A aprendizagem do Passe na Iniciação e na Especialização ao Handebol – Diferenças Significativas

euLucas Leonardo é o coordenador do site http://www.pedagogiadohandebol.com.br e atua como consultor pedagógico de projetos esportivos em clubes, associações e prefeituras.

Geralmente, quando solicito que alguém caracterize o jogo de handebol, ouço algo assim: “É um jogo no qual a equipe deve passar a bola para depois arremessar a gol”.

A ideia que associa o handebol ao passe é quase que um senso comum entre alunos, atletas e professores.

Considerando, porém, o real objetivo do jogo, a utilização do passe pode não ser tão relacionada à quantidade de passes que uma equipe realiza, mas sim à qualidade do passe realizado. Ou seja, para marcar gol (um dos principais objetivos do jogo), não é necessário que muitos passes sejam realizados. Muitas vezes um único passe, realizado de forma adequada, pode garantir uma boa condição de finalização.

Aliás, falando em passes, recentemente, junto com a Profa. Tathyane Krahenbuhl, que também escreve neste site, realizei uma pesquisa sobre a utilização dos passes em equipes da elite do handebol mundial, analisando jogos das olimpíadas de Pequim e, para nossa conclusão, verificamos que a grande maioria dos gols era previamente construída com nenhum passe (cobranças de tiros de 7 metros, contra-ataques diretos, em que o jogador rouba a bola e desloca-se em direção ao gol adversário), 1 passe (cobranças de falta seguida de finalização, contra-ataques com lançamentos) e 2 passes (cobrança de falta ou deslocamento ao ataque conduzindo bola seguido de passe com penetração na defesa adversária e assistência a pivô, jogador que sobra, jogador que vem para um arremesso de fora e etc..).

Nossa pesquisa vem confirmar que o handebol jogado na elite não é um jogo de muitos passes, mas sim um jogo de quantidade necessária de passes.

No entanto, o handebol da elite, se comparado ao handebol da fase de iniciação e ao handebol da fase de especialização, acabam sendo construídos de forma diferente, devido ao domínio que os atletas possuem das variantes estratégico-táticas, técnicas e físicas do jogo. Porém, todos jogam handebol, buscando a vitória em detrimento da recuperação da posse de bola sem sofrer gols na tentativa de converter gols, criando vantagem no placar.

Todos jogam handebol. Mas o handebol jogado por cada uma destas fases (iniciação, especialização e alto-rendimento) acabam parecendo diferentes aos nossos olhos. E realmente o são.

Dessa forma, ao analisar a função do passe, se focarmos o momento da iniciação e compará-lo à fase de especialização da modalidade, perceberemos diferenças da função tática do passe, fator este que incide na forma como ensinamos a jogar handebol para cada uma destas fases.

A seguir, farei uma breve análise de dois jogos que podem ensinar passe: Passa 10 e o Pega-Gavião em que se joga 2 atacantes contra 2 filas.

Passa 10

O Passa 10 é um jogo em que duas equipes jogam dentro de uma área determinada. Dependendo dos objetivos do treino pode-se variar quantidade de jogadores e o tamanho da área de jogo. Neste jogo, a equipe que estiver com a posse da bola deve tentar realizar 10 passes seguidos sem que a equipe adversária toque a bola. Sempre que o adversário toca a bola, a contagem reinicia do zero. Se o adversário recuperar a bola, ele inicia a contagem.

Abaixo um esquema simples da montagem do jogo (figura 1):

Figura 1. O jogo de Passa 10

Pega-Gavião: 2 x 2 filas

O Pega-Gavião (ou Pega-Rabo) é uma brincadeira tradicional que, pensando a aprendizagem do handebol, pode ser adaptada e servir muito para a aprendizagem do passe, da fixação, da aprendizagem das trajetórias e etc..

A adaptação pode ser observada no vídeo abaixo, no qual há a demonstração de um jogo em que 2 jogadores atacam e 2 filas se defendem.

Análises Pedagógicas:

Observando ambos os jogos, percebemos que sem o passe seriam difíceis de serem operacionalizados. Logo, passar é uma das habilidades requeridas em ambas as atividades. Concluindo dessa forma que ambos os jogos terão como princípio norteador a aprendizagem do passe.

Observando a dinâmica dos jogos, na sua opinião, qual deles seria típico para a iniciação? Qual dele seria típico para o processo de especialização?

Se considerarmos que na iniciação as habilidades de passar e receber estão associadas a um jogo em que estão aprendendo a descentrar-se da bola e  em que atacantes de defensores ainda se enfrentam numa relação de marcação homem x homem (individual) e no qual os passes se caracterizam pela prevalência da verticalidade (profundidade) em preferência à horizontalidade, na tentativa de encontrar um companheiro de equipe que esteja mais próximo do gol, já que a disposição dos jogadores em quadra tem nos gols a atacar e a defender suas principais referências (figura 2), o jogo de Passa 10 é uma peça fundamental deste período de aprendizagem.

