O handebol é jogo de “fominha”

*Antes de continuar a leitura, confira aqui a definição de fominha (termo brasileiro), no contexto do esporte coletivo.

Geralmente, entendemos que para garantir a participação de todos durante um jogo de handebol, o uso do passe é fundamental, pois assim todos pegam na bola e participam efetivamente do jogo. Frente a esta concepção é normal que o jogador fominha fique cansado de ouvir: “passa a bola!”.

Existem algumas caraterística do handebol reguladas por suas regras, que podem colocar em xeque este conceito. São as regras deste esporte que fazem o handebol ser diferente dos esportes coletivos de invasão mais tradicionais (futebol, futsal e basquetebol) e, por outro lado, o faz aproximar-se de outros esportes coletivos de invasão que ainda ganham espaço em nossa cultura esportiva (futebol americano e rugby).

Quando vemos crianças jogando futebol, futsal ou basquete, não é incomum que uma criança, dotada de muita habilidade na relação dela com a bola, consiga carregar sua equipe com suas jogadas individuais de forma a quase não depender ofensivamente de seus colegas para conseguir êxito.

Em relação à disputa direta pela bola estes esportes são bastante punitivos. No futebol/futsal, isso corre pela dificuldade de recuperar a bola com os pés e pela limitação do contato físico (visto sempre como anti-jogo). No futsal, assim como no basquetebol, o contato físico que ocasionam faltas é bastante negativo para a equipe, pois em ambos, após um determinado número de faltas a equipe é punida com lances livres ou tiros de 10 metros, que ampliam bastante as chances de sofrerem gols/pontos. No caso do basquetebol, o contato físico acumulado por um jogador pode excluí-lo do jogo.

Logo, se nestes esportes a aproximação física é tão prejudicial para o desenrolar do jogo, há espaço para o surgimento dos fominhas que, com lances de habilidade, podem tirar proveito desta limitação defensiva e destacarem-se individualmente.

Do ponto de vista pedagógico, para estes esportes, o fominha é ruim para o desenvolvimento geral dos colegas da equipe, pois suas ações realmente excluem seus colegas do jogo. Talvez nestes esportes, caiba a ideia de que o fominha prejudica de forma geral a participação dos colegas da equipe.

Mas, no handebol não é bem assim.

O handebol se trata de um esporte cujas regras permitem de forma clara o contato físico (regras 8.1 b e c). Inclusive, a repetitividade de faltas, se realizadas dentro dos parâmetros regulamentares é considerada normal dentro do jogo, aproximando muito mais neste aspecto o handebol do rugby ou futebol americano do que dos esportes anteriormente citados, pois neles, o contato faltoso (permitido dentro de parâmetros regulamentares) é um recurso defensivo.

No handebol, um jogador habilidoso frente a relação 1×1 em que ele esteja com a bola conseguirá êxito frente ao seu adversário algumas vezes, mas aos poucos, outros jogadores passam a ajudar e a cobrir seu companheiro na defesa. Logo, o 1×1 transforma-se em 1×2, 1×3, sempre alicerçada pela permissão do contato físico defensivo. Sua vantagem vai deixando de ser vantagem individual e passa a ser vantagem coletiva.

Assim, sugerir simplesmente para o fominha que passe a bola é o mesmo que sugerir que um indivíduo com grande potencial de gerar desequilíbrios defensivos deixe de fazer isso, passando a bola para um colega (que pode estar marcado ou em situação pouco clara de gol) apenas pela obrigatoriedade de passar, deixando de explorar seu potencial de perigo ao sistema defensivo adversário.

Ensinar seus alunos a serem fominhas no handebol é mais importante do que os ensinarem a serem passadores de bola, pois os alunos não podem perder individualmente a essência cabal do jogo: pegar a bola e tentar fazer um gol.

O passe surgirá como resultado. Um jogador após aprender a ser fominha atrairá contra ele não só um, mas dois ou três defensores adversários e, como consequência, dois ou três companheiros estarão livres para receber um passe. Pronto, a necessidade de passar surge naturalmente.

Talvez, no início, o aluno não enxergue seus companheiros, isso faz parte do processo de aprendizagem. Para que isso mude, basta criar atividades nas aulas/treinos que estimulem a visão deste aspecto do jogo para que os primeiros resultados coletivos surjam e as primeiras assistências a gol aconteçam.

Tudo começa com o fominha que, por não conseguir por muito tempo ser fominha, passará a deixar seus colegas livres e o passe acontecerá sem que ele precise ser avisado disso por nós professores.

Handebol é jogo de fominha, pois só assim, os demais jogadores da equipe poderão receber passes em situações que os façam efetivamente jogar em busca do objetivo maior do handebol: fazer gols.

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