Crônicas Pedagógicas: O milagre que vem de fora

Um dia destes, entre uma aula e outra da faculdade em que dou aulas, recebi uma mensagem de um ex-atleta em meu WhatsApp:

– Bom dia Professor! 😀

– Bom dia Marquinhos! Tudo bem rapaz?

– Tudo bem. Muita coisa mudou no time, professor!

– Ah Marquinhos…Sabe que saí da equipe por alguns motivos chatos. Não sei se queria conversar sobre isso.

– Mas professor, lembra que você valorizava o grupo? Nossa dedicação e evolução?

– Sim, ué! É assim que deve ser no esporte coletivo… todos se ajudam dentro de quadra e todos devem se comprometer como o grupo. Só assim podem evoluir!

– Pois é! Uma das coisas que você me ensinou é que treinar era sagrado. Aprendi com você que somente treinando é que todos poderiam contribuir de alguma maneira para o sucesso do grupo. Eu e todos os meninos aprendemos muito com isso.

– Legal ler isso!

– Lembra que você não começava o treino até que todos estivessem prontos? E que se alguém faltasse e não desse justificativa, você suspendia o treino?

– Claro Marquinhos! Pra mim, faltar em treino é como faltar numa aula. A diferença é que não tem como o atleta recuperar a matéria perdida como na escola. Tudo o que se aprende no treino só faz sentido dentro do grupo. Se um atleta faltar, no próximo treino o que ele não aprendeu fará falta não só para ele, mas para todo o grupo.

– Nós saíamos ligando, mandando mensagem pra quem não tinha chagado ainda, era o maior desespero, kkkkkk 🤣🤣🤣🤣

– Um falta e todos se prejudicam…

– É exatamente sobre isso que estou falando professor. Tudo isso fez nossa equipe evoluir tanto. Não aprendi apenas a treinar handebol, mas aprendi a ser responsável com meus compromissos a me organizar, ajustar meus horários. Tudo isso me fez aprender muito. Mas acho que tudo mudou agora, professor.

Neste momento, eu cedi à minha curiosidade…

– Afinal, o que houve Marquinhos?

– Professor, estávamos nos preparando para uma etapa do campeonato estadual. Foram 2 meses de treinos e amistosos. Nos dedicamos bastante professor. Joguei pouco os amistosos, mas treinei muito forte, dei meu melhor. Aprendi com você que somos mais do que a soma de nossos esforços, e que se alguém não se esforça, interfere muito no crescimento do grupo como um todo. Mesmo jogando pouco, queria ajudar a equipe nem que fosse treinando muito.

– Ora, é isso ai Marquinhos! Não estou vendo nenhum problema nisso. O que mudou então?

– Professor, na competição, podem ser inscritos 16 atletas e temos 16 treinando, mas ontem, aconteceu uma coisa que nunca aconteceria se você estivesse aqui com a gente.

– O que foi?

– No último treino, anteontem, nosso novo professor disse que levaria apenas 14 e cortou o Biel e eu 😔 😭

– Às vezes isso acontece Marquinhos, existem custos. Alimentação, alojamento, inscrição…às vezes tiveram que segurar alguns gastos, mas isso é coisa que geralmente não se fala para os atletas, embora eu ache que se o problema é financeiro abrir a situação para o time pode ser importante, pois todos podem tentar se juntar para levantar a grana que falta, bem…eu faria isso.

– Não era dinheiro professor, não era…Ontem fui lá na saída da equipe, eu e o Biel, porque é do ladinho de nossa casa. Fomos nos despedir da rapaziada e desejar boa sorte. Tudo ia bem, até que o Diretor do clube chegou com dois outros rapazes no carro dele. Professor, os moleques eram gigantes, fortes que nem um touro.

– Marquinhos, não me diga que…😡

– Sim professor. Lembro que você dizia que em seu time só jogaria quem treinasse, mas isso mudou.

– Meu Deus! Sério Marquinhos? 😨

Esse era um dos motivos que mais me chateavam naquele clube. Sempre que chegava o momento de viajarmos para uma competição, o Diretor dizia que tinha visto um ou outro garoto jogar e que iria trazê-los para competir pelo clube. Justificava que era uma maneira deles conhecerem o clube e tentar trazer garotos fortes para comporem no futuro a equipe de rendimento. Não sei o que o Diretor entendia de desenvolvimento de atletas a longo prazo, pois com jovens de 13 e 14 anos de idade, pouco ainda se sabe sobre seu desenvolvimento futuro.

