Avaliando no Handebol: Em que nível de aprendizagem seus atletas e seu grupo se encontram?

euLucas Leonardo é o coordenador do site http://www.pedagogiadohandebol.com.br e atua como consultor pedagógico de projetos esportivos em clubes, associações e prefeituras.

Um dos princípios básicos de qualquer organização curricular é a adequação dos conteúdos/matérias com o atual momento de aprendizagem e os potenciais a serem atingidos pelos alunos. No ensino do handebol de base isso não pode ser diferente. Compreender que o handebol é uma construção processual com etapas de aprendizagem e que para cada uma delas há a necessidade de construir um handebol possível de ser aprendido é essencial. Uma das formas de conhecer o que trabalhar é saber avaliar. E, avaliar, sempre é uma grande dificuldade, afinal, o que avaliar? Como avaliar? Realmente, não é simples. Em se tratando de esporte, a avaliação coletiva é demasiadamente complicada. Para isso, no livro “Educação Como Prática Corporal” de 2003, cujo tema são aulas de educação física escolar, os professores Alcides José Scaglia e João Batista Freire propõem que a avaliação deve ser feita por uma observação sistemática de poucos alunos por vez, até que todos possam ser avaliados. Avaliar em pequenos grupos possibilita maior atenção às características dos alunos e, como se trata de esporte de base, não existe a necessidade de termos pressa, já que um dos princípios que devemos ter em nossas ações como professor é dar aulas de qualidade, para que o aluno ali permaneça conosco por muito tempo. Definir os critérios de avaliação sempre é difícil, mas, em se tratando de estudos de currículo em programas esportivos, Alcides José Scaglia, Riller Silva Reverdito, Lucas Leonardo e Cristian Lizana descrevem em sua obra de 2009 que existem três Competências Essências no esporte coletivo de invasão, relacionadas à Comunicação na Ação, Estruturação de Espaço e Relação com a Bola, ideias adaptadas da obra de Júlio Garganta de 1995. Estas competências relacionam-se com quatro diferentes níveis de desenvolvimento do jogo: o Jogo Anárquico (típico da iniciação), o nível da Descentração, da Estruturação e da Elaboração. Abaixo, segue como se relacionam as competências essenciais do jogo e os níveis de desenvolvimento do jogo, segundo Garganta (1995):

Características Comunicação na Ação Estruturação de Espaço Relação com a Bola
Jogo Anárquico Centralização na bola. Problemas na compreensão do jogo Abuso da verbalização sobretudo para pedir a bola Aglutinação em torno da bola Elevada utilização da visão central
Descentração A função não depende apenas da posição da bola Prevalência da verbalização Ocupação do espaço em função dos elementos do jogo Da visão central para a periférica
Estruturação Conscientização e coordenação das funções Verbalização e comunicação gestual Ocupação racional do espaço (tática individual e de grupo) Do controle visual para o proprioceptivo
Elaboração Ações inseridas na estratégia da equipe Prevalência da metacomunicação Polivalência funcional. Coordenação das ações táticas coletivas Otimização das capacidades proprioceptivas

O uso destas categorias pode nos permitir enquadrar cada atleta nosso em uma destas fases de desenvolvimento e assim, podemos realizar atividades voltadas para cada uma das competências essenciais descritas e necessárias de serem trabalhadas. Por exemplo, pode-se enfatizar o trabalho de propriocepção em relação ao controla da bola para alunos que ainda são muito centrado nela para jogar, pode-se enfatizar a descentração da bola, por meio de jogos e brincadeiras com mais alvos a serem atingidos, aumentando a quantidade de elementos do jogo e melhorando a estruturação de espaço dos alunos; pode-se ainda brincar de jogo do silêncio, onde a equipe que falar durante o jogo dá um gol para a equipe adversária, estimulando assim a metacomunicação (ou comunicação feita por movimentações táticas do jogo, do tipo oferecer-se para receber um passe, mover-se em direção aos espaços vazios do jogo e etc.). Para um grupo cuja característica geral em relação a estruturação do espaço ainda seja a centração na bola, por exemplo, de nada servirá uma aula que tragar exercícios sobre meios táticos de grupo, como cruzamentos, permutas e bloqueios ofensivos, afinal, os alunos ainda não compreendem esse tipo de necessidade tática. Outra observação, advinda de experiência própria, é o que chamo de “Síndrome dos 100m rasos”. O salto de qualidade do nível e compreensão do jogo do nível anárquico para o de descentração é bastante rápido, quase natural. Para que um grupo passe do nível de descentração para o de estruturação, o caminho é mais trabalhoso, requerendo um bom trabalho de iniciação ao handebol e já entrando na fase de especialização. Saltar, porém, do nível de estruturação para o de elaboração é tão difícil e trabalhoso quanto baixar 1 décimo de segundo nos 100m rasos (por isso a analogia). Existem grande equipes que transitam entre as dois níveis de desenvolvimento e compreensão do jogo, mostrando o quanto é difícil jogar em alto-nível o tempo todo. Por isso, compreender o nível de aprendizagem de seu grupo, por meio de avaliações individuais de poucos de seus atletas a cada dia, usando os critérios mencionados, dá a chance de verificar em que momento de aprendizagem eles se encontram, para assim desenvolver aulas adequadas ao que eles já sabem e sempre mirando naquilo o que eles podem aprender. Organiza-se assim um currículo adequado para o trabalho a longo prazo.

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