Crônicas Pedagógicas: A caridade que segrega…

Vocês conhecem a Joana e Mariana? Não? Então vamos às apresentações!

Joana é uma garota de 15 anos de idade, de classe média alta, vive na região central de uma grande metrópole e estuda num dos melhores colégios preparatório desta cidade.

Mariana, também de 15 anos, vive na mesma metrópole, porém na região noroeste, local de IDH baixo e de grande vulnerabilidade social. Ela estuda na escola estadual de seu bairro.

Sabe o que une a vida de ambas? O handebol!

Ambas, no início do ano, foram convidadas a treinar num programa esportivo destinado a jovens atletas desenvolvido pelo único clube de handebol de seu município. Este clube, por sinal, tem como eixo norteador de seus programas o rendimento esportivo, sendo quase toda atenção e finanças advindas de projetos aprovados em leis de incentivo direcionadas para o programa destinado a garotas a partir dos 18 anos de idade, que vêm de todo o país para jogar neste clube. Estas atletas recebem bolsa do governo estadual, estudam em faculdade privada com bolsa de estudo e vivem em boas instalações, tudo às custas do dinheiro advindo de leis de incentivo que são 100% direcionadas a este programa em específico.

Agora, vamos às minhas apresentações. Meu nome é Duda Bernardi, sou professor de educação física, já com mais de 30 e recém ingresso no clube. Após um breve estágio no ano anterior, fui convidado a assumir as equipes que compõe o programa esportivo de jovens. Serei o treinador de Joana e Mariana. Meu trabalho no clube é voluntário, uma vez que por se sustentar com verbas incentivadas, o clube dificilmente conseguia aprovação para pagamento da comissão técnica.

Já atuei em outros programas esportivos que envolviam o handebol em outras localidades desde meu ingresso na universidade. Percebi que o programa de jovens deste clube é um reflexo do programa principal. Em minha primeira reunião com a diretoria e comissão técnica, recebi da diretoria a primeira demanda competitiva: “Temos que ser campeões do campeonato estadual em todas as categorias que vamos disputar esse ano. Do infantil ao adulto”. Isso me motivou, pois dada a dimensão do programa esportivo principal, imaginei que teria boas condições de trabalho para um programa competitivo com jovens atletas.

No primeiro treino do ano conheci Joana e Mariana e rapidamente percebi que neste grupo, composto por 18 garotas entre 15 e 16 anos de idade, algumas eram de classe social mais abastada e outras mais humildes economicamente. Isso não me preocupou, afinal, entendo que o esporte é mais do que uma oportunidade de direcionamento para a performance competitiva, pois valores para a vida podem ser potencializados neste espeço.

A existência de grupos de distintas realidades sociais para mim nada mais é do que um estímulo para desenvolver um importante trabalho: oferecer oportunidades equitativas para que, pelo menos naquele espaço, estas diferenças não fossem um fator de segregação ou de privilégios.

Por isso amo o handebol e adoro trabalhar com jovens.

Joana e Mariana pareciam animadas com minha presença como o novo treinador delas. A cada treino evoluíam, demonstravam interesse e aparentavam gostar mais e mais de handebol.

Após algumas semanas, fui convocado para uma reunião de planejamento e recebo a seguinte notícia: “Não temos nenhuma verba para o programa de jovens. Por isso, a partir de agora, todas as garotas deverão pagar R$100,00 por mês para ajudar com os gastos para o estadual”.

– Espera aí! Como assim? Vocês montaram um programa de jovens com 18 garotas sem nenhum recurso previamente captado para este programa? – Não fiquei contente com a notícia.

–  Temos um dinheiro que deve sair, mas não temos nada agora. O que temos, que sobrou do ano passado, já está direcionado ao programa principal que é o carro chefe de nosso clube. Mas fique tranquilo, aqui é comum os atletas pagarem para competir – Diz o Diretor.

Apresento-lhes o Diretor. Ele é um jovem adulto, também de aproximadamente 35 anos de idade, responsável pela gestão financeira do clube. É ele que escreve unilateralmente todos os projetos de lei de incentivo, decidindo por critérios próprios o que deve ou não ser solicitado. Uma peculiaridade: o Diretor é filho do dono de um dos maiores conglomerados comerciais da metrópole. Apesar disso, o Diretor não tem força com sua família e nenhum centavo destes empreendimentos são direcionados para o programa esportivo do clube ao qual preside. O diretor tem sangue de comerciante e vê o esporte como um espaço em que o sucesso é mensurado unicamente por resultados, que quanto mais expressivos e em esferas maiores, melhor, independentemente da idade de quem joga.