– É isso mesmo. O Diretor reuniu todos que iam jogar, eu e o Biel ficamos de fora da roda, e apresentou os dois caras para o time. Disse que eles viriam reforçar a equipe, porque o clube tinha um nome a zelar e era mais do que necessário sermos campeões desta etapa para deixarmos uma boa imagem. Tínhamos que ter resultados iguais ao do time adulto que sempre vencia o estadual.

– Poxa Marquinhos! O time adulto é formado por atletas selecionados, recebem incentivos, bolsa-atleta. Normal eles serem muito acima da média das outras equipes do estado. Agora comparar o rendimento deles com o de vocês? Isso não tem cabimento.

– Como o novo professor deixou isso acontecer? Com você isso nunca aconteceria!

– Pode não ser culpa dele. Pode ser que para se manter trabalhando ele tenha que engolir essas coisas. Eu saí porque esse fantasma do “atleta de fora” sempre surgia na véspera das competições. Briguei algumas vezes nas reuniões e dizia que jamais cortaria um jogador do time para trazer alguém só para jogar. Nunca acreditei nesta história do milagre vir de fora.

– Mas professor, você tinha que ver a molecada do time 💪💪💪

– O que houve?

– O Rodrigo falou que não iria embarcar se isso acontecesse, disse que não era isso que ele tinha aprendido no esporte. Depois que ele falou isso, todos os meninos também se manifestaram e disseram que não iriam mais jogar.

–  💪

O Rodrigo sempre se destacou por sua liderança fora e dentro da quadra! Viajar sem o Rodrigo poderia fazer a vinda desses dois outros garotos ser inútil. Rodrigo me ajudou muito e me deu muito trabalho também. Tinha esse gênio, essa atitude. Sempre valorizei a figura dele dentro do time.

– E o que aconteceu depois disso Marquinhos?

– O novo professor tentou convencer que isso era o melhor a se fazer. Disse que se os 14 estavam lá é porque eles eram os que mais se destacaram e isso era um prêmio. Que eu e o Biel tínhamos a partir de agora um estímulo para evoluir mais. Disse que quando nós dois estivéssemos com o mesmo rendimento deles nós seriamos inseridos no grupo competitivo novamente. Mas que no momento, para sermos campeões, precisávamos de reforço e que eu e o Biel não podíamos contribuir.

– 🤔 Pra que falar uma coisa dessas? Estou entendendo você agora…

– Professor, depois do Rodrigo ouvir isso, ele perguntou: “E quem vai ter que sentar no banco para esses caras jogarem? Duvido que vocês tenham trazido os dois para serem reservas. Todo mundo aqui treinou muito para ficar de fora”. Nesse momento ele puxou eu e o Biel pra dentro da roda. O novo professor ficou branco, cara. Ele não sabia o que dizer. Os 14 garotos do time cruzaram os braços e disseram que não iriam embarcar. Eu e o Biel fizemos a mesma coisa, kkkkkk

– Mas, e aí?

– Depois de conversarem um pouco, o diretor foi embora com os dois garotos, estava vermelho que nem você quando ficava nervoso com a gente nos jogos, lembra? kkkkk 😄😄😄. O novo professor parecia meio desanimado, mas embarcou com o meninos para viajar. Eu e o Biel já estávamos indo pra casa, mas o novo professor desceu do ônibus e falou: “Marcos e Gabriel, já que duas vagas foram liberadas vocês vão também. Arrumem a mala logo e venham”.

– 🤔 E você foi?

– Claro que sim! Sou parte do time independentemente do que o novo professor pense sobre mim. Eu e o Biel nos arrumamos rapidinho e viajamos com o time 💪💪💪

– Isso aí! 👊

– Agora preciso dar um tempo aqui professor, vamos começar o aquecimento aqui para o primeiro jogo.

– Vai lá Marquinhos! Sucesso aí para vocês!

– Obrigado professor. Mesmo sem você aqui, tudo o que aprendemos com o senhor ainda está vivo. Um abraço!

– 👋👋👋

E depois dizem o esporte aliena! A alienação ou a criticidade não são fatores internos ao esporte, mas resultados daquilo o que se faz dele.

Um comentário sobre “Crônicas Pedagógicas: O milagre que vem de fora

  1. Ótima crônica! Isso acontece o tempo inteiro, e tem sido o grande motivo de muitas equipes encerrarem suas atividades.
    1) Os alunos da cidade que recebe reforços perdem a motivação;
    2) As equipes formadoras desses ‘reforços’ perdem as suas referências;
    3) As outras equipes da região perdem a chance de vencer;

    Resultado: em médio prazo, somente uma equipe resta, com cada vez mais reforços (já que desmotivou a própria base), a longo prazo não tem de onde tirar esses reforços (já que destruiu as outras equipes da região).

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