimento esportivo antes que quaisquer outros aspectos sejam avaliados. Tudo se sustenta na busca pelo talento.

Mal sabem os treinadores de crianças e jovens que sua percepção sobre quem é mais talentoso é fortemente influenciada por três pilares:

Primeiro, quem amadurece biologicamente mais cedo engana seus treinadores, os torcedores e até mesmo colegas da equipe. Ser mais maduro biologicamente antes do tempo faz algumas crianças e jovens serem entendidas como mais talentosas, afinal, são mais rápidos, resistentes e fortes que a norma de sua idade, levando socialmente a serem aceitas como possuidoras de melhor rendimento. De fato, esse jovem rende mais pois, na verdade, não é tão jovem em termos físicos se comparado aos seus colegas e adversários de mesma idade cronológica. Mas o tempo passa e estas vantagens vão se tornando menores após a puberdade.

Segundo, principalmente na iniciação esportiva, nascer poucos meses mais cedo do que outros colegas de equipe pode ser um fator vantajoso para uma criança que, por ser um pouquinho mais velha cronologicamente, pode estar mais preparada em termos cognitivos e motores para realizar ações dentro do jogo, revelando para treinadores um melhor rendimento se comparado aos demais colegas. Isso engana treinadores que pautados no imediatismo, tendem a julgar estas crianças como talentosas. Este fenômeno foi batizado como o “efeito da idade relativa”, fenômeno que tem mostrado reflexos no alto-rendimento, de modo que, principalmente no esporte masculino, acaba havendo maior concentração de atletas nascidos nos primeiros meses do ano se comparados aos poucos sobreviventes que nascem no fim do ano. Isso mostra que existe algo no meio do caminho entre o início da prática esportiva e a consolidação como atleta de rendimento que dá vantagens para aqueles mais velhos em meses (o livro “Foras de Série – Outliers” de Malcolm Gladwell, introduz muito bem esse assunto a quem tiver curiosidade sobre o tema).

Somado a tudo isso, um terceiro aspecto assenta-se sobre a estimulação precoce por meio de uma via diversificada de práticas corporais e esportivas. Isso pode ocorrer por meio do da pratica de jogos e brincadeiras que estimulem o movimento e que sejam espontaneamente vivenciados em ruas, parques, em casa, na escola ou pela prática de jogos e brincadeiras mais estruturadas e organizadas pelas próprias crianças ou pela intervenção do professor. Jogar e experimentar mais, e mais cedo, pode oportunizar melhoria do aprendizado precocemente e gerar melhor rendimento momentâneo durante a prática esportiva na iniciação e na fase de orientação para a especialização. Mas atente-se, não se trata de jogar handebol desde os seis anos de idade, especificamente. Trata-se de uma via diversificada e de exploração e vivência de jogos e esportes.

Imagine agora um jovem jogador que aos 12 anos de idade acumula inúmeras experiências motoras vivenciadas de modo diversificado, que nasceu de janeiro e é um maturador precoce. Esse garoto será, provavelmente, rotulado como um talento. Possivelmente demonstrará muito mais desenvoltura com o handebol, até aí, não há nenhum problema, pois está é a condição real deste jovem. O problema surge quando, sem perceber, treinadores passam a considerar o talento desta criança como inato, ou seja, um dom. Para estes treinadores, por ser um dom, portanto, uma condição associada ao sagrado, ao oculto, é muito mais fácil aceitar que “ele nasceu para jogar handebol” do que tentar entender que muitos fatores podem ter colaborado sobremaneira para esta vantagem esportiva momentânea.

Assim, um rótulo será colocado a este jovem, e socialmente, pela observação do momento, este rótulo será muito bem aceito. É aí que o treinador, por ser enganado, promove o tal efeito Mateus: admirados pela destreza destes “talentos precoces”, treinadores entram num quase estado de transe, e hipnotizados por aquele talento, ofertam muito mais atenção, correções, exigências, afeto e tempo de prática a esta criança do que aos outros que são julgados como menos talentosos para jogar handebol.

Completando a afirmação de Mateus na bíblia cristã, podemos entender que: a todo aquele que tem talento, será dado mais oportunidades, e terá em abundância. Mas ao que não tem talento, até o que tem lhe será tirado”

Devemos ter cuidado com estas informações, senão, sustentados num conceito de detecção de talentos, ao invés de pensarmos em como lidar com as diferenças presentes no ambiente de iniciação ao handebol, podemos investir tempo em detectar maturadores precoces, nascidos em janeiro e que tenham uma ampla e diversificada via de desenvolvimento do movimento por meio de jogos e esportes variados.

