A Gestão de Talentos Desportivos

Por: António Cunha – Coordenador do Gabinete de Andebol e Docente da
Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade do Porto.

O Andebol está entre as modalidades desportivas que desde sua criação em meados de 1915 tem vindo a evoluir de forma espectacular, pelo que surgem todos os dias problemas sérios que…obrigatoriamente é necessário debater, desde logo, os que se colocam relativamente aos talentos desportivos sem os quais a modalidade jamais poderá evoluir. Um talento desportivo cada vez menos nasce de um processo de geração espontânea, pelo que se o Andebol quiser continuar na senda do sucesso que o caracterizou nos últimos anos, tem de ter uma estratégia no que diz respeito à gestão de talentos. 

Assim temos como objectivo no presente ensaio abordar o processo de gestão dos talentos no Andebol tendo em vista que o sucesso de qualquer modalidade desportiva passa por ter nos seus recursos humanos o activo mais valioso do seu processo de desenvolvimento. Para o efeito, vamos desenvolver o nosso pensamento tendo em atenção quatro vertentes fundamentais. Em primeiro lugar, vamos considerar alguns aspectos fundamentais que devem enquadrar o problema da gestão de talentos. Em segundo lugar, consideraremos as condições necessárias a que deve obedecer a gestão de talentos a fim de se evitar o abandono precoce dos atletas. Em terceiro lugar, trataremos da formação dos atletas, tendo em conta que os princípios da especialização e da estandardização obrigam a uma atenção redobrada no que diz à criatividade inerente ao próprio talento do atleta. Em quarto lugar vamos equacionar um conjunto de questões que devem ser tidas em conta nos marcos da vida de uma atleta. Finalmente faremos algumas considerações.

Enquadramento:

As experiências de vida de atletas de alto nível tais como entre outros Carlos Resende, Eduardo Filipe, Paulo Morgado, Sérgio Morgado levam-nos a afirmar que no Andebol nacional a idade média de iniciação à prática desportiva de alto nível se tem situado no escalão etário dos 14/15 anos de idade. Por isso, antes dos atletas atingirem a adolescência torna-se necessário seleccio­nar jovens talentosos que possam com segurança atingir altos resultados desportivos em situações extremas, o que é característico da alta competição. Assim, a selecção de talentos é um assunto de fundamental importância para os treinadores, devendo ocorrer com base na revelação e avaliação das capacidades bem determina­das e estáveis do jovem.

Embora as referidas capacidades decorram das aptidões inatas que devem coincidir com características técnicas específicas da modalidade, os talentos no desporto são, também, o produto das condições sociais, económicas, que envolvem a vida do jovem atleta. De facto, são as aptidões inatas inerentes às capacidades motoras que permitem o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos talentos, no entanto, o resultado desportivo não depende somente da aptidão inata do atleta, mas também, das oportunidades criadas para alcançar esse resultado. Desta forma, é necessário saber discer­nir as aptidões apresentadas pelo jovem no momento da selecção de talentos bem com prospectivar as suas possibilidades competitivas potenciais, de maneira a implementar um sistema de treino adequado às exigências da modalidade, às expectativas do atleta e aos interesses da equipa e do clube dos quais faz parte.

Os treinadores devem partir do princípio de que a hereditariedade apenas condiciona de alguma maneira o potencial do atleta pelo que existe uma margem de desenvolvimento muito significativa que decorre da influência do quadro condicionante social (positivo e negativo) que deve ser tido em conta aquando da organização do treino.

Assim, o desempenho óptimo do atleta é sempre determinado pelo complexo das capacidades, inatas e adquiridas que cabe ao treinador no exercício da sua arte descobrir, aproveitar e desenvolver, tendo em atenção a detecção dos talentos, a sua formação, bem como as decisões que estes terão de realizar em cada marco da sua vida.

Detecção:

A selecção de talentos nos desportos pode ser englobada em três grandes etapas:

1. Selecção preliminar e a organização da preparação inicial;
2. Aperfeiçoamento;
3. Orientação.

A primeira etapa tem como objectivo o aproveitamento da maior quantidade de talentos. Os critérios que determinam o aproveitamento das crianças e dos adolescentes estão relacio­nados com a estatura, peso e constituição corporal, etc., sendo a observação do treinador e professor de educação desportiva elementos fundamentais para uma selecção oportuna no decorrer dos treinos, ou mesmo durante as aulas de educação desportiva e nas competições. O conhecimento empírico testemunha que na primeira etapa é muito difícil revelar o tipo ideal das crianças possuidoras das qualidades morfológicas, funcionais e psicológicas indispensáveis para a futura especialidade, já que o estádio de desenvolvimento dos jovens dificulta esse apuramento.

Na segunda etapa o jovem deve ser observado com maior profundidade. O treinador, com base nas observações anteriores, já reúne condições de avaliar os jovens de forma mais minuciosa, pois já teve a oportunidade de colher os dados em exercícios de controlo de treino e nas competições. Os principais critérios nesta etapa constituem-se na análise do ritmo da evolução dos padrões de movimentos e desenvolvimento das capacidades motoras, possibilitando prever as metas possíveis a atingir no aperfeiçoa­mento desportivo.

