Saldo de gols no handebol: até quando nossos jovens serão reféns?

A participação em competições esportivas possui enorme apelo para a permanência dos jovens na prática esportiva, bem como para que valores sejam inseridos na vida destes jovens atletas. Porém, competir não é bom nem ruim em sua essência, sendo a experiência vivenciada em sua prática que pode ser boa ou ruim para estes jovens, dependendo da autopercepção que eles tenham destas experiências.

Treinadores possuem um papel fundamental neste processo, afinal, competir é um momento de seleção de quais jogadores de fato atuarão no jogo. Isso não será um grande problema se valores como merecimento, dedicação e frequência em aulas e treinos sejam um parâmetro balizador para estas escolhas. Isso, parte do treinador.

A família também possui importância neste ambiente. Apoiar o filho, jogando ou não, fazendo-o reconhecer que cada jogo conta uma história diferente e que participar ou não da partida depende de muitos fatores, é uma atitude importantíssima que deve partir da família. Resiliência é um valor essencial dentro do esporte, tanto para pais como para os jovens atletas.

Ao entrar numa competição, via de regra, todos os treinadores devem ter acesso ao seu regulamento, para conhecer os critérios que vão sustentar e balizar a prática competitiva, uma vez que regulamentos variam muito de competição para competição, principalmente quando falamos de esportes de crianças e jovens. Entretanto, invariavelmente, observamos alguns critérios que se repetem, sobretudo, em relação ao sistema de pontuação das competições.

O item critério de desempate, quase sempre diz o seguinte:

“Em caso de empate entre duas equipes, o primeiro critério será o confronto direto. Permanecendo o empate, serão comparados o saldo de gols (ou gols a favor). No caso de triplo empate, o critério de desempate será o saldo de gols dos confrontos entre as três equipes”.

Isso é tão comum que praticamente se tornou uma tradição. Muitas competições redigem em seus regulamentos os mesmos critérios (ou muito semelhantes) dos descritos à cima. O interessante é que poucos param para refletir como este item regulamentar é capaz de interferir na postura e nas condutas dos treinadores.

Sabendo destes critérios, na sua opinião, bastaria apenas buscar a vitória ou vencer por muitos gols se tornaria uma meta a ser perseguida a cada jogo?

Provavelmente, sua resposta caminhou no sentido de entender que placares amplos, com muitos gols a favor, passariam a ser uma ideia fixa para treinadores que participam destas competições. Diante desta perspectiva, resumindo: “Vencer nunca será o bastante!”. Logo, a tendência à elitização das oportunidades de prática competitiva podem tender aos atletas que o treinador julga mais desenvolvidos e que sejam capazes de marcar mais gols, mesmo que essa vantagem seja muito influenciada por aspectos como o efeito da idade relativa ou a vantagem maturacional momentâneas de atletas precoces em seu desenvolvimento biológico (sim, a prevalência da máxima Altius, Fortius, Citius!, mesmo que com apenas 12 ou 13 anos de idade). Assim, alguns jogam muito e outros, sequer jogam (veja alguns trabalhos que falam sobre isso [i][ii]).

Estudos[iii][iv]têm apontado que uma das metas mais importantes para que jovens permaneçam interessados em praticar esportes associa-se à busca de estratégias que modifiquem a competição na tentativa de reduzir a vantagem dos placares em competições de crianças e jovens. Placares menos elásticos geram uma expectativa de possível sucesso, seja durante a disputa ou mesmo durante a competição como um todo.

Isso não significa deixar de buscar a vitória, afinal isso é fundamental ao esporte, é sua essência. Mas, vencer de muito? Qual a importância real nesse tipo de conduta em termos pedagógicos?

Imagine agora, uma competição que você disputa cujo primeiro critério de desempate seja outro. Qualquer outro. Fazer mais gols, sofrer menos gols ou ter o melhor saldo de gols não são critérios, nesta competição, associados ao sistema de desempate. Será que você se comportaria de modo diferente aos resilientes jogadores reservas numa competição de handebol?