Retruquei:

– Espera, foi prometido a estas garotas que elas jogariam o campeonato estadual, fui cobrado que deveria ser campeão com as equipes de base, mas nenhum centavo foi direcionado para o programa de jovens? Agora vocês querem que os pais arquem com aquilo que foi prometido às crianças?

Novamente, o Diretor falou:

– Sempre fizemos dessa forma. Fique tranquilo, elas já estão acostumadas.

– Vocês conhecem o grupo? Tenho ali desde garotas bem abastadas, que acredito que R$100,00 não farão falta, mas tenho garotas que têm muita dificuldade para treinar. Chegam a faltar na última semana do mês pois não conseguem dinheiro para pegar o ônibus.

Uma pausa importante. No ano anterior, o clube foi agraciado com verbas para operacionalização de um projeto social. Abriram em parceria com escolas municipais e estaduais espaços para vivência e aprendizagem do handebol. Conversando com o Diretor sobre o programa durante seu estágio no ano anterior, eu percebi uma visão bastante funcionalista deste projeto dentro do clube: “É um projeto social. A ideia é tirar as crianças das ruas, das drogas. Usar o esporte como ferramenta social”.

Fico muito irritado com essa visão! Para mim projeto social não deve ser pensando assim, parecia que a aprendizagem do handebol, em si, de nada valia. O mais importante era ter gente, números e sustentar a ideia e que a instituição ajudava os pobres. Acho que projetos sociais deveriam ser entendidos como “Programas de Desenvolvimento pelo e para o Esporte” e entendo que, acima de tudo, deve ser disponibilizado para todas as faixas econômicas. Para mim, crianças, sejam ricas ou pobres, devem ter acesso ao esporte.

Mariana é fruto deste programa. Recebia lanche de graça, uniforme de graça, treinava de graça. Por isso ela se manteve jogando e aprendeu a gostar de handebol. Mariana era uma das garotas que eu sabia que faltaria quase todas as últimas semanas do mês, pois além dela, sua irmã também jogava na equipe (no time mais novo). Como uma família como a dela conseguiria arcar com R$200,00 por mês para manter a filha jogando handebol?

Argumentei isso com o Diretor, e pedi que tudo fosse de graça e ponderei que a diretoria deveria buscar meios de arcar com estes custos, uma vez que já havia repassado às jovens e às suas famílias os objetivos do ano e a garantida participação no estadual de handebol. Até me prontifiquei em ajudar a tentar dinheiro com patrocinadores, se fosse necessário.

O Diretor, como bom filho de comerciante, iniciou uma negociação: “se R$ 100,00 é muito, vamos cobrar R$ 30,00 mas pede para trazerem R$40,00 e se derem uma nota de R$50,00 diz que está sem troco”. Ou seja, depois de um debate, acalorado por sinal, fixou-se uma mensalidade de R$50,00 por mês. “Vamos chamar isso de contribuição, assim não parece algo obrigatório para ninguém”.

Não fiquei nada feliz. “E se a garota não conseguir pagar? Sai da equipe?”

– Claro que não – disse o Diretor – para isso, trabalharemos com o conceito de Bolsa-Atleta. Quem tiver renda inferior a 1 salário mínimo poderá treinar sem pagar.

Bolsa-atleta? Pedir comprovante de rendimento para a família? Contribuição para não parecer obrigatório? Nesse momento quase eu enlouqueci!

Na minha opinião, por serem estas garotas convidadas a atuar numa equipe que representaria o clube em competições oficiais, era obrigação do clube encontrar meios para arcar com isso. Ou então, deveriam dar um passo para trás e primeiro estruturar o programa de jovens, buscar apoiadores, conseguir alguma verba. Jogar nas costas das garotas era um erro. Expor a garota e a família para que recebesse uma bolsa-atleta por pura caridade, parecia um erro ainda maior para mim.

– Gente, não é assim que funciona. Essas garotas não entraram aqui buscando uma bolsa para jogar handebol. Elas foram convidadas, mudaram toda sua rotina diária, estão se dedicando por terem sido aceitas no clube. E agora elas vão dever uma bolsa-atleta? Ninguém veio aqui para receber caridade, elas vieram para ter a oportunidade de mostrar que com condições iguais e atenção pedagógica, elas podem evoluir e aprender mais sobre o handebol. – Eu estava inconformado.

– Para com isso Duda! Ela não vai precisar pagar. Não era isso que você queria? Vamos arrecadar menos, isso vai prejudicar a elas e ao clube, mas vamos fazer assim! – Esbravejou o Diretor.

