Temos que tirar os iniciantes no handebol da linha dos 6 metros!

O esporte de alto nível, para muitos professores e treinadores, transforma-se num importante referencial pedagógico, afinal, os modelos apresentados nestes cenários competitivos apresentam as tradições e as novas tendências para o rendimento esportivo.

Uma tradição que influencia muitas condutas pedagógicas para o processo de ensino, vivência, aprendizagem e treinamento no handebol está associada à utilização de sistemas defensivos que atuam em forma de barreira, circundando à linha dos seis metros que delimita a área do goleiro, tendo como conduta básica fechar os espaços defensivos, atuando com braços sempre levantados e induzindo ao ataque os arremessos de longa distância. Predomina neste modelo defensivo o acompanhamento coletivo da bola, ação tática denominada como basculação defensiva, ou seja, a defesa ir e vir de um lado ao outro acompanhando o local onde se encontra a bola.

Considerando que estamos num cenário de iniciantes com pouca experiência com a modalidade, ou mesmo crianças entre 10 e 12 anos de idade, será este modelo defensivo aquele que mais se ajusta às possibilidades de aprendizagem deste público?

Esta pergunta tem que ser compreendida sob dois pontos de vista, um estrutural, associado à forma como o desenho defensivo inicial se configura – neste caso o uso do sistema defensivo 6:0 – e outra funcional, associado ao modo como a defesa se ajusta em função do padrão organizacional defensivo – neste caso, jogando com a predominância da basculação defensiva, que resulta num sistema defensivo fechado e demasiadamente preocupado em defender a meta.

Do ponto de vista estrutural, o uso do sistema defensivo 6:0 não é um problema. É um modelo defensivo tradicional, com e contra o qual atletas de handebol devem aprender a jogar. É parte da tradição do esporte e deve ser conteúdo de aprendizagem.

Do ponto de vista funcional, ao consideramos o público de iniciantes, o uso exclusivo da basculação defensiva pela defesa 6:0, que se justifica pela proteção da meta, pode ser um problema em termos de aprendizagem e desenvolvimento dos jovens iniciantes tanto do ponto de vista defensivo como ofensivo. Isso pode ser justificado pela forma como iniciantes no handebol compreendem o jogo, fator que torna este público mais sensível à aprendizagem de certos aspectos funcionais nesta etapa de aprendizagem.

Bascular, significa ter maior atenção na localização da bola, de modo que muitos jogadores estejam próximos à região da bola, o que é bom do ponto de vista defensivo, principalmente num esporte em que o ataque tende a predominar sobre a defesa. Porém, é um elemento tático defensivo coletivo e mais complexo[i] [ii], portanto, que necessita de uma série de conhecimento anteriores para que seja realizado de forma adequada, com ênfase no jogo de coberturas e desequilíbrio intencional do número de defensores e atacantes do lado oposto da bola.

Logo, para bascular, jogadores devem dominar o conceito de coberturas e ajudas. Para saber que está cobrindo ou ajudando, o jogador deve entender que está se prontificando a marcar, mesmo que momentaneamente, o atacante que está sob a responsabilidade de seu companheiro de equipe, logo, deve entender que seu atacante direto será deixado momentaneamente sem marcação ou será marcado pela cobertura de outro colega da defesa. Veja o quanto o uso da basculação é complexa.

Iniciantes que aprendem a defender por meio do sistema defensivo 6:0 somado à orientação tática da basculação tendem a pular etapas de aprendizagem e deixam de aprender aspectos essenciais de base, tais como o reconhecimento do seu atacante direto e a necessidade de descentrar-se da bola.

O resultado do uso deste tipo de sistema defensivo pode até gerar poucos gols sofridos – assim como ocorre em termos de aprendizagem defensiva, também se exige de atacantes que atuem com ações táticas ofensivas que sobrepujam as etapas de aprendizagem ofensiva – mas o custo disso em médio prazo pode ser atletas que não estão “alfabetizados” dentro da linguagem da modalidade.

A “linguagem” do handebol sustenta-se na simetria e assimetria numérica entre jogadores. É um esporte de simetria numérica formado por seis confrontos de 1×1, mas que tem em sua lógica a busca e situações de assimetria numérica momentânea em situações de 3×2, 2×1 ou 1×0[iii].

