Crônicas Pedagógicas: As pequenas especialistas

Lembro-me como se fosse hoje…

Era meu primeiro dia de trabalho na última equipe em que trabalhei. Era uma equipe de handebol feminino, bastante prestigiada no estado, devido à concentração de excelentes resultados de seu projeto de alto-desempenho. Apesar disso, ainda patinava na organização de projetos de iniciação e especialização ao handebol.

Eu estava lá, à frente de pouco mais de 30 meninas entre 12 e 16 anos de idade, que treinavam em dois grupos separados, o grupo de 12 a 14 e o grupo de 15 a 16 anos. E como sempre gostava de fazer, numa roda de conversa inicial, antes do primeiro treino do grupo mais novo eu perguntei: “Em que posição vocês jogam?”

Sustentado por muito debate acadêmico, leituras sobre formação em longo prazo e biografias de grandes atletas, eu tinha uma concepção muito bem formada sobre essa pergunta: esperava que nenhuma das garotas, especialmente do grupo mais novo, fossem capazes de responder isso com assertividade. Esperava algo como “Eu jogo na armação, mas às vezes faço a ponta também”, ou “jogo de pivô, de ponta direita e quebro um galho no centro”. Esperava experiências em diversas funções no jogo.

Mas, vieram as respostas: “Sou ponta direita”, “Jogo na armação esquerda”, “Sempre fiz pivô”.

Fiquei assuntado com as respostas. Esta era a primeira experiência de treino sistematizado para muitas daquelas garotas. Este dado eu já havia levantado anteriormente, pois muitas vinham das denominadas “escolinhas de handebol” do próprio clube ou dos “projetinhos sociais” da entidade (chamar de “projetinho social” me irrita tanto!).

Nestes ambientes, elas jogavam handebol 2 vezes por semana, 50 minutos por dia em turmas lotadas, com cerca de 30 a 35 crianças. Nas escolinhas, algo mais sistematizado, quase sempre com muita fila e pouco jogo. No projeto social, menos sistematização, com muito jogo, mas pouca atenção pedagógica.

Apesar dessa baixa experiência com o handebol, todas elas já se consideravam especialistas em uma função. Pensei comigo: como elas já sabem a posição em que jogam se são tão novinhas e mal treinaram na vida?

Outro fato que me assustou: nenhuma delas respondeu “Sou goleira”. Não que eu esperasse que uma goleira especialista, tática e tecnicamente formada, estivesse à minha disposição, pois esta não é minha concepção sobre formação esportiva, mas foi surpreendente ver que entre aquelas meninas, a função de goleira não foi mencionada.

Crônica 4 - Pequenas especialistas

Junto comigo, trabalhava a Alessandra. Ela começou a jogar com 13 anos neste mesmo clube e ainda era atleta da equipe principal. Formada em educação física, tinha cerca de 30 anos de idade e era a principal responsável pelas escolinhas de handebol do clube.

Alessandra jogava muito! Apesar de ser a mais velha da equipe e a jogadora que treinava menos, devido às responsabilidades profissionais dela (ao contrário das outras garotas que eram 100% tutoradas e custeadas pelo clube, já que vinham de diversas partes do país), ela sempre entrava na quadra como titular e, às vezes, quando não entrava, era a válvula de escape do seu treinador para reverter as raras situações difíceis em que a equipe se encontrava nas parcas competições estaduais e regionais.

Iniciado o primeiro treino do ano, Alessandra me fala baixinho:

– Duda, viu que estamos sem goleira?

– Sim, mas vamos nos tranquilizar, estamos começando o ano, logo resolvemos isso.

Meu combinado com Alessandra era que, nas terças eu ficaria à frente do treino das mais novas, pois ela não podia comparecer por estar numa escolinha, e nas quintas e sextas, eu focaria mais minha atenção nas mais velhas enquanto ela aplicaria os treinos das mais novas.

Sustentado em minha concepção sobre esportes de jovens e formação a longo prazo, meus treinos eram baseados em jogos modificados, que exploravam diferentes circunstâncias e que tinham uma característica básica pensando a idade dos 12 aos 14 anos: ninguém teria posição definida.

Antes de especializar, queria diversificar, colocá-las para arremessar do centro da quadra e das extremidades. Punha as canhotinhas para jogar na esquerda (uma heresia para muitos do handebol) para elas descobrirem como era jogar daquele lado.

Às vezes nos meus treinos eu fazia jogos em que algumas das posições clássicas do handebol eram suprimidas. Em alguns jogos, só havia as funções de armação. Era engraçado, pois as meninas que eram especializadas nas pontas e pivôs ficavam perdidas. O mesmo ocorria quando fazia 4×4 com duas pontas e duas armadoras, numa quadrinha reduzida. As centrais e as pivôs não sabiam o que fazer no treino e muitas vezes, se sentavam, pois para elas, aquele jogo não treinava a posição delas. Quando via isso explicava que era importante aprenderem a jogar em diversas posições, mesmo assim, elas eram tímidas e ficavam inseguras, pois era um hábito jogar só na sua função específica.

