Sugestões para o processo de formação de novos árbitros de handebol

Novos atores! É disso que sempre precisamos para que nossa modalidade sobreviva e permaneça sendo uma realidade.

Fala-se muito em formação de atletas, cursos de capacitação para treinadores e professores, mas e formação dos árbitros, fica como?

Assim como em todo processo de desenvolvimento, novos árbitros precisam de tempo para adquirirem “bagagem” para apitar. Não é assim também com um jovem treinador? E, com as crianças que iniciam na prática esportiva, isso também não acontece? Este é um grande desafio para Federações e Ligas.

A partir disso, alguns postulados são encarados como verdades quase que imutáveis frente ao processo de formação do jovem árbitro e quase sempre são adotadas pelas organizações responsáveis pelas competições de handebol para alavancar a carreira destes árbitros. Vamos discutir alguns deles:

Postulado 1

Cursos de regras são um bom local para se identificar novos e potenciais árbitros e se excluir pessoas com dificuldades de reconhecer estas regras

Geralmente, a formação de árbitros é feita por meio de cursos rápidos de alguns dias no qual eles são avaliados mediante uma prova escrita de interpretação das regras e, havendo nota acima da média, o aspirante a árbitro pode começar a galgar seu espaço dentro deste cenário, enquanto outros são reprovados e considerados desqualificados para a função. Geralmente, o preenchimento de súmulas também é um processo conjunto nesta fase de aprendizado.

Não há dúvidas que ambas as ações são fundamentais, porém o conhecimento declarativo (saber identificar, analisar e explicar algo) é bem diferente do conhecimento processual (agir a partir de problemas apresentados). Conhecer a regra é bem diferente de aplicá-la. Assistir a vídeos com lances duvidosos, analisá-los e discuti-los é fundamental, mas estar na quadra é ainda mais, afinal, se para o processo de aprendizagem de nossos alunos defendemos o jogo como essencial, não seria diferente para um árbitro. No jogo é que se aprende.

Porém, esta é uma faca de dois gumes. De um lado, a oportunidade de apitar é fundamental, mas por outro, o problema da inexperiência pode ser um fator complicador para o desenvolvimento geral do contexto de uma competição.

Postulado 2

O melhor ambiente para aprender a apitar e ganhar experiência são competições de categorias menores.

Competições de jovens e crianças sofrem grande influência das propostas feitas para a elite. A estrutura competitiva é a mesma: tabelas de classificação, rankings e pressão pelas vitórias. Tudo isso não modifica a pressão sobre o árbitro iniciante mesmo em um jogo de crianças de 10 anos quando comparado ao jogo de adultos. A postura de torcida, treinadores e dos próprios jovens jogadores reproduzem o esporte profissional, logo, o árbitro sofre neste espaço as mesmas cobranças.

Então, a melhor forma para solucionar isso está colocada no próximo postulado:

Postulado 3

A mescla de um árbitro novato e um mais experiente na composição da dupla de arbitragem dá maiores oportunidades de aprendizado ao novato.

O fato real é que no handebol, mesmo havendo esta tentativa, as funções dos árbitros são complementares e não similares. Cada um tem funções específicas de acordo com o momento do jogo. Árbitros de gol, por exemplo, na grande maioria das vezes são responsáveis pelas ações mais próximas da linha de seis metros, como a observação do jogo do pivô, invasões de área do goleiro, validação do gol e etc. Árbitros centrais apitam as ações mais orientadas pela linha de armadores e pontas que estão próximos de seu lado. Há momentos, é claro, em que lances acontecem em zonas de congruência de ambos, mas a divisão de funções é fundamental para o andamento do jogo. Logo, mesmo havendo um colega mais experiente, haverá sempre decisões protagonizadas pelo iniciante. Ele estará pressionado do mesmo jeito.

Observa-se, portanto, que conhecer, analisar e interpretar regras, preencher bem súmulas é básico na formação formal do árbitro, porém, é no ambiente de atuação profissional (ambiente não-formal de aprendizado) que o árbitro aprende mais, principalmente, por estar exposto aos problemas reais de sua profissão.

Então, é neste momento, o jogo, em que as ações pedagógicas na formação de árbitros devem ser desenvolvidas.

Tentaremos aqui complementar ou modificar os postulados 1, 2 e 3 com ideias que podem parecer bastante peculiares, mas que podem fazer toda a diferença na formação destes importantes agentes do handebol.