Logo, reconhecer o atacante direto é parte fundamental da linguagem do esporte, pois assim os defensores passam a entender a importância de manter a relação de 1×1 preservada ao máximo em termos defensivos ao longo do jogo e que, em caso de utilização de coberturas defensivas, este jogador terá a consciência de que sua equipe será deixada momentaneamente em desequilíbrio numérico.

Desta forma, antes de bascular defensivamente, atletas de handebol devem aprender a saber quem estão marcando, descentrando-se excessivamente da dependência da localização da bola para atuar defensivamente e, para isso, defesas plantadas em linha de seis metros são um contrassenso pedagógico.

Para isso, algumas dicas pedagógicas podem ser seguidas, diante da utilização do sistema defensivo 6:0, mas que estimulem a construção de um jogar mais adaptado às possibilidades de aprendizagem de iniciantes no handebol:

  • Jogar com sistema defensivo 6:0 alinhado à linha de 9 metros – Ao subir a linha defensiva aos nove metros, uma regra pode ser inserida nas suas aulas e treinos: “o defensor só pode descer para os seis metros se seu atacante direto correr para este espaço”. Ao retirar os iniciantes dos 6 metros, criam-se espaços defensivos que estimulam os atacantes a buscar desdobramentos, tabelas e penetrações e fintas. Isso amplia a atenção dos defensores em reconhecer seu atacante direto – aquele que estiver mais próximo de sua zona defensiva – e estabelecer com ele uma relação direta. Caso haja um desdobramento, tabela ou penetração dos atacantes, os respectivos defensores poderão segui-los.
  • Incentivar antecipações do defensor ao seu atacante direto – Em suas aulas e treinos, você pode criar pontuações especiais para defensores que conseguem antecipar bolas que seriam passadas ao seu atacante par. Isso estimula os defensores a reconhecerem quem é seu atacante direto e ajuda os iniciantes a manterem presentes em suas condutas defensivas a tentativa de recuperação da posse de bola, fundamental para o êxito no jogo de transição ofensiva.
  • Jogar sem a presença de pivôs[iv] – o pivô é um fator complicador para que iniciantes possam aprender a reconhecer seus atacantes diretos e deve ser inserido somente depois que isso esteja claro aos jovens jogadores. Portanto, pode-se jogar com seis jogadores abertos ou mesmo num 4×4 ou 5×5.

Vejam um exemplo de como a utilização destas regras condicionantes à utilização do sistema defensivo 5:0 em que o ataque joga sem pivô pode enriquecer o ambiente de aprendizagem.

Diante de mudanças como estas realizadas na organização de aulas e treinos (as quais podem ser também transferidas para o ambiente competitivo de jovens, por meio de adaptação de seu regulamento), os conteúdos de aprendizagem se ajustam à necessidade de aprendizagem dos jovens iniciantes na prática do handebol, demonstrando que o problema não é a utilização do sistema defensivo 6:0, mas aquilo que, em termos de funcionamento do jogo, é exigido.

Depois de aprender a reconhecer seu atacante direto, os defensores passarão gradativamente para a aprendizagem da cobertura defensiva de emergência, depois para a cobertura preventiva (a ajuda) e, finalmente, a basculação defensiva poderá ser utilizada, uma vez que os jovens jogadores já estarão efetivamente “alfabetizados” e compreenderão de forma mais completa as exigências do jogo defensivo.

Para isso, temos que tirar os iniciantes no handebol da linha dos 6 metros.

Referências Bibliográficas

[i] GRECO, Pablo Juan; ROMERO, Juan J. Fernández (Ed.). Manual de handebol: da iniciação ao alto nível. Phorte, 2011.

[ii] ANTÓN GARCÍA, Juán Lorenzo. Balonmano: táctica grupal defensiva. Concepto, estructura y metodología. Granada: Grupo Editorial Universitario, 2002.

[iii] EHRET, Arno et al. Manual do Handebol. São Paulo: Phorte, 2002.

[iv] ESTRIGA, Luísa.; MOREIRA, Irineu. Proposta metodológica de ensino do andebol. In. TAVARES, Fernando (Org.). Jogos Desportivos Coletivos–Ensinar a Jogar. Editora FADEUP, p. 1-32, 2013.

 

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