Avaliando no Handebol: Em que nível de aprendizagem seus atletas e seu grupo se encontram?

Um dos princípios básicos de qualquer organização curricular é a adequação dos conteúdos/matérias com o atual momento de aprendizagem e os potenciais a serem atingidos pelos alunos. No ensino do handebol de base isso não pode ser diferente.

Compreender que o handebol é uma construção processual com etapas de aprendizagem e que para cada uma delas há a necessidade de construir um handebol possível de ser aprendido é essencial e uma das formas de conhecer o que se trabalhar é saber avaliar. E, avaliar, sempre é uma grande dificuldade, afinal, o que avaliar? Como avaliar?

Realmente, não é simples. Em se tratando de esporte, a avaliação coletiva é demasiadamente complicada. Para isso, no livro “Educação Como Prática Corporal” de 2003, cujo tema são aulas de educação física escolar, os professores Alcides José Scaglia e João Batista Freire propõem que a avaliação deve ser feita por uma observação sistemática de poucos alunos por vez, até que todos possam ser avaliados.

Avaliarem pequenos grupos possibilita maior atenção às características dos alunos e, como se trata de esporte de base, não existe a necessidade de termos pressa, já que um dos princípios que devemos ter em nossas ações como professor é dar aulas de qualidade, para que o aluno ali permaneça conosco por muito tempo.

Definiros critérios de avaliação sempre é difícil, mas, em se tratando de estudos de currículo em programas esportivos, Alcides José Scaglia, Riller Silva Reverdito, Lucas Leonardo e Cristian Lizana descrevem em sua obra de 2011 que existem três Competências Essências no esporte coletivo de invasão, relacionadas à Comunicação na Ação, Estruturação de Espaço e Relação com a Bola, ideias adaptadas da obra de Júlio Garganta de 1995.

Estas competências relacionam-se com quatro diferentes níveis de desenvolvimento do jogo: o Jogo Anárquico (típico da iniciação), o nível da Descentração, da Estruturação e da Elaboração.

Abaixo, segue como se relacionam as competências essenciais do jogo e os níveis de desenvolvimento do jogo, segundo Garganta (1995):

CaracterísticasComunicação na AçãoEstruturação de EspaçoRelação com a Bola
Jogo AnárquicoCentralização na bola. Problemas na compreensão do jogoAbuso da verbalização sobretudo para pedir a bolaAglutinação em torno da bolaElevada utilização da visão central
DescentraçãoA função não depende apenas da posição da bolaPrevalência da verbalizaçãoOcupação do espaço em função dos elementos do jogoDa visão central para a periférica
EstruturaçãoConscientização e coordenação das funçõesVerbalização e comunicação gestualOcupação racional do espaço (tática individual e de grupo)Do controle visual para o proprioceptivo
ElaboraçãoAções inseridas na estratégia da equipePrevalência da metacomunicaçãoPolivalência funcional. Coordenação das ações táticas coletivasOtimização das capacidades proprioceptivas

O uso destas categorias pode nos permitir enquadrar cada atleta nosso em uma destas fases de desenvolvimento e, assim, podemos realizar atividades voltadas para cada uma das competências essenciais descritas e necessárias de serem trabalhadas.

Porexemplo, pode-se enfatizar o trabalho de propriocepção em relação ao controle da bola para alunos que ainda são muito centrados nela para jogar, pode-se enfatizar a descentração da bola, por meio de jogos e brincadeiras com mais alvos a serem atingidos, aumentando a quantidade de elementos do jogo e melhorando a estruturação de espaço dos alunos; pode-se ainda brincar de jogo do silêncio, onde a equipe que falar durante o jogo dá um gol para a equipe adversária, estimulando assim a metacomunicação (ou comunicação feita por movimentações táticas do jogo, do tipo oferecer-se para receber um passe, mover-se em direção aos espaços vazios do jogo e etc.). Para um grupo cuja característica geral em relação a estruturação do espaço ainda seja a centração na bola, por exemplo, de nada servirá uma aula que traga exercícios sobre meios táticos de grupo, como cruzamentos, permutas e bloqueios ofensivos, afinal, os alunos ainda não compreendem esse tipo de necessidade tática.