Figura 2. Disposição dos jogadores em quadra num jogo da fase de iniciação. A melhor opção de passe será na maioria das vezes o companheiro mais adiantado, por estar mais próximo do gol adversário – prevalência de passes logos e altos.

O passa 10 trabalhará o passe agregado ao desmarque (função tática do passe), de forma a, aos poucos, substituir os passes demasiados longos e perigosos (pois geralmente o adversário consegue interceptá-los) de passes mais curtos baseados na ação de desmarque de seu companheiro de equipe. Surge nesta fase a tática coletiva do passa e vai (tabela) e os primeiros cruzamentos simples.

Ao observarmos o segundo jogo, do Pega-Gavião, percebemos que existem outras característica de passe ali agregado.

No processo de especialização a aprendizagem dos sistemas defensivos zonais acaba sendo uma das principais diferenças se comparado ao período de iniciação. Os sistemas zonais transformam o jogo.

Se antes o desmarque era uma das princiapais características de ganho de superioridade numérica, agora desmarcar-se acaba não sendo uma das condições essenciais para jogar. Se na iniciação o passe era dado ao jogador que aparecesse livre de marcação, quando jogando contra defesas zonais o passe não deve mais ter este como a única referência.

As defesas zonais trazem a necessidade do passe estar agregado à atração do adversário, somada ao deslocamento sem bola dos colegas próximos do centro de jogo para espaços vazios que surjam na defesa. Receber a bola parado cria vantagem defensiva. Logo, o passe está diretamente associado ao deslocamento do companheiro, devendo a bola ser passada não mais para ele, mas sim para o lugar em que ele tem que estar para receber a bola. A isso, podemos dar o nome de passe em ponto futuro.

O passe em ponto futuro é um passe que caracteriza a progressão em profundidade da equipe, porém, sendo praticamente lateralizado. Ou seja, passa-se para o lado, mas este passe cria uma situação de vantagem para que o seu companheiro desloque-se para frente. É o tipo de passe que um jogo como o Pega-Gavião proporciona. Neste jogo, seu companheiro está próximo a você e, dependendo de qual fila você atrai, ele desloca-se ou cruzando ou com trajetória paralela à sua, mas seu deslocamento tem que iniciar-se antes de receber a bola para que, quando receber a bola, ele já esteja numa situação boa para alcançar o último da fila.

Este mesmo tipo de passe é utilizado nas progressões sucessivas ao gol, típicas do movimento de engajamento, ou mesmo no passe para um ponta que se encontra livre para receber a bola e arremessar.

Logo, o passe da especialização deve obedecer à seguinte construção: Jogador com bola já está deslocando-se em direção aos adversários, chamando a atenção deles, ao mesmo tempo em que os companheiros próximos iniciam seu deslocamento sem bola. O passe é lateral, no ponto em que o companheiro deve estar para recebê-la. O companheiro continua seu deslocamento em profundidade na busca de um espaço vazio que sobre e caminha em direção ao gol.

É possível observar a diferença entre o passe que os jogadores de iniciação realizam e o passe que os jogadores da especialização devem realizar.

Jogar Passa 10 é bom, mas chega um momento em que ele não é suficiente. Jogar o Pega-Gavião é bom, mas apenas no momento certo.

Espero que tenham percebido como passar é importante no handebol, mas não necessariamente em quantidade, e sim em qualidade. E que as necessidades de aprendizagem do passe da iniciação diferem da aprendizagem do passe da especialização.

Referências:

KRAHENBUHL, T. ; LEONARDO, L. . Análise de Sequência de Passes, Finalizações e Gols no Handebol Feminino da Olimpíada de 2008. In: IV Congresso de Ciências do Desporto, III Simpósio Internacional de Ciências do Desporto, 2011, Campinas. IV Congresso de Ciências do Desporto, III Simpósio Internacional de Ciências do Desporto, 2011.

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6 comentários sobre “A aprendizagem do Passe na Iniciação e na Especialização ao Handebol – Diferenças Significativas

  1. Gostei muito de ler você. A atividade do passa dez foi uma idéia de atividade que planejei dentro de uma gama de opções e escolhi trabalhar o passe e posicionamento tático. Ver a compatibilidade de seu texto com os objetivos por mim pontuados em um plano de aula me deixou feliz.
    Obrigado e sucesso!

  2. Muito bom!!

    Uma opnião: pra ensino de atletas que ingressam tardiamente no handebol, qual seria a melhor estratégia?

    Visto que o atleta nunca/ou quase unca teve experiênia com a modalidade.

    Falo de adolescentes a partir dos 15 anos.

    1. Gustavo, tudo bem? A iniciação tardia é um assunto que vem sendo estudado academicamente. Na realidade, parto do princípio que independente da idade, o handebol possui um currículo e, mesmo sendo o aluno um iniciador tardio, temos que tentar abordar o currículo como um todo. Partindo dos elementos táticos básicos do jogo, como a relação de 1×1 (uso das fintas contra o contato físico da defesa), bem como as abordagens defensivas e ofensivas mais simples, como a marcação homem x homem e o ataque livre. Apesar de ser tardia, isso ainda é uma iniciação ao esporte. Abraços!

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