Crônicas Pedagógicas: Uma contra todas!

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Dia desses, estava vendo um jogo de uma competição de handebol da região em que vivo. Em quadra, duas equipes femininas com crianças até 14 anos de idade.

De um lado, uma equipe bem montadinha, com uma proposta defensiva diferente daquelas que eu costumeiramente vejo aqui no meu pedaço. Era uma estrutura 6:0, mas com um funcionamento muito ativo. Quando a bola chegava nas mãos da central, duas garotas subiam momentaneamente nas armadoras esquerda e direita, atrapalhavam muito as decisões da central que, por consequência, cometia muito erros devido as estas ações defensivas. Este time recuperou várias bolas, ligou vários contra-ataques. Em alguns obteve êxito, em outros não, como é de se esperar numa equipe tão jovem.

Do outro lado, uma equipe bem diferente. Jogava o mesmo 6:0, só que bastante passivo, parado em linha de seis metros. Isso forçava a equipe adversária a arriscar arremessos de longa distância ou induzia o jogo para as extremidades da quadra com arremessos das pontas, com pouquíssimo ângulo. Como esta equipe conquistava a posse de bola? Apenas depois da outra equipe ou arremessar, errar algum passe ou cometer alguma infração. Tinham que esperar.

De um lado, uma trabalho que buscava controlar as ações do jogo de maneira ativa. Do outro, uma equipe que explorava as principais dificuldades de jovens meninas de 13 e 14 anos de idade: arremessar com potência e precisão de longa distância ou arremessar com eficiência das regiões mais difíceis da quadra, as extremidades. Esta última equipe fazia isso por um motivo óbvio: valia tudo para vencer!

Com efeito, me deliciei com a proposta da primeira equipe, que ofensivamente ainda tinha muito o que evoluir e, contra aquele paredão, mal conseguia finalizar a gol, mas que defensivamente mostrava que tinha aprendido a jogar bem.

A equipe mais conservadora, por sua vez, ainda tinha uma característica que observo ser muito comum aqui na minha região. Uma jogadora muito forte, atuando nas armações, mas principalmente na esquerda, que desequilibrava muito o jogo. Era extremamente exigida em quadra e fora dela. Era só ela pegar na bola que as cobranças de seu treinador vinham de forma impetuosa. Tinha a impressão de que apenas ela interessava ao seu treinador: “Milena, vai pra cima!”, “Milena, você é muito mais forte que ela, finta e vai para o gol”, “Milena, passou a bola pra quê? No nosso time você é que tem que decidir!”.

Primeira coisa que aprendi, o nome dela era Milena. Sabia seu nome e não desconfiava de jeito nenhum qual era o nome de suas companheiras.

Milena, realmente, era boa. Boa demais! Tão boa, que quando o treinador de sua equipe percebeu que a defesa adversária subia nas armadoras quando a bola chegava na mão da central e constatou que a sua jovem central estava errando muito, decidiu colocar a Milena no centro. Cada vez que ela pegava a bola era um gol (ou um arremesso muito perigoso, que às vezes a goleira adversária pegava. Ela não arremessou nenhuma bola para fora).

Do meu lado, havia um grupo de pessoas que eu acredito serem de sua família. Era um tal de: “Vai Milena!”, “Esqueça as outras, elas erram muito, vai você!”. Muito incentivo para ela.

Aos 15 minutos do segundo tempo, o jogo estava 14×12 para a equipe da Milena e aconteceu algo inusitado, ela torceu o pé. O treinador vai ao desespero. A família parece em comoção. Milena não se levanta e, como pede o protocolo do Handebol, a arbitragem sabidamente para o jogo. Eis que ouço do banco:

– Não me chama pra atender ela não. Ela está bem? Não é Milena? – era o treinador desesperado, pois a regra do handebol orienta que caso algum atleta precise de atendimento, sem que a equipe adversária seja punida com advertência ou punição progressiva por ocasionar a lesão, a atleta deverá ficar três ataques fora da quadra para ser devidamente atendida.

Percebi um dilema grande em quadra: atender a Milena e perdê-la por três ataques ou pedir para ela se levantar e continuar em quadra com um possível entorse de tornozelo?

Por sorte, esta decisão não dependia do seu treinador, mas do bom-senso da arbitragem que solicitou a entrada do treinador em quadra. Inicialmente ele se negou: “Ela está bem, não precisa!”, embora Milena chorasse.

– Não é você que decide professor, eu já autorizei a entrada de alguém da comissão, ela deve ser retirada para ser atendida e ficará três ataques fora” –  Disse o árbitro.

Contrariado, o treinador entra, levanta Milena e a tira da quadra dando uma baita bronca nela: “Tem que levantar rápido, o jogo está apertado, você tem que ficar de pé!”

E a família? Calada! Até que um senhor, que acredito ser o pai, olha pra mim. Acho que percebendo que eu estava muito atento ao acontecimento, ele diz:

– Ela tem que voltar. Jogar machucada faz parte, é a sina de todo grande atleta. Vi tantos jogadores machucarem e jogar no sacrifício. Não admito que ela fique fora. Se ela não voltar, vou ter que falar com o treinador.

Nem precisou, um rápido atendimento e após três ataques, Milena substitui a garota que entrou no lugar dela. Entra mancando, cara de dor, mas recebe a bola e faz um golaço com um arremesso em apoio de muito longe. Um golaço, gente!

O pai me olha com cara de quem diz: “Sacrifício, ela tem que aprender a jogar no sacrifício!”

Com tudo isso acontecendo em quadra, sua equipe vence de dois gols com a Milena marcando mais um no fim do jogo. Embora ela não conseguisse mais voltar para defender e tenha ficado parada perto da linha tracejada da equipe adversária, a barreirona de sua equipe forçou mais um arremesso adversário do cantinho da quadra, recuperou a bola e lançou para ela, que só virou o corpo e arremessou novamente com muita potencia.

O time da Milena venceu mais uma, era a equipe líder da competição. Do outro lado, a equipe derrotada parecia triste, mas sua treinadora não. Saiu sorrindo, conversando com suas garotas como se aquilo fosse exatamente o que ela esperasse do jogo. Jogar bem, vencendo ou não. Estava nitidamente extasiada e feliz.

O próximo jogo da rodada seria entre as mesmas equipes, mas agora duas categorias a cima, jogo entre garotas de 17 e 18 anos. Algumas meninas repetidas nas duas equipes, entre elas, Milena, que não realizava o aquecimento, aguardando sentada no banco, de onde imaginava eu, ela sequer sairia.

Esperei mais alguns minutos, os árbitros realizam o sorteio e quando as duas equipes entram em quadra, quem estava lá, na armação esquerda? Sim, Milena.

Não pude ver mais aquilo. Não estava ali para assistir tortura, estava lá para assistir handebol.

Crônicas 2 - Todas contra uma

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