Eu achava que a coisa não poderia piorar, mas piorou:

– Outro assunto. Vamos uniformizar todo nosso programa, das escolinhas ao principal – mas isso não é bom? – Porém, as escolinhas vão pagar R$60,00 pelos uniformes o programa de jovens pagará R$50,00. Para ter de graça, a garota tem que entrar para o time principal. Isso vai motivá-las a continuarem treinando para serem atletas de alto-rendimento do clube.

Eu sabia que a verba destinada ao programa principal já arcava com os custos de todos os uniformes que seriam feitos. Sabia que aquilo era desnecessário. Os uniformes já estavam pagos. Também sabia que o perfil captador do clube não absorveria essas garotas para o time principal. Era tudo falácia para arrecadar dinheiro. As meninas seriam exploradas.

– Espera aí? Uniforme, pelo que sei é algo de uso obrigatório. Como vamos obrigar as crianças a pagarem pelo que devem ser obrigadas a usar? Ou damos a todas ou não damos. Se quiser, podemos fazer alguma campanha, rifas, o que for para que juntas elas levantem o dinheiro para compra dos uniformes para toda a equipe. Mas cobrar delas não! Sabe o que vai acontecer? Vai ter metade treinando de uniforme e outra metade sem uniforme, o sentido de igualdade dentro do grupo vai para o ralo. Gente, vocês não tem ideia do público que está frequentando os treinos! O projeto social do ano passado fez muitas meninas migrarem para a equipe competitiva. Elas não conseguem pagar mais R$50,00 por um uniforme.

Abrir um “projetinho social”, como eles chamavam, criou uma demanda que eles não pensaram que haveria. Eles não se prepararam para o que poderia acontecer. Apenas queriam ter no projeto social um elemento de marketing e divulgação do clube como uma entidade que se preocupa com a responsabilidade social. Também queriam aproveitar para comprar materiais esportivos que foram utilizados mais nos programas competitivos do que no programa social.

A situação sobre os uniformes sequer foi debatida. A decisão foi tomada. Fui do paraíso ao inferno em uma só reunião. Para mim nada daquilo fazia sentido.

No primeiro treino após a reunião, passei todas estas informações às garotas. Algumas entraram e choque. Ao fim do treino, Mariana e sua irmã vieram ter comigo:

– Professor, vamos ter que parar de treinar. Não conseguiremos pagar esse valor todo.

– Não se preocupem, vocês não vão precisar pagar. Peça para seus pais entrarem em contato com a diretoria para apresentar o comprovante de renda de vocês. Na situação de vocês daremos uma bolsa-atleta e tudo ficará bem.

– E o uniforme? – Disse Mariana.

– Faz parte da bolsa também. –  Rebati imediatamente.

Isso pareceu aliviar Mariana.

Passado o primeiro mês, fiz a entrega dos envelopes para que cada atleta arrecadasse dinheiro de sua família para pagamento da primeira “contribuição”. Fiquei muito preocupado com a situação de Mariana e outras garotas que receberiam a bolsa. Não querendo expô-las, entreguei um envelope para cada uma delas também, na frente de todas as outras garotas. Assim, como prefiro que seja, todas são tratadas socialmente da mesma forma e ninguém julgaria ou questionaria o porquê de algumas receberem envelopes e outras não.

No treino seguinte, Joana trouxe seu envelope, dentro havia R$100,00:

– Meu pai disse que achou melhor já dar de dois meses, para ajudar com a nossa próxima viagem que será para muito longe. Assim, já ajuda com a contratação do ônibus.

Eu havia comentado também que todos os custos competitivos seriam pagos com a ajuda mensal. Faríamos no primeiro mês uma viagem para uma cidade distante 550 km do município sede do clube. Isso significaria um gasto de aproximadamente R$ 3500,00 com transporte. Eu também distribuí rifas, com valor de R$5,00 cada número, para ajudar de outra maneira a arrecadar essa grana.

– Já vendi todas as rifas, toma mais R$100,00 – Disse Joana.

– Ué, mas era R$5,00 cada número. Era pra ser só R$50,00 – Argumentei.

– Lá na minha escola consegui vender por R$10,00 cada número. Vendi tudo num dia só!

Então era esse o perfil de público ao qual o Diretor estava acostumado a atender. Pelo jeito, muita coisa havia mudado e o Diretor não se preocupou em entender esta nova situação.

Passaram-se duas semanas e nada da Mariana entregar o envelope. Chamei ela de cantinho, no meio do treino sem que ninguém percebesse:

– Mariana, você não entregou o envelope. Está aí com você?