Na terceira etapa (orientação desportiva) é onde se determina a especialidade do jovem. Para isso, analisa-se o atleta cuidado­samente para aumentar a fiabilidade quando se determina a sua especia­lidade numa modalidade como o Andebol. Nesta etapa de selecção, o treinador deve sustentar as suas decisões num conjunto de informação acerca do perfil atleta no âmbito da sua condição antropométrica, fisiológica, psicológica, sociológica, técnico-desportiva que determinam a capacidade para resolver problemas técnico-tácticos em situação de competição (antes, durante e depois) que, em última análise, é aquilo que determina o sucesso do talento desportivo. Por isso, quando o treinador olha para os atletas, sabe empiricamente que a selecção dos talentos que procura deve ter em conta a capacidade de operação de destrezas motoras, assimilação do conhecimento, persistência, maturidade, criatividade, solidariedade.

Formação:

No caso específico do Andebol observa-se uma quantidade exagerada de situações em que alguns treinadores que actuam no treino de crianças e adolescentes, por não respeitaram os perfis e os ritmos de desenvolvimento dos seus atletas os levam a abandonar precocemente a modalidade. Esta situação tem de necessariamente ser questionada a fim de se encontrarem respostas sobretudo quando se sabe que o volume potencial de recrutamento por questões quebra demográfica tem vindo a decrescer significativamente.

Se do ponto de vista do atleta o processo de desenvolvimento desportivo do talento se sustenta fundamentalmente na sua vontade e motivação para o trabalho, no que diz respeito ao treinador o sucesso desportivo a nível nacional e internacional obriga a um planeamento desportivo rigoroso, em todas as suas vertentes, projectando-se igualmente as perspectivas sociais e culturais a atingir. Assim, no sentido de se respeitarem os perfis e os ritos de desenvolvimento do talento desportivo bem como a necessidade de um planeamento que considere as diversas vertentes do processo devem ser consideradas três etapas fundamentais na formação de talentos:

1. De formação básica;
2. De treino especifico;
3. De treino de alto nível.

A etapa de formação básica deve-se iniciar por volta dos 10 anos, momento em que as crianças frequentam o 1º ciclo do ensino básico. Temos no entanto que tomar em atenção que, nesta etapa, não importa só a especialização dos atletas, é necessário que neste período as crianças e os adolescentes tenham experiência em várias modalidades, através da diversificação de actividades e a assimilação dos movimentos técnico-desportivos básicos. Estes são os aspectos mais significativos desta etapa.

A etapa de treino específico, desenvolve-se dos onze aos 14/15 anos. Orienta-se para a aquisição progressiva e refinada de movimentos que possibilitam a execução de tarefas mais complexas durante o jogo. Oferecendo a oportunidade aos jovens de conhecer o jogo utilizando-se do seu potencial intelectual para a compreensão das acções técnico-tácticas, parece-nos ser a característica fundamental desta etapa.

A etapa de treino de alto nível circunscreve-se necessariamente à especialização na modalidade, pelo que todo o processo de treino é enfatizado para o trabalho em equipa a partir do trabalho individual a nível do treino formação dos sistemas funcionais como, por exemplo, o desenvolvimento da força, da resistência, da velocidade, da flexibilidade e da coordenação. Nesta etapa em que os fluxos de trabalho que estruturam os actos técnicos e tácticos em jogo já estão perfeitamente estandardizados, deve ser tida em conta como uma questão fundamental, o talento dos atletas.

Decisão:

Neste quadro de situação, tendo em vista a detecção, a formação e a gestão do talento desportivo, existe um conjunto de questões que cada treinador tem de ser capaz de, em conjunto com o atleta e aqueles que lhe são mais próximos, em cada marco do processo de vida ser capaz de ter respostas que esclareçam as seguintes questões fundamentais:

1. Treinar porquê?
2. Treinar com quem?
3. Treinar como?
4. Treinar para quê?
5. Objectivos?
6. Metas (objectivos quantificados)?
7. Treinar até quando?
9. Treinar, e depois?

Em função das respostas dadas que devem ser encontradas em conjunto com as pessoas que o rodeiam, assim o atleta pode realizar as decisões fundamentais da sua vida que evitem a situação de vermos um atleta não ser capaz de determinar o momento exacto em que deve sair. “Se é a tua despedida sai pela porta grande” dizia “A Bola” (15/6/06) relativamente a Luís Figo um trintão que no Mundial 2006 se exibe ao mundo pela última vez.

Considerações Finais:

O técnico desportivo, através da sua competência na qual se inclui o bom-senso, pode influenciar directamente o desempenho dos atletas promovendo os respectivos talentos desportivos ou, pelo contrário, pode fazê-los abandonar precocemente a modalidade e o desporto.

Na fase inicial é de vital importância oferecer às crianças e jovens uma actividade alegre e motivadora, nas fases de desenvolvimento seguintes é necessário que o treinador avalie, reformule e melhorar constantemente o seu desempenho, de forma a poder responder adequadamente às exigências desportivas do jovem talento para que no tempo da especialização a assuma consciente e decididamente.

O jovem talento não se constrói sozinho. O apoio familiar, a escola, os amigos e outros, são factores preponderantes que é necessário gerir e que devem ter um peso relativo nas decisões que terá de realizar em cada marco da sua vida.

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