Se caminharmos por esta última via, continuaremos a ser enganados, fortalecendo este efeito. Devemos, como contraponto, entender que a noção de talento é construída com o tempo em função da junção destes três aspectos, associados à qualidade de nossa intervenção profissional.

Logo, como não podemos fixar uniformemente as taxas de maturação de um grupo de crianças ou mesmo mudar sua data de nascimento para que todas nasçam em janeiro, devemos intervir nas oportunidades que são ofertadas a estes jovens, de modo a investir em meios de potencializar uma pedagogia do handebol, afinal, nossos treinos podem fazer muita diferença em todo processo de aprendizagem ao longo da vida. Agora que sabemos as causas, não podemos mais ser enganados (ou fingir que está tudo certo).

Um dos pontos chave para garantir a oferta de oportunidades de aprendizagem relaciona-se à presença nos treinos.

Como treinador, sempre valorizei muito o momento do treino e, consequentemente, sou muito chato com faltas injustificadas (e às vezes até com aquelas justificadas pelo atleta ou mesmo pela família). Quem foi atleta onde trabalhei sabe bem disso. Para mim, faltar no treino é bem diferente do que faltar na escola que tradicionalmente se baliza no aprendizado individual, pois na escola, se um aluno falta à aula, a matéria caminha normalmente e ele que deverá fazer malabarismos para entender a matéria sem conhecer parte de seu conteúdo, o prejuízo é só do aluno. Já o professor continua de onde parou, uma vez que o conhecimento é compartimentalizado, pois se um aluno que ficar para trás, isso não interferirá em nada na dinâmica da sala de aula como um todo.

No handebol, numa equipe que já treina regularmente e que os níveis de rendimento são próximos, perder um treino é mais do que uma simples falta. Esta ausência poderá interferir no aprendizado de todos pois, por ser o handebol um esporte coletivo, não conhecer algum conteúdo já treinado e aprendido compromete individualmente a compreensão da linguagem do jogo, isso, por conseguinte, influencia a cadência coletiva do jogo. Logo, se um atleta faltar, todos demoram mais para progredir.

Apesar de entender todos estes fenômenos e entender a importância do ambiente de treinos, a vida nos prega peças, não é verdade? E Vilma deixou isso muito claro para mim.

Já no outro treino propus uma mudança na programação de nossos treinos. Ninguém mais subiria ou desceria de categoria, mas nas sextas-feiras, as meninas das duas categorias, sub-14 e sub-16, treinariam todas juntas das 15h às 18h. Neste dia, passei a dividir as meninas em função de seu rendimento (mediante avaliação que já fazia semanalmente). Assim, promovia “subidas” e “descidas” de categoria e abordava nestes dias os mesmos conteúdos de aprendizagem, porém, com níveis de complexidade que variavam de grupo para grupo, ajustando da melhor forma o conteúdo às possibilidades de aprendizagem de cada grupo.

A avaliação era semanal, de uma semana para outra, algumas garotas mudavam de grupo, experimentavam níveis mais complexos, enquanto aquelas que tinham grandes habilidades dividiam o espaço com garotas que apresentavam menor condição de jogo, assim, garantíamos trocas de experiência entre elas.

Não demorou muito para que os grupos se tornassem cada vez mais homogêneos, pois as diferenças entre as atletas que rendiam mais e menos em minha avaliação subjetiva semanal diminuía periodicamente. A Vilma teve a chance de treinar algumas vezes com as meninas mais velhas e, inclusive, passou a se destacar defensivamente, fazendo algumas passagens competitivas no grupo mais velho.

Vejam só: eu, um profissional da área do esporte, que sempre me gabei por ser muito estudioso e levar meus conhecimentos à prática, sem perceber, estava cometendo um grande erro pedagógico. Graças à percepção de Vilma (e coragem de se comunicar com seu treinador, o que para mim foi uma grande felicidade, pois sempre tentei manter uma relação o mais horizontal possível com atletas por onde passei), aquelas que tinham menos puderam ter condições mais parecidas com aquelas que tinham mais. Graças à Vilma, tentei manter sob controle, dentro de minhas possibilidades, o chamado “efeito Mateus”.

Um comentário sobre “Crônicas Pedagógicas: mais àquele que tem mais!

  1. Me vi relatado nesse texto.
    Um muitos momentos também faço essa distinção de quem é melhor e quem não, e as vezes oportunizo por apenas achar que a criança é talentosa por dom.
    Como somos falhos e não conseguimos ver isso…
    A ideia de um treino por semana ser dedicado a todas em um mesmo grupo, já será adotado por mim.
    Acredito que será uma nova fase de aprendizagem para mim.
    Um abraço.

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