– Sim, está na bolsa.

– Pega lá pra mim. Aí já dou baixa.

Mariana imediatamente curvou seu corpo, seu olhos encheram de lágrimas, que ela habilmente segurou, como se já tivesse muita experiência com o sentimento que tomou conta dela.

– O que foi Mariana?

– Não consegui o dinheiro professor. Pedi pra minha mãe, tentei vender doce na escola, mas não consegui nada – Mariana engolia cada lágrima, mas sua voz estava muito embargada e quase não saia. Era uma garota forte, eu a admirava muito.

– Mas você tem bolsa-atleta. Fica tranquila.

– Minha mãe não quer aceitar a bolsa. Ela achou um absurdo ter que apresentar quanto ela ganha para a diretoria do clube e ela disse que não quer dever favor para ninguém. Daí falou para eu sair do handebol. Mas eu falei pra ela que iria conseguir o dinheiro, porque eu queria continuar. Mas acho que vou ter que parar.

Fiquei furioso. Mariana percebeu e, novamente, pediu desculpas.

– Não estou bravo com você, querida. Vá lá treinar, deixa o envelope comigo e vai lá. Você não precisa mais levar o envelope para casa. Eu vou te entregar no treino, mas logo depois você me devolve. Ok? Sem ninguém ver. Vamos ver se sua mãe não percebe e você continua aqui treinando. Mariana parecia voltar a sorrir.

A minha raiva era exatamente por causa da postura do Diretor, desumana e totalmente incoerente coma realidade do público que ele atendia. Aconteceu exatamente o que eu temia.

Em outro dia, quando Mariana recebeu o uniforme de treino, guardou ele imediatamente na bolsa, nem do plástico tirou. Entendeu rapidamente o que estava havendo. Enquanto muitas garotas já vestiam seu novo uniforme e já queriam treinar com ele, Mariana não sabia se teria dinheiro para pagar, por isso resolveu guardar para pensar melhor o que faria.

Neste momento Joana fala:

– Professor, olha! Ficou lindo! É para todos nós treinarmos hoje com o uniforme novo, né?

– Não precisa. Se quiserem levar pra casa, pra ver se está tudo certinho, se não tem problemas na costura e essas coisas, podem levar. Hoje treina com o uniforme novo só quem quiser.

Mariana olhou aliviada para mim e eu dei uma piscadela para ela para tranquilizá-la. Foi quando vi outras três garotas, vizinhas de Mariana e que frequentaram o mesmo núcleo do projeto social que ela, guardarem os uniformes ainda nos sacos plásticos. Percebi na hora que no próximo treino eu teria problemas.

Mariana e duas das outras três outras garotas chegaram um pouco mais cedo no treino seguinte e como se tivessem combinado um jogral, uma foi completando a fala da outra:

– Professor, toma o uniforme…

– …não vou poder comprar…

– … e minha mãe falou que não quer mais que eu fique no time.

As três meninas deram um longo e carinhoso abraço em mim, viraram-se e foram embora. Elas devolviam naquele momento a bolsa-atleta compulsoriamente doada por caridade pelo Diretor do clube.

Às vezes esquecemos que caridade nem sempre é o melhor caminho, sobretudo, quando estamos num grupo social cujos indivíduos almejam os mesmos objetivos e as diferenças sociais não são condicionantes para isso. Assim pode ser o esporte.

Dentro da quadra, quando oportunidades iguais são oferecidas num grupo de garotas que já demonstram competências e habilidades específicas para a prática do handebol, será seu mérito que a fará ter sucesso. Não se trata de um olhar meritocrático, mas de compreender que somente com equidade as diferenças podem ser suprimidas. No esporte, o filho do pobre pode ser titular e o filho do rico reserva. O contrário também pode acontecer. Nas mãos certas, o esporte é uma ferramenta incrível para aprendizagem de valores positivos para a vida.

O olhar “caridoso” do Diretor fez ele julgar que estava sendo bondoso para com a Mariana. Parece que é simples assim: “fala que não precisa pagar”; “dê uma bolsa-atleta para ela”, mas existe ali um ser humano que gostaria de ser tratado como igual, pelo menos no esporte. Mas com aquela atitude, o ambiente que seria agregador se transforma em segregador.

Caridade só é bem vinda quando caridade é necessária. Estas garotas não precisavam de caridade e por questões alheias ao esporte, às quais eu tentei de todos os modos combater, elas abandonaram o handebol.

Tudo o que elas queriam era a oportunidade de conquistar seu espaço por mérito próprio.

Duda tinha dúvidas se estava trabalhando no lugar certo.

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