Passe Balão

Sobre o uso do “passe balão” na iniciação ao handebol

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Estamos muito acostumados com uma verdade indiscutível: o passe balão não funciona no jogo de handebol.

Esta afirmação tem muitas justificativas e não quero aqui questioná-las, afinal, este tipo de passe possui características que incidem negativamente no jogo (de maneira geral), por diminuir a velocidade do jogo, muitas vezes ser interceptado pelos adversários e por ser de difícil recepção, pois quase sempre é disputado por um ou mais jogadores. Logo, com base nestas características, é comum que o funcionamento do passe balão seja questionado, com razão.

Porém, muitas vezes ouvimos ou dizemos ao atleta que realiza o dito passe balão: “pára de fazer passe balão!”, mas, de quem realmente será o problema: do passador, dos colegas que vão receber o passe ou dos princípios (definidos pelo professor) que orientam a aprendizagem das crianças?

Geralmente, verificamos que a criança que está com a bola opta pelo passe balão em duas situações:

  1. Um colega se encontra à frente, livre e com condições de fazer um gol, então, o jogador em posse de bola opta por um passe longo e alto para que a bola chegue ao seu colega;
  2. Uma criança está sendo pressionada pela marcação e procura colegas livres, mas sem sucesso, tenta fazer a bola chegar a algum deles por meio de um passe por cima do seu marcador direto.

Em contra-partida, verificamos que as crianças que estão sem a bola geralmente:

  1. Correm em direção ao gol adversário mantendo este sentido de corrida até se aproximarem da área adversária e ali pararem, levando consigo seus marcadores;
  2. Ficam parados pedindo a bola ao colega (verbalizando e gesticulando) que está em sua posse, mesmo que seu defensor direto esteja fechando a linha de passe.

A estes fatores somam-se:

  1. O princípio definido pelo professor de que o handebol é um jogo em que passar a bola é fundamental para o sucesso da equipe, logo, passar a bola transforma-se em um balizador de todo o processo de aprendizagem do jogo;
  2. A bola deve ser passada sempre em direção ao gol adversário, pois quanto mais perto do gol, maiores as chances de se marcar um ponto.

Bem, vamos analisar como estes fatores se influenciam ao longo de um jogo:

  1. Situação 1: A criança tem a posse de bola e está livre, sem ninguém a marcando. Como correr em direção ao gol é a opção que baliza o entendimento do jogo das crianças, todos os seus colegas correm em direção ao gol adversário levando com eles vários marcadores. A criança tem ainda como balizador de suas ações a ideia de que passar a bola é fundamental para o sucesso no jogo de handebol. Resultado: ela fica procurando um colega livre e, mesmo que ninguém esteja realmente livre, ele realiza um passe longo e alto (passe balão) na expectativa de que a bola chegue a um colega seu.
  2. Situação 2: A criança tem a posse de bola e está sendo pressionada por um defensor. Alguns colegas correram na direção do gol adversário e outros ficaram ao redor da criança com a bola, marcados e parados, pedindo bola. Como esta criança aprendeu que passar a bola é fundamental para o sucesso do jogo, ela fica parada com a bola se esquivando de seu adversário à procura de um colega livre. Resultado: como todos estão marcados (longe demais – perto do gol adversário – ou parados ao seu redor pedindo bola) ele opta por passar a bola por cima de seu marcador (passe balão) para um dos amigos que estão próximos pedindo a bola.

Analisando estas duas situações, quais conclusões podemos tirar?

  1. O jogador que tem a bola nestas situações descritas orienta-se pela ideia de que passar a bola é fundamental e que o passe deve ser no sentido do gol adversário. Porém, em se tratando de iniciação ao handebol, a criança devem aprender como princípio que o passe só deve ser realizado quando necessário. Simplificando: ter a bola no handebol é uma grande vantagem, pois o uso do ritmo trifásico (para deslocar-se ou fintar um adversário) e do drible são bastante seguros nas idades iniciais resultando em sucesso ou falta recebida (e respectiva manutenção da posse da bola), enquanto que o uso do passe nada mais é do que, momentaneamente, abrir mão da posse de bola e colocá-la à sorte do jogo – a bola pode chegar ao destino ou ser interceptada. Logo, é um risco a ser assumido. O estímulo ao 1×1 deve ser muito mais enfatizado neste período de aprendizagem do que o uso do passe como um princípio do jogo. Ou melhor, passar está subjugado ao 1×1, assim:
    • Se o 1×1 funciona, para que passar? A criança deve primeiro vencer o confronto e, então, buscar deslocar-se com a bola em direção ao gol adversário;
    • Se, após o 1×1 a criança atrair outro marcador e um colega seu ficar livre, vale à pena passar? Sim, pois o uso do passe é intencional e não um princípio regido pela ideia de que passar a bola é obrigatório.
    • Se o 1×1 não funciona, é bom buscar o passe? Sim. Após o fracasso, a bola deve ser passada para um colega, a fim de que não se cometam infrações às regras do jogo (andar, duas saídas e etc..).
  2. Os jogadores que não têm a bola nestas situações descritas não compreendem o princípio do desmarque, fazendo do jogo uma espécie de corrida ao alvo adversário contra seu defensor direto ou, então, consideram aproximar-se de seu colega em apuros bom o suficiente para que a bola chegue até eles, ficando ali parados e pedindo bola. Como consequência, para que a bola chegue a eles o passe deve ser alto, por cima dos marcadores que estão fechando a linha de passe (passe balão). Deslocar-se em direção ao alvo adversário é apenas uma das possibilidades no jogo. A criança deve compreender que correr nesta direção deve ser o recurso mais importante do jogo e que só deve ser feito após estar livre de seu marcador. Mais do que correr numa única direção, a criança deve aprender a correr em sentidos e direções diferentes por meio de pequenas mudanças de aceleração e ritmo. Se a criança aprende a se desmarcar, a linha de passe ficará livre e o passe balão dará lugar a passes retos e quicados e assim o jogo ganha velocidade e objetividade.