Muitas vezes, exigia pelas regras dos jogos que houvesse rodízio das garotas no gol a cada ataque, gol sofrido ou gol convertido. Tínhamos que encontrar nossas goleiras e algumas pareciam começar a gostar da coisa.

Nas quintas e sextas, os treinos eram bem diferentes: garotas organizadas em longas filas e cada uma tinha que ficar na fila de sua função específica, realizando muito treino de meia quadra em formato ataque contra defesa, rodando as atacantes que sempre retornavam para sua fila e quase sempre esquecendo de trocar as defensoras (que já não tinham muita motivação para defender depois de algum tempo).

No gol? Arcos pendurados, cones colocados nos cantinhos das traves com o objetivo de acertar estes alvos. Elas treinavam sem a presença de uma goleira e jogavam estritamente na mesma posição sempre. A outra metade da quadra ficava vazia, abandonada. Comecei a usar aquela metade com as mais velhas nestes dias.

Eu tentava respeitar a história da Alessandra no clube, ela já tinha seu espaço há anos, mas um dia, vendo aqueles arcos habilmente pendurados e os cones posicionados, questionei:

– Alê, por que você não vê se alguma delas que ir para o gol, mesmo que seja para brincar, descobrir a função? Tenho feito isso nos treinos de terça e algumas têm gostado bastante.

– Não Duda, pode ficar tranquilo. Lá na minha escolinha apareceu uma goleira boa de 13 anos. Como ela está começando, vou mantê-la treinando comigo lá por enquanto, mas quando tivermos jogo eu a chamo. Já temos nossa goleira! – Ela parecia feliz e empolgada.

Nesse diálogo caiu minha ficha. As meninas eram especializadas desde a escolinha, pois na visão da Alessandra, cada uma tem que aprender muito sobre muito pouco do handebol. Esta menina, por exemplo, virou goleira por quê?

Ao olhar para as filas do treino dela notei alguns estereótipos típicos: as pontas eram geralmente as baixinhas e/ou aquelas com as menores habilidades (independentemente da estatura); as pivôs eram geralmente aquelas que somavam uma grande massa corporal com uma boa estatura para a média do grupo; as armadoras esquerda e direita eram altas, fortes e com tendência ao protagonismo por terem altas habilidades; e as centrais, especificamente naquele grupo, eram pequenas, rápidas e muito fintadoras.

Para a Alessandra, cada posição tinha um perfil inato e específico ao qual a atleta deveria se enquadrar, ou caso não se enquadrasse, ia para as pontas onde parecia que ter menos habilidade significaria atrapalhar menos no treino. A função das goleiras, portanto, era composta de cones e arcos, afinal, nenhuma daquelas atletas tinha as caraterísticas de uma goleira no julgamento da Alessandra. Mais qual seria esta característica? Eu me perguntava.

Pensei um pouco sobre tudo isso e voltei a falar com ela tentando apresentar um problema possível, para quem sabe, sensibilizá-la a pensar de outra maneira:

– Mas se essa garota não puder ir para um jogo? Como faremos?

– Não se preocupe, já conversei com o Ésilo da escola Americana. Ele disse que para os campeonatos a sua goleira – Lembra dela? Aquela boa! – virá jogar com a gente.

Olha, foi difícil de engolir:

– Mas Alê, nossas meninas vão ficar arremessando em cones e em arcos enquanto isso? E outra, todas aqui treinando, treinando e de repente, vem duas goleiras que elas nem sabem que são e entram para o time?

– Não temos goleiras, temos que buscar fora.

– Lógico que temos goleiras Alê, só não sabemos ainda! Olha quantas meninas temos aqui. Além de goleiros, podemos ainda ter excelentes pontas, pivôs e armadoras que nunca experimentaram outra posição porque só jogam em uma função.

Nesse momento a Alessandra parou o treino e deixou as garotas irem beber água.

– Mas Duda, eu já conheço a maioria delas e sei, por exemplo, que a Leandra é boa no pivô. Então coloquei ela pra jogar ali porque ela vai bem – Leandra tinha 12 anos de idade e já era pivô na concepção da Alessandra e na da própria menina.

– Mas será que a Leandra não poderia ser armadora? Ou ponta? Ou ainda nossa goleira?

A Leandra era uma destas garotas que vinha treinando no gol às terças-feiras e vinha gostando de jogar lá.

– Não Duda, a Leandra é boa no pivô. Imagina, perder ela para o gol? Nem pensar.

Algo me dizia que para a Alessandra a goleira era aquela que não dava certo em nenhuma função da quadra. Colocar uma menina no gol era quase que uma ação misericordiosa, algo do tipo: “Querida, como você é ruim na linha e eu tenho pena de você, vai para o gol”.

Aquilo me deixou tão desanimado. Perguntava para mim mesmo o que eu estava fazendo lá. Então, mudei de estratégia:

– Alessandra, alguma vez você teve que colocar estas garotas para jogarem em posição diferentes das que elas treinam?

