Regulamentos Adaptados: Contribuições de feras no assunto!

No dia 02 de setembro de 2015 estive na EEFE/USP junto com um grupo de alunos, coordenados pelo Prof. Ms. Diogo Castro, que discutem o handebol a partir de uma visão bastante aplicada, buscando para isso, referenciais teóricos e exemplos em grandes nomes do nosso esporte. Estiveram neste dia, também os Profs. Drs. Luis Dantas e Ana Lúcia Padrão dos Santos

Fui convidado para participar de uma conversa sobre a utilização de regulamentos adaptados em categorias menores, sobretudo, mirim e infantil.

Apresentei, como sustentação de meus argumentos, aquilo que considero os princípios essenciais da lógica dos esportes coletivos, que estão na relação entre as ações que visam a recuperação constante da posse de bola quando defendendo e àquelas que visam atingir de forma rápida (não com pressa) a oportunidade de desfazer-se da bola (por meio de finalização ao gol) quando se está atacando.

Essa relação, elementar e que sustenta a lógica cabal dos JECs (Jogos Esportivos Coletivos) é o que faz handebol ser handebol. Mas, o que se observa em muitos textos de adaptação das regras do jogo é que é exatamente neste ponto que há mudanças, transformando o esporte em um quase-esporte.

A utilização de marcação individual orientada para o jogo por aproximação (nunca superior a 1 metro de distância entre atacante e defensor), por exemplo, acaba por inibir algo que é intuitivo em qualquer um que começa a jogar handebol: desvia-se a atenção da bola e deixa-a exclusivamente no atacante direto. Quantas vezes é possível observar pequenos aprendizes inibidos em tentar recuperar a bola pelo fato de “ter” que marcar um determinado jogador e assim, não poder tirar a atenção dele?

Outras alterações estão orientadas para a modificação de estrutura defensiva de forma pré-determinada, como por exemplo orientar que se deve jogar no primeiro tempo por 10 minutos em defesa individual e depois por 10 minutos em defesa 3:3. No segundo tempo define-se que se jogue 10 minutos em defesa 5:1, deixando os últimos 10 minutos livres à escolha do treinador.

Dá pra imaginar uma criança entre 11 a 14 anos seja capaz de dominar plenamente 3 formas de defender. Cabe lembrar ainda que esta estrutura pode sofrer uma série de variações funcionais (relativas às ações táticas que podem ser utilizadas). E, como fica o árbitro nesta história? Mesmo sendo uma determinação vinda da CBHb, quem é que definiu isso? Qual a aplicabilidade real? Existe alguma avaliação sobre a validade destas adaptações?

Jogar handebol deve ser em essência ensinar seus alunos a recuperar a bola e buscar rapidamente a finalização a gol. Tudo o que acontece no meio deste caminho, tem que acontecer devido a emergências do jogo e não por causa de uma imposição de forma de jogar vinda do regulamento.

Outro ponto a ser analisado: Um regulamento pode/deve interferir diretamente na forma de trabalhar do treinador? Começar defendendo por 6:0 está equivocado? Posso dizer que pode está tão equivocado quanto começar a ensinar por meio da defesa homem x homem, se isso for mal feito e mal orientado, indo contra a lógica essencial do handebol já descrita anteriormente.

O problema está exatamente aí: um regulamento adaptado não pode limitar o jeito de jogar (e também interferir diretamente nas concepções pedagógicas do treinador). Por isso, tenho defendido a tese de que haja o retorno das regras oficiais do handebol, deixando o treinador escolher a forma de jogar com base em seu conhecimento e em suas convicções metodológicas.

Acredito ainda que o regulamento adaptado em competições de base pode se focar menos em modificar o funcionamento do jogo e se centrar mais em questões relativas ao formato do jogo e da competição e às ações paralelas a ela.

Porque jogar dois tempos com placar contínuo? A profa. Ana Paula defende em seu livro (Manual de Mini-handebol), bem como outras iniciativas observadas em ligas e competições menores a utilização do jogo em sets, como no voleibol. Qual o apelo pedagógico disso? Acabam aqueles placares extensos de 30×05, por exemplo e, sempre que acaba um set, tudo começa novamente. Uma nova oportunidade se abre e, assim, as crianças sempre terão uma nova chance de tentar.

Por que jogar 7×7 em quadra de 40x20m e não dividir as equipes em duas metades da quadra e jogar 4×4 em formato de mini-jogo? Assim, joga-se mais, pega-se mais na bola e todos têm mais acesso ao jogo. Mas, e o resultado final? Seria a soma dos placares das duas quadrinhas.

Acabado o jogo, por que não dar a oportunidade das crianças de uma equipe decidirem quem foi o melhor jogador da equipe adversária e, assim, promover nas crianças o senso de reconhecimento e proximidade, afinal, o destaque de uma equipe foi reconhecido pelo seu adversário. Quer prêmio maior do que este?

Adaptar um regulamento não pode interferir na capacidade de agir dentro de quadra, mas oportunizar que se jogue mais, com mais motivação e que seja promovido a aproximação entre os novos e pequenos atores e nossa modalidade.

Estas reflexões não são apenas minhas, mas sim a construção de um encontro cheio de feras do handebol, mas que infelizmente, ainda precisa de mais espaço e mais divulgação.

Estou fazendo aqui a minha parte!

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