Por regra, o handebol possui substituições ilimitadas. Numa situação de 5 ou mais gols de diferença, não seria cabível começar a movimentar mais seus atletas? Caso a diferença de gols diminua, os considerados mais desenvolvidos podem voltar para a quadra, mantendo assim um equilíbrio no placar para que se vença, apenas isso. Vencer sem a necessidade de que 10 gols de diferença sejam alcançados. Isso já não seria o bastante?

O “saldo de gols” faz nossos jovens atletas reféns do regulamento. Refém também é o treinador. A família também se insere nesse contexto. Tudo converge para que se valorize grandes vitórias, mesmo que com isso a outra equipe seja literalmente massacrada por diferenças enormes nos placares. Quem ganha de fato com isso?

Sugestões? Claro! E para mim, basta uma. Imaginem se as competições adotassem o critério de desempate abaixo:

“Distribuição de gols dentro da equipe: Será considerada melhor classificada a equipe empatada cujo percentual de gols marcados pelo artilheiro da equipe seja o menor entre as equipes empatadas”.

Já pensou nisso? Será que aquele tiro de 7 metros não poderia ser cobrado por outra criança? Será que a distribuição de tempo jogado não seria melhor dividida? Afinal, jogando mais tempo, uma criança percebida com menores habilidades teria maior probabilidade de arremessar a gol e diluir a artilharia da equipe entre ele e os demais companheiros. Será que o atleta mais desenvolvido não seria levado a entender que também deve ser resiliente e aguardar sua vez?

O interessante é que este é um critério leva os treinadores a ter que tomar decisões que sejam mais benéficas á sua equipe e ao mesmo tempo, potencializa a oportunidade de aprendizagem dentro da competição. Não há dependência das interpretações de árbitros, como por exemplo, se o critério fosse o número de cartões, exclusões, sete metros contrários e etc. Esta responsabilidade não pode recair sobre os árbitros. É papel do treinador.

Sabendo que dependerá menos de seu principal jogador, como ficariam as sessões de treino? Será que as oportunidades de aprender se multiplicariam para os demais atletas? Será que estes participariam mais dos coletivos preparatórios? Treinariam mais sete metros? Atuariam em funções de protagonismo do jogo?

Pensemos sobre o assunto e, se possível, experimentem colocar estas reflexões na prática. Creio que quem sai ganhando é o handebol!

[i] LEONARDO, Lucas et al. O efeito da idade relativa influencia o tempo de participação competitiva de atletas de handebol do sexo masculino com até 13 anos de idade (Relative age effect affects the time of competitive participation in male handball athletes aged up to 13 years). Retos, n. 33, p. 195-198, 2018.

[ii] SAAVEDRA GARCÍA, Miguel et al. Efecto de la edad relativa en los mundiales de baloncesto FIBA en categorías inferiores (1979-2011). Cuadernos de Psicología del Deporte, v. 15, n. 3, p. 237-242, 2015.

[iii] BURTON, Damon et al. More cheers and fewer tears: examining the impact of competitive engineering on scoring and attrition in youth flag football. International Journal of Sports Science & Coaching, v. 6, n. 2, p. 219-228, 2011.

[iv] BURTON, Damon; GILLHAM, Andrew D.; HAMMERMEISTER, Jon. Competitive engineering: Structural climate modifications to enhance youth athletes’ competitive experience. International Journal of Sports Science & Coaching, v. 6, n. 2, p. 201-217, 2011.

Anúncios

2 comentários sobre “Saldo de gols no handebol: até quando nossos jovens serão reféns?

  1. Boa tardeGostaria de saber informações para ter acesso aos conteúdos protegidos por senha.

    Diaulas L PertenceTreinador de Handebol Prefeitura de Congonhas – MG

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s