– Sim, isso acontece sempre. Uma vez a Mariana, que sempre treina de central, foi parar na ponta porque uma machucou e outra não pode ir. Daí tive que improvisar. Isso já aconteceu outras vezes.

Não que eu concorde com este tipo de abordagem. Considero a importância da diversidade nesta fase de aprendizagem do handebol por outros motivos, tais como: garantir maior conhecimento aplicado sobre a modalidade e ajudar na manutenção da garota na prática do handebol devido ao constante desafio e novidade a cada treino. Além disso, a especialização precoce, seja em uma só modalidade, seja em uma única função dentro da modalidade, pode acarretar em lesões por esforço repetitivo, esgotamento por sempre fazer a mesma coisa e, como fim desse processo, a retirada do handebol e talvez do esporte para toda a vida.

Mostrar para a Alessandra problemas corriqueiros à gestão da equipe na competição era a única maneira que eu tinha de tentar convencê-la. Apesar de ser ótima em termos de relacionamento humano, via nela uma preocupação real com as meninas que estavam ali com ela na quadra, na sua concepção, competir era espaço única e exclusivamente associado ao rendimento, era uma finalidade. Logo, se ela se convencesse de que isso poderia ajudá-la na competição, talvez ela pudesse mudar de opinião.

– Alê, percebe que temos que deixar estas garotas mais livres para experimentar novas posições? Inclusive e de goleira? Não precisamos ir lá fora, buscar a melhor goleira da cidade. Nosso grupo é esse. É com as garotas desse grupo que temos que conseguir resolver nossos problemas. Por mais que você tenha uma boa garota na escolinha, ela não é parte deste trabalho, não passa pelo que as garotas aqui passam. Temos que dar valor ao nosso grupo. Se precisamos de uma goleira, será aqui que vamos encontrá-la. Se antes você precisava improvisar, a partir de agora não será mais improviso, pois as garotas saberão jogar em diferentes posições.

A Alessandra me olhou meio atordoada. Vi que vasculhava na sua mente alguma coisa. As meninas já estavam retornando para a quadra.

– Vou recomeçar o treino, depois conversamos.

Durante todo o restante da semana eu e a Alessandra conversamos bastante sobre o assunto. Numa dessas conversas, ela disse que aquele papo no treino havia feito ela refletir as ações dela nas escolinhas. Ela disse:

– Acho que preciso rever como eu decido as coisas lá na escolinha. Duda, tenho meninas que estão comigo desde os 8 anos de idade e hoje estão treinando ali com a gente, mas só jogaram em uma posição. Isso aconteceu comigo, sempre joguei na mesma posição desde que comecei a jogar handebol com a Cláudia (era a treinadora da equipe principal). Não sei fazer mais nada a não ser jogar na minha posição. Nunca joguei do lado direito da quadra, por exemplo. Nunca fiz um treino de goleira na minha vida. Eu, como atleta, aprendi muito pouco de handebol se for parar para pensar.

Depois daquela conversa, nas quintas e sextas, nada de arcos e cones dentro do gol. Assim como eu fazia nas terças, havia o rodízio das garotas no gol. Em poucas semanas, a Leandra tomou gosto e passou a dedicar mais tempo de seu treino no gol. Ela fez isso por vontade própria e sem falar nada com a gente. Por vezes, eu falava “Venha um pouco pra linha, Leandra”, ela ia, mas logo já estava no gol. Cada dia melhorando, cada dia aprendendo mais.

– Duda, estou surpresa com a Leandra. Ela vai muito bem no gol. Melhor do que as meninas que eu estava vendo para ir para o campeonato. E acabou que outras meninas até estão indo bem no pivô, melhor que a Leandra. No fim das contas, achamos nossa goleira, como você disse que ia acontecer.

Ao fim de 5 meses, não só a Leandra, mas outras três garotas, uma que era “especialista” no pivô de 12 anos, uma “especialista” na armação de 14 anos e uma “especialista” na ponta esquerda de 13 anos de idade, passaram a dividir seu tempo de treino entre o gol e as diversas funções na quadra. Uma equipe que não tinha goleiras, agora tinha quatro promissoras goleiras e mais um monte de possibilidades de organização das atletas em quadra. Isso, sem buscar nenhuma solução fora do grupo.

Se antes elas sabiam muito de uma posição e sabiam pouco de handebol, depois disso, sem dúvidas, sabem muito mais de handebol. Jovens atletas, antes de serem especialistas, devem ser generalistas. Deixar a especialidade um pouco para mais tarde é um presente para essas garotas e também para a continuidade delas na prática do handebol.

2 comentários sobre “Crônicas Pedagógicas: As pequenas especialistas

  1. A partir deste ano comecei a trabalhar na iniciação com essa perspectiva, tento deixar as alunas bem a vontade para jogarem onde se identificam e experimento novas posições e situações, senti que até o número de evasões diminuiu, pois as vezes colocava elas para jogarem em posições que não gostavam, isso desmotivavam e contribuía para o abandono da modalidade.

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