(Re)postulado 1

Cursos de regras são um bom local para os primeiros contatos de jovens árbitros com as regras do handebol, mas não devem ser locais de corte de oportunidade.

As regras devem ser aprendidas de forma declarativa, sem dúvidas, mas é sua aplicação processual que diferencia um bom árbitro. Jovens árbitros precisam de tempo para acomodar ambas as aprendizagens. Tirar uma nota abaixo da média numa prova não deve ser um fator limitante de ida à pratica, desde que este ambiente de prática permita tempo para se aprender. Vamos ao (re)postulado 2.

(Re)postulado 2

O melhor ambiente para aprender a apitar e ganhar experiência é em competições pedagógicas.

Por que toda organização promotora de competições reproduz sempre o mesmo modelo de competição? Há meios de mudar este cenário, uma vez que a natureza da competição se baliza na relação vitória-derrota, principalmente na iniciação?

Vencer e perder serão parte do processo de qualquer competição, porém, algumas condutas podem ser modificadas para oferecer aos iniciantes (jogadores, treinadores, árbitros, pais iniciantes na função de tornedores) oportunidades para aprenderem e se desenvolverem.

Um exemplo que vem sendo adotado pela Liga de Desenvolvimento do Handebol Paulista (LDHP) (www.ligahandebol.com.br) é a organização de uma competição dentro da competição oferecida pela entidade, criando assim cenários distintos dentro do mesmo ambiente, porém, com valores implícitos bem diferentes.

Assim como crianças se desenvolvem em ritmos diferentes frente às exigências do esporte, os árbitros também podem apresentar ritmos diferentes de aprendizagem. Desta forma a LDHP optou por desenvolver em sua competição sub-13 a proposta da Copa Revelação.

Treinadores, quando inseridos numa atividade competitiva, entram em quadra com seus melhores atletas, isso é um fato indiscutível que também é reproduzido nas idades de formação. Porém, muitos são os aspectos que fazem um atleta de 12 anos se destacar mais do que outro da mesma idade, como por exemplo, a maturação biológica que acaba trazendo uma tendência de mais oportunidades aos precoces frente aos tardios. Desta forma, a competição da LDHP foi dividida em 3 tempos de 15 minutos, nos quais os dois primeiros tempos são a competição principal e o terceiro tempo é destinado à Copa Revelação.

Como regulamento da competição, os treinadores deverão colocar neste terceiro tempo os atletas que não jogaram os dois primeiros e aqueles que tiveram menor tempo em quadra, caso seja necessário. Isso oferece a chance de participação a estas crianças, mas num contexto competitivo mais controlado e orientado para o desenvolvimento destes pequenos jogadores. Este terceiro tempo tem caráter amistoso, sem custos adicionais às entidades e é também o espaço para que os árbitros jovens tenham a oportunidade de iniciar sua inserção nesta nova função.

(Re)postulado 3

Cada árbitro jovem poderá ser tutorado por um árbitro mais experiente durante uma partida, de forma a receber feedbacks sempre que necessário durante o jogo para as decisões em que ele deverá ser o protagonista.

Ainda como uma estratégia da LDHP, neste terceiro tempo os árbitros jovens não são ali colocados na quadra e deixados para aprender com seus erros e acertos e feedbacks tardios. Cada árbitro terá um tutor, que estará ao seu lado, ajudando no posicionamento, orientando as trocas de função dos árbitros, assinalando, se necessário, alguma situação que foi mal interpretada, pedindo tempo arbitral para conversas com os novatos. Desta forma, estes jovens árbitros passam a ter um “coach” que o ajudará no seu desenvolvimento em médio prazo. Aos poucos, estes novos árbitros serão inseridos nos jogos “oficiais” conforme a sua segurança vai aumentando e sua eficiência em interpretar o jogo vai melhorando.

Abaixo, fotos que ilustram este tipo de ação.

Concluímos, portanto, que ambientes pedagógicos baseados no jogo também são fundamentais para a formação de árbitros.

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Um comentário sobre “Sugestões para o processo de formação de novos árbitros de handebol

  1. Olá, Professor Lucas! Acabei de conhecer o seu blog e já li várias matérias: este é sem dúvida o melhor conteúdo que já encontrei na internet sobre Handebol, sobretudo quando me refiro à formação dos atores deste esporte! Parabéns!! Continuarei explorando seus textos para aprender cada vez mais!!

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