Crônicas Pedagógicas: A culpa é das atletas

Passando por um ginásio de esportes aqui perto de casa, resolvi assistir a um jogo. Era a final de um importante torneio local e percebi que se tratava de uma espécie de “Davi x Golias”.

Uma das equipes parecia time profissional, via-se pelos uniformes, o enorme staff que compunha a comissão técnica e, fisicamente, jogadoras com “cara de atletas”. Do outro, nitidamente um projeto menor, uniformes desgastados, um treinador sozinho no banco com mais duas jogadoras compondo o banco de reservas.

Mas o que se viu na quadra não retratava isso. Davi, como na representação bíblica critã, estava vencendo o Golias.

Ao olhar para a equipe mais estruturada percebi que havia um conflito grande entre comissão técnica e as atletas. A treinadora da equipe pedia para as meninas cruzarem e virem chutando de fora, porém, naquele grupo nenhuma delas tinha essa característica. Era perceptível que aquele era um grupo mais rápido, bom de 1×1. As garotas até tentavam, faziam os cruzamentos e as armadoras vinha chutando, mas a necessidade de forçar o jogo de 1×1 parecia latente nas jogadoras, era o que elas faziam de melhor e os parcos gols saiam destas condutas e seus desdobramentos mediante a continuidade simples do jogo. O que eu via em quadra era uma equipe extremamente hábil e imprevisível individualmente que acabara presa num jogo pré-fabricado de cruzamentos e arremessos.

Havia também o mérito da equipe menos abastada, que percebendo que as jogadoras insistiam naquela movimentação, anteciparam alguns passes, recuperaram muitas bolas e abriram 6 gols ao fim do primeiro tempo. Golias estava muito ferido a esta altura.

No segundo tempo, depois de uma bronca daquelas, as meninas do time Golias voltaram para a quadra fazendo a mesma coisa, cruzamentos e chutes e estavam ainda mais presas a este modelo de jogo ofensivo. Pareciam desanimadas por não poderem jogar como gostavam, embora obedecessem cabalmente às instrução de sua treinadora.

Num dado momento, todos ni ginásio ouviram em alto e bom som: “Quer saber, façam o que quiserem”. Faltavam menos de 10 minutos e a partir desta orientação o placar foi diminuindo, livres para jogar as garotas da equipe Golias passaram a mandar no jogo, porém, assim que soou o apito final, o placar indicava um gol de vantagem para as adversárias. Golias caia ao chão para não mais se levantar.

Recém acabado o jogo, e mais intensa do que a improvável comemoração das vencedoras, ressoava muito alto a “senhora” bronca que as meninas perdedoras recebiam de sua treinadora, já naquele momento acompanhada de uma pessoa que aparentava ser o diretor do clube, além de todo staff da equipe:

– Não acredito que perdemos! – Iniciou a treinadora – Acho que nos equivocamos na seletiva que fizemos. Se vocês não conseguem ganhar nem desse timezinho como esse, imagina o vexame que vai ser no Nacional?

Percebia apreensão entre as garotas e o quanto o diretor apoiava as decisões da treinadora:

– Na minha opinião, todas vocês, garotas selecionadas, têm a obrigação de vencer um timezinho de cidade, acho mais é que devemos mandar todas vocês embora. A culpa dessa derrota é de vocês. Eu estou fazendo a minha parte, vou lá dou meus treinos, sei o que tenho que ensinar. Dou treino de handebol há muitos anos. Agora, se vocês não são capazes de aprender, o problema é de vocês.

Algo era notório: para aquela equipe todo sucesso é mérito do treinador que sabe o que faz e tem total conhecimento sobre a modalidade. Mas, se há fracasso a culpa é das atletas que foram incapazes de aprender aquilo que o treinador sabe que tem que ensinar. Esta visão coloca o treinador como o centro de todo processo. Ele é o detentor do saber e dono de todo conhecimento. Apenas os valores e os interesses do treinador são levados em consideração.

Eu penso de modo diferente. Por que não foram observadas as reais potencialidades daquele grupo? Fora deixado de lado todo potencial daquelas jovens garotas. Penso que aquelas atletas teriam evoluído mais e criado uma maneira de jogar que representasse de fato os potenciais delas se tivessem tido a chance de protagonizar o processo de aprendizagem ao qual estavam inseridas. Esta visão desloca o treinador do entro do processo e coloca o atleta, com suas potencialidades e necessidades, que podem não corresponder ao modelo de jogo desejado pelo treinador. Ao treinador caberá mediar, apontar caminhos nesse processo e ao atleta deve ser dada a possibilidade de protagonizar, pois são elas que podem transformar tudo o que apreendem em ação efetiva a partir de suas percepções e conhecimentos.

Claro que todo treinador tem suas preferências para organizar sua equipe, eu também tenho meu modelo ideal, aquilo que gostaria que minha equipe faça. Mas, todo treinador deve ter a sensibilidade de perceber que nem todo grupo que ele tem em mãos é capaz de responder de maneira satisfatória a sua forma ideal de jogar.

A equipe Davi, que lutou bravamente e se sagrou campeã daquela competição já estava fora da quadra, quando, bem pertinho de mim, ouvi a conclusão daquela reunião. Quem falava agora era o provável diretor do clube:

– Bem, vamos dar mais uma chance a vocês, mas se perderem novamente mandamos todas embora e fazemos como no ano passado, chamamos algumas meninas para jogar o estadual e vamos conseguir bons resultados. Para o nacional,  já vou em busca de outras garotas para reforçar esse grupo. Não quero que o clube passe vexame numa competição como esta.

A treinadora tinha seu posto garantido, afinal, a culpa era exclusivamente das atletas.

Este texto foi editado, sofrendo algumas modificações após sua publicação original, porém, o conteúdo central, sustentado na visão empirista, continua presente no texto.

4 comentários sobre “Crônicas Pedagógicas: A culpa é das atletas

    1. Edimildo, as ações do jogo de contato do handebol são muito interpretativas, pois trata-se de um jogo muito dinâmico, não sou árbitro, mas olhando a regra nunca percebi o termo “bola Presa”, porém na iniciação para a fluidez e segurança dos praticantes o árbitro pode adotar essa postura mais passiva, contudo quando um jogador tem a bola sob deu domínio e um outro “toma” é considerado falta.

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