Conclusões:

Observando tais situações e os desdobramentos delas, bem como o olhar para os princípios de aprendizagem que são repassados às crianças, percebemos que a falta de um olhar mais atencioso para os conteúdos a serem aprendidos podem criar pequenos vilões que não tem culpa nenhuma, afinal, ao utilizarem o passe balão a crianças estão sendo vítimas de princípios que não valorizam o momento de maior segurança do jogo, aquele em que a bola está retida com um atacantes e que dificilmente é recuperada pelo adversário.

Buscar a finta (1×1 por meio do uso do trifásico) é fundamental para que haja desequilíbrio defensivo e para que o passe seja utilizado como uma necessidade e não uma obrigação. Além disso, desmarcar-se garante abertura de linhas de passe, e assim o passe balão dá lugar a bolas mais aceleradas e orientadas para crianças livres, diminuindo erros de recepção e criando situações de passe realmente eficientes e efetivas.

Logo, não basta dizer: “Não faz passe balão!”, é necessário utilizar princípios pedagógicos corretos para que as crianças tenham ferramentas para não realizarem os passes balões.

A culpa? É muito mais nossa, dos professores, do que deles, as crianças.

Assim, da próxima vez que seus pequenos alunos transformarem uma partida de handebol num festival de passes balão, repita para si mesmo: “Eu estou ensinando-os a fazer isso. Como mudar?”

Agora, dexe seu comentário e também interaja com o comentário de outro colega!

 

28 comentários sobre “Sobre o uso do “passe balão” na iniciação ao handebol

  1. Acredito que a frase: ” Não passa balão!!!!” tem o mesmo sentido do “MARCA!!!! Pô!!!!”… Ninguém (péssimo generalizar…enfim!!!) ensina: como, porque, quando, por onde, a partir de onde, para que etc etc…

      1. Trabalhando, estudando, assistindo, trabalhando, estudando, assistindo… abs Lucas!!

  2. Muito bom o texto Lucas. A cada dia que passa vejo o quanto temos
    que colocar nossos alunos/as para pensarem colocando situações de jogo específicas para cada objetivo. Quando mais leitura melhor e o que torna o jogo de invasão intenso é justamente essa constante necessidade de deslocamento, de criar vantagem numérica, linha de passe.
    Só preciso tornar as atividade de 1×1 mais divertidas porque os/as alunos/as tem uma preguiça danada de fazer.rs Gostaria de criar situações de jogo de 1×1. Você pode me ajudar?

    Um abraço!

    1. Oi Stephania,
      Temos a tendência a fazer o 1×1 em longas filas, isso torna o treino meio cansativo. Têm momentos que não temos como fugir disso, mas o 1×1 também pode ser estimulado em jogos de 3×3, 4×4. Em breve, vamos falar sobre um jogo ótimo para isso, o pique-bandeira invertido. Você vai entender que o 1×1 pode emergir de um jogo mais coletivo.
      Obrigado pela contribuição!

      1. Gosto de trabalhar o jogo dos 10 passes onde faço as variações, drible depois passe, 1×1 depois passa, além de outros fundamentos.. outra atividade que deu certo é 2×2 saindo do campo de defesa em direção ao ataque, onde que mostro que o objetivo principal é o gol, então se não tem ninguém a frente, “bate bola” e corre pro arremesso!

  3. Muito bom. Estimular o drible, finta, 1×1, e consequentemente abrir espaços para o passe. Desenvolver a confiança e aprender a pensar o jogo o papel do educador. Precisamos melhorar sempre.

    1. O que precisamos fazer na iniciação é trabalhar com atividades mais divertidas de fundamentos (drible, passes, fintas), pois as crianças acham “chato” treinar isso!

  4. Bom dia a todos.

    Ótimas considerações e do grande mestre lucas Leonardo, concordo plenamente no reforço do ritmo trifásico e consequentemente uma finta para sair da marcação, estimular sempre o 1×1 e o desmarque, pois é importante que o aluno entenda que é necessário se desmarcar para receber a bola. O passe balão ou parabólico, caso seja antecedido por alguma finta na qual fixe a atenção de marcadores diretos e indiretos é válido para encontrar algum aluno bem posicionado para realizar uma finalização.

    Obrigado.

