Modelo Competitivo na Infância: A premiação aos artilheiros e possíveis impactos ao processo de aprendizagem do handebol.

 

A pedagogia do esporte tem discutido o papel do esporte para crianças e jovens, destacando, sobretudo, a necessidade de compreendermos que no processo de ensino-aprendizagem-treinamento as crianças não são adultas, reflexão que sugere a necessidade de ajustes deste processo, levando em consideração características, capacidades e interesses da criança e do jovem.

São muitos os fatores que interferem nestes ajustes necessários: maturidade emocional, capacidades físicas latentes, desenvolvimento, maturação, crescimento e conhecimento do jogo com base em diferentes níveis de relação com seus elementos (estruturais e funcionais) que impactam nas possibilidade de aprendizagem da criança, por exemplo (acredito, que em se tratando destes aspectos, este blog tenha muitas sugestões de como lidar com a criança iniciante no handebol).

Ainda há um agravante: crianças se desenvolvem em velocidades diferentes, podendo, numa mesma faixa etária, algumas crianças apresentarem maior destaque no seu rendimento momentâneo, diferença esta que ao longo do processo de desenvolvimento das crianças, pode ser minimizado.

Desta forma, são muitos os trabalhos que apresentam, por exemplo, ser esta faixa etária um momento de atenção com relação aos procedimentos de aprendizagem, alguns mais recentes, como trabalhos de Jean Cotê e colegas (2007) ao proprorem o Modelo de Participação Esportiva, bem como modelos mais antigos, como propostos por Bompa (2002), Greco e Matta (1996) – ver referências bibliográficas no fim do texto.

Porém, e a competição? Como nos comportamos quando elaboramos e oferecemos uma competição para crianças e jovens? É necessário realizamos adaptações e ajustes também neste cenário ou o modelo competitivo do adulto é bom o suficiente para aplicarmos com crianças, sobretudo até os 14 anos de idade (aproximadamente)?

 

Ajustes competitivos não são raros em competições de handebol para crianças, basta acompanhar ligas, federações estaduais e campeonatos nacionais destinados a estas faixas etárias e também a organização de competições escolares desde o nível regional ao nacional. Nestas competições muitas mudanças são propostas principalmente de maneira a ajustar funcionalmente o jogo para estas idades, porém, para além das mudanças propostas no jogo em si, estas competições ainda assim são organizadas com muita influência da competição para adultos. Um exemplo? O modelo de premiação da artilharia da competição.

Dentro dum modelo competitivo tradicional, premiações aos artilheiros da competição são corriqueiras e sempre movimentam muitos sentimentos e emoções. Este modelo também é reproduzido em competições de crianças de forma dominante, mas as consequências deste tipo de premiação são as mesmas para crianças e adultos? A seguir, oferecemos algumas considerações do ponto de vista pedagógico que podem gerar novas reflexões sobre este assunto.

Premiação à Artilharia nas categorias até 14 anos de idade:

Nas categorias até 14 anos, não são raros os esforços pedagógicos de professores para inserir gradativamente como conteúdo de aprendizagem o jogo que transita das capacidades individuais, para o jogo de grupo e de equipe. A criança aos poucos se torna mais capaz de compreender estas características do jogo, como aponta Estriga e Moreira (2015). Porém, o fomento à artilharia da competição pode, de alguma forma, incidir diretamente neste processo.

A competição que é geralmente encarada como fim, pode, no entanto, ser compreendida como um meio associado ao processo de aprendizagem esportiva e, se uma competição valoriza a busca pela artilharia, ela pode impactar tanto nos objetivos de aprendizagem da criança, que pode se centrar mais na busca do benefício individual ofensivo frente à todas as outras demandas do esporte como aprimoramento de suas capacidades defensivas e evolução do jogo para necessidades mais coletivas, como também pode interferir nas condutas do treinador que, pressionado por este prêmio existir, pode consciente ou inconscientemente, eleger os atletas que ficarão mais em quadra, que arremessarão mais tiros de sete metros e que controlarão mais o jogo de forma geral.

Podemos concluir, portanto, que a competição é um ambiente capaz de interferir na formação esportiva de muitas crianças, tanto sobre aqueles eleitos a terem maior oportunidade competitiva, quanto àqueles relegados a terem menores possibilidade de acesso à competição.

DICA:

Sendo, portanto, a competição um ambiente que pode impactar diretamente nas condutas em aulas e no jogo, a proposta da artilharia poderia ser diferente: Que tal premiar no fim do ano a equipe que teve a menor concentração de gols em um jogador? Seria muito simples fazer isso, basta ao fim do ano, dividir as porcentagem de gol entre todos os atletas e premiar a equipe que teve a melhor distribuição de gols entre seus jogadores.

Este tipo de ajuste competitivo pode modificar as condutas de atletas e treinadores, na busca de tornar a competição de handebol de crianças mais ajustada às possibilidades de aprendizagem da criança e orientando condutas dos treinadores neste mesmo sentido.

Trata-se de uma proposta diferente, que poderá oferecer mais oportunidades às crianças que, de alguma forma (devido aos diversos fatores agravantes já mencionados neste texto), teriam menos espaço de atuação formal no ambiente competitivo.

Referências Bibliográficas:

BOMPA, Tudor O. Treinamento total para jovens campeões. Manole, 2002.  (Disponível apenas em livro impresso)

CÔTÉ, Jean.; BAKER, Joseph; ABERNETHY, Bruce. Practice and play in the development of sport expertise. Handbook of sport psychology, v. 3, p. 184-202, 2007. (Ver partes deste trabalho no google books, aqui).

ESTRIGA, Luísa; MOREIRA, Irineu. Proposta metodológica de ensino do handebol. In: TAVARES, Fernando (Ed.). Jogos desportivos coletivos: ensinar a jogar, p. 123-164. Porto: FADEUP, 2013. (Disponível apenas em livro impresso).

GRECO, Pablo Juan; MATTA, M. O. O processo de ensino-aprendizagem-treinamento da técnica esportiva aplicada ao futebol. Revista Mineira de Educação Física, v. 4, n. 02, 1996. (Ver artigo na íntegra, aqui).

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