Handebol-Família-Escola: Quando Falhamos?

Qual é o nosso papel como treinadores de esporte? Só quem trabalha no dia-a-dia sabe que não nos limitamos apenas às intervenções pedagógicas dentro da quadra, que aliás, quase sempre são a parte mais prazerosa de nosso trabalho.

Por sermos, antes de tudo, pedagogos do esporte, temos a obrigação de organizar, sistematizar, aplicar e avaliar nossas ações de cunho físico-estratégio-técnico-tático-psicológico que balizam o processo de ensino, vivência, aprendizagem e treinamento no handebol[i]. Mas este papel, muitas vezes, é apenas uma pequena parte (que de pequena não tem nada) de um contexto muito mais amplo.

O handebol é um sistema dotado de uma dinâmica própria, sustentada por uma lógica que faz handebol ser handebol em qualquer parte do mundo. Porém, é um cenário aberto a outras influências, que muitas vezes, passam despercebidas em nosso papel de treinadores.

Não é de hoje que a tríade treinador-atleta-família é discutida. Mas, antes de ser discussão, ela é vivida na pele de quem atua como treinador de jovens. Embora seja algo trivial, a influência da família muitas vezes é negligenciada por nós. Eis nossa grande falha.

Temos, dentro do processo de formação pelo esporte, grande influência sobre os jovens que estão conosco nas quadras e competições, porém, nunca (repito, nunca!) teremos maior poder de decisão do que a família. Quantos de vocês conhecem ou já conversaram com os pais de seus jovens atletas? Quantas reuniões de pais seu projeto de handebol já promoveu? Talvez, nem todos os pais estejam interessados em participar destes momentos, mesmo assim, qual é o seu esforço em tentar conhecer a realidade familiar de seu atleta?

Dentro de um clássico e ideal cenário, o papel da família vem acompanhado de outro elemento, a educação formal. Tenho verificado, com muita ressalva, a precocidade com a qual a escola tem se esforçado em “preparar os jovens para a vida de adulto”. Hoje, escolas já treinam crianças de 12 anos de idade com simulados do ENEM[ii], provas de seis disciplinas aos sábados e avaliações rotineiras no contra-turno escolar, afinal, são os alunos que promoverão a marca dos sistemas educacionais aos quais estão atrelados. Praticamente, não sobre tempo para mais nada.

Mas, Esporte e Educação Formal são na realidade duas escolas que deveriam ser orientadas para a vida. Mas, nem esporte e nem escola são, por si só, capazes de nada. São vias, ambientes, cenários, dentro dos quais as ações de seus indivíduos, às vezes pressionados por orientações que descem por uma via hierárquica nem sempre inserida e preocupada com a qualidade educacional destes contextos, definem suas orientações e vocações.

Para o esporte, esta característica é ainda mais penosa. A escola vem antes. Saber português, matemática, geografia, vem antes. Acredito mesmo que este deve ser um ambiente central e importante para a vida do jovem. Mas, sou do esporte e amo o esporte. Sei que ele pode ser um alicerce importante para a vida desse jovem e que não deveria vir nem à frente nem atrás, mas ao lado, estabelecendo com a educação formal relações complementares e, porque não, indissociáveis.

Porém, sem instrumentação, o esporte sempre virá depois não só da escola, afinal, não cabe ao treinador decidir como equacionar o papel da escola e do esporte na vida do jovem. Esse é o papel da família. Diante da tríade professor-atleta-família, a escola é uma das responsabilidades familiares, de modo que pais e responsáveis se interponham, devido aos seus papeis sociais, entre as opiniões do treinador e a necessidade educacional do jovem, estabelecendo uma nova tríade (esporte-família-escola), na qual os julgamentos da família é que decidirão qual é o papel do esporte para seus filhos.

E, mesmo que sejamos capazes de estabelecer pelo esporte um caminho de desenvolvimento positivo, não seremos eficazes em fazer as famílias entenderem o verdadeiro e inexorável valor do esporte enquanto ambiente educativo e formativo se não tivermos o mínimo contato com pais e responsáveis e também se não estivermos preparados para este contato.

Para isso, temos que ter instrumentos de aproximação, capazes de conquistar a família, encantá-los. Entra, então, o papel do treinador relativo à avaliação de nossas ações (tão negligenciada por muitos de nós).

Reflita: em seu projeto, os pais recebem periodicamente alguma informação sobre como anda o desenvolvimento esportivo, social e moral de seus filhos? Os pais sabem, dentro de um perfil de egresso esperado, como o filho dele está se desenvolvendo por meio do esporte? Aliás, você tem organizado um projeto pedagógico que é apresentado aos familiares deste jovem, de modo que tenham alguma expectativa advinda da participação de seu filho no esporte?

Se você, assim como eu, também considera o esporte uma via de formação positiva para a vida, o mínimo que deveria ter organizado é a sua proposta pedagógica, de modo que a família possa saber concretamente o que você pretende, em termos educacionais específicos e gerais, sistematizar em suas aulas/treinos. Sem estas informações como argumentar com a família sobre o importante papel que você, por meio do handebol, busca exercer para o pleno desenvolvimento do jovem?

Agora, se você entende que seu papel é dar suas aulas e o papel da família é deixar o filho na porta do ginásio e depois voltar para pegá-lo, você está falhando e a pedagogia do esporte terá em você um elo fraco de sua corrente. Sua falha é minha falha, minha falha é nossa falha. Nunca conseguiremos demonstrar a importância de nossa atuação para a vida destes filhos. Ficaremos para depois.

O convívio com o seio familiar deve ser estabelecido. Pode nem sempre dar certo, mas não podemos fracassar pelo simples fato de não tentar.

[i] Ver mais em GALATTI et al. Pedagogia do esporte: tensão na ciência e o ensino dos jogos esportivos coletivos. Revista da Educação Física/UEM, v. 25, n. 1, 2014. [https://goo.gl/pWByZ6]

[ii] O Exame Nacional do Ensino Médio tem sido utilizado no Brasil como nota para que os alunos ingressem no ensino superior em universidade públicas e privadas.

Um comentário sobre “Handebol-Família-Escola: Quando Falhamos?

  1. Muito boas as considerações! Não tinha me atentado a isso, na verdade, faço parte de um projeto voluntário numa escola pública, e de certo modo, me acomodei com a ideia de que os pais não se interessam em ir nem às reuniões regulares da escola, o que dirá, a respeito do esporte. Mas acredito que primeiro vale o esforço em tentar!

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