    Parabéns mestre Lucas Leonardo admiro o seu trabalho.
    Parabéns

  5. Também adorei o texto.
    Mas estou aqui a pensar, com estas iniciativas eu não posso levar o meu aluno a se tornar muito fominha?

  6. Saudações!

    Nesse texto, eu achei muita coisa dentro do contexto de minha realidade.
    Observo que, por mais que eu estimule o jogo 1×1 para que haja o desmarque mais preciso e seguro, mantendo assim a manutenção da bola, noto insegurança nas crianças para tal ação. Como também, percebo que passar para eles, seja a situação mais confortável, visto que por não estarem com a bola, qualquer erro cometido não será de sua responsabilidade.
    Sobre o desmarcar, o texto representou bem muito do que vejo…
    O entendimento de que estar próximo ao gol é a melhor situação para receber o passe está muito forte na cabeça das crianças, o que os tornam mais propensos a erros como também, provocam o erro do colega ao tentar realizar um passe longo e no caso aqui, passe balão.

    Um abraço.

  7. Devemos enfatizar nas crianças o objetivo maior do jogo que e a maração do gol,om realizando saídas rápidas com trocas de passes sempre realizando os passes após os 3 passos em direção ao gol.

  8. Seguindo a ideia desse e do texto anterior do “fominha”, se pensarmos em termos de progressão pedagógica, poderia se dizer que primeiro devemos ensinar ações da relação eu-bola e eu-bola-adversário (ou seja, individuais). E “depois” ações da relação eu-bola-adversário-companheiro??

    Não necessariamente de forma linear, mas acho que a ideia é essa, certo?

    Mas uma dúvida: como desenvolver isso, se muitas vezes recebemos crianças e jovens que nunca fizeram nenhum esporte e possuem pouca vivência esportiva. Existe tbm aqueles que tem o sentimento de “não sei segurar a bola, vou passar pra alguém que sabe”.

    É claro que nós como professores devemos criar situações para que estas crianças tbm aprendam. Mas como dizer para ela que não deve só passar a bola, mas tentar jogar “sozinho” com ela?

    parabéns pelo texto

  9. Adorei o texto, realmente nos faz refletir sobre os procedimentos que adotamos durante os treinos e que influenciam no agir de nossos alunos

  10. Esse ” Passa balão” já levei muito advertência por isso do meu treinador…
    Mais aí eu percebi que ele tinha total razão no sentido de atrasar um contrataque…

  11. Bom dia a todos. Uma boa reflexão das nossas práticas e por vezes provocativas, no sentido, de nos colocarmos questões sobre metodologia de ensino contextualizada com a realidade da criança em relação ao jogo. O handebol por ser um jogo de muito contato físico, leva a criança a uma lógica indutiva, da observação subjetiva da criança de como o jogo funciona nas inúmeras observações e experimentações realizadas por ela mesma. E como bem colocado no texto, existem as necessidades do jogo e as obrigações do jogo, quando passar, para quem passar, como passar? entrando em confronto com outros elementos do jogo, o drible, o ritmo trifásio, o 1×1, o desmarque, tudo na intenção de alcançar o gol. Tais situações podem ser mais bem avaliadas, através de novas experiências pela criança na intenção de internalizar o equilíbrio da necessidade e da obrigação, promovendo o desenvolvimento cognitivo – motor, para responder as exigências do jogo, que além de ser de muito contato físico, é bem mais complexo para as crianças do que para nós adultos.
    Parabéns pelo ótimo texto e por compartilhar suas experiência com outras pessoas mestre Lucas Leonardo.
    Que venham mais reflexões e provocações.

  12. muy buen texto efectivamente brindar herramientas para que los jugadores puedan vencer situaciones de 1 x 1 y no hacer que los chicos pasar el balon como regla

  13. Excelente texto para reflexão.
    A primeira opção quando estou com a bola sempre deveria ser 1×1 ou ir para o gol e não passar a bola.
    Cobranças como “atitude” para ir para o gol creio que sempre serão válidas.

  14. Perfeito!!!
    Tive a oportunidade de vivenciar parte da minha vida de atleta com você, que foi de grande aprendizado e que agora vem contribuindo bastante na minha carreira de técnica.
    Mais um texto maravilhoso, sempre atento com a formação de “atletas pensantes”.

  15. Paz para todos O texto é descritivo para uma certa idade e bonito Minha pergunta para o Sr. Lucas é como motivar as crianças a mover a bola em direção à meta É o aumento numérico dos atacantes ou algo mais

  16. Olá. Não é tão fácil na hora do jogo Lucas, como alguns comentários, adversários pela frente (além dos braços elevados), um tempo “x” pra se libertar da bola, tudo ajuda ocasionar o passe tipo balão. Talvez nossos processos iniciais devem desenvolver o olhar “generalizado da quadra” pra depois quicar a bola e poder usufruir de outro tempo para ver o que fazer com a bola. Bola grande, muitas vezes pras pequenas mãos e adversários pela frente, joga-se pra cima. Mas creio que sempre no começo, em seguida, eles assimilam e o “passe balão”, vai se esvaindo no jogo. Abs.

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