Outra observação, advinda de experiência própria, é o que chamo de “Síndrome dos 100m rasos”. O salto de qualidade do nível e compreensão do jogo do nível anárquico para o de descentração é bastante rápido, quase natural. Para que um grupo passe do nível de descentração para o de estruturação, o caminho é mais trabalhoso, requerendo um bom trabalho de iniciação ao handebol já entrando na fase de especialização.

Saltar, porém, do nível de estruturação para o de elaboração é tão difícil e trabalhoso quanto baixar 1 décimo de segundo nos 100m rasos (por isso a analogia). Existem grandes equipes que transitam entre os dois níveis de desenvolvimento e compreensão do jogo, mostrando o quanto é difícil jogar em alto-nível o tempo todo.

Por isso, compreender o nível de aprendizagem de seu grupo, por meio de avaliações individuais de poucos de seus atletas a cada dia, usando os critérios mencionados, dá a chance de verificar em que momento de aprendizagem eles se encontram, para assim desenvolver aulas adequadas ao que eles já sabem e sempre mirando naquilo o que eles podem aprender. Organiza-se assim um currículo adequado para o trabalho a longo prazo.

18 comentários sobre “Avaliando no Handebol: Em que nível de aprendizagem seus atletas e seu grupo se encontram?

  1. Muito bem elaborado tudo o que foi falado e acredito que vai ajudar bastante muitos professores e treinadores com alguma duvida de como avaliar o atleta por exemplo.

  2. Ótimo texto, esclarecedor diria.
    Faz seis meses que venho trabalhando com um grupo de meninas da rede pública do meu município, e estamos tentando dar uma melhor continuidade no trabalho, já que por conta de força maior, muitas vezes ficamos sem treino. Mas de lá pra cá já percebo a consciência de jogo que muitas delas adquiriram, e a diferença em relação as que estão iniciando comigo.

  3. Muito interessante a matéria, acredito que essa estratégia no ensino dos alunos contribuirá muito com o desenvolvimento da percepção do trabalho em equipe.

  4. Muito interessante a matéria, acredito que essa estratégia no ensino dos alunos contribuirá muito com o desenvolvimento da percepção do trabalho em equipe. Abraços

  5. Muito interessante mesmo, aliás, outra visão, muitas sabemos o que fazer, mas não como e quando fazer, então acaba-se queimando etapas, desmotivando alunos, etc.

  6. Interessante, é importante que lembremos que cada aluno possui características próprias, e que o professor deve te um olhar atento para contribuir no desenvolvimento de cada um melhorando assim sua equipe.

  7. Parabéns pelo texto, especialmente por se tratar de algo tão complexo que é a avaliação em esportes coletivos. Vc poderia informar as referências citadas no texto por gentileza. Desde já agradeço

  8. Bom texto.
    Avaliar e comparar teste de uma equipe como um todo e muito importante para melhor o desempenho do coletivo, avaliar individualmente e o começo do processo.

  9. E na prática professor , quando vc encontra uma parte do grupo num nível e outra parte em outro nível , o adequado é propor atividades distintas em algumas partes do treino ?

  10. Na iniciação, o importante é que o prof. faça uso de uma sequencia pedagógica progressiva, atendendo o nível de desenvolvimento motor do grupo. No nível público, todos devem jogar. O que muda são as exigências que o prof. deve observar com os mais e/ou menos desenvolvidos tecnicamente. Quem joga mais pode auxiliar quem joga menos. Avaliar problemas situacionais é importante. Quem mais pede a bola é o que mais recebe para jogar. Importante enfatizar que o passe deve entrar no colega desmarcado e não quem pede a bola. A progressão do grupo depende da motivação, da vontade do prof. em perceber e querer/poder corrigir. Participar/realizar jogos escolares. Neles aparecerão os problemas individuais e coletivos. Fica mais fácil de corrigir cfe. disse a Sheila….

  11. O artigo é muito esclarecedor, avaliar é uma atividade difícil , é necessário muita observação e conhecimento do processo de da indivíduo.

  12. é de extrema relevância para nós profissionais do handebol poder contar com o apoio de textos que só contribuem para o crescimento tanto do aluno aprendiz quanto do próprio professor/treinador.

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