A pedagogia do “contato físico” no handebol

Um dos principais autores que estudo é o francês Claude Bayer, treinador da seleção Francesa de handebol na década de 70 que, dentro do contexto atual da pedagogia do esporte tem em sua obra “O Ensino dos Esportes Coletivos” um trabalho de base, sobre o qual, muitos novos estudos surgiram e ainda devem surgir.

Visando categorizar os esportes coletivos a partir de suas semelhanças e diferenças, Bayer aponta que, com relação à forma de disputa da bola, o handebol se caracteriza como um esporte de contato físico, que em grau de intensidade, fica atrás somente de esportes como o Rúgbi e o Futebol Americano.

Ou seja, o contato físico é inerente ao jogo e, complementando esta ideia, sem sua presença, o handebol seria um esporte sem graça.

Logo, o contato físico deve ser, sem dúvidas, um conteúdo de aprendizagem que necessita ser pedagogizado em aulas e treinos, principalmente na iniciação ao handebol.

Não falo aqui de treinos maçantes ensinando como controlar o adversário, dentro de um padrão técnico, comumente visto em treinos através de exercícios analíticos que ensinam como “encaixar” o adversário, inibindo-o.

Estou falando sobre algo muito maior e anterior ao esporte. Falo sobre quebrar um paradigma social muito presente que está relacionado ao enclausuramento do corpo.

Contato físico, como abraçar, beijar e dar as mãos, é comum em núcleos familiares (e ainda assim, nem sempre essas atitudes são observadas), porém, qualquer tipo de contato ou proximidade física com um “estranho” é mal vista.

Pense em você entrando num ônibus cheio a caminho de seu trabalho, de sua escola ou mesmo a caminho de uma aula/treino de handebol.

Ao entrar no ônibus você observa que existem 30 assentos, cada um com dois lugares. Dos 30 assentos, 29 estão ocupados por apenas uma pessoa e há um assento de dois lugares totalmente vazio. Qual é a sua escolha? Sentar-se ao lado de alguém ou procurar o assento vazio?

A resposta é simples, pois é normal, dentro de nossos padrões culturais e sociais, buscarmos um assento vazio, afinal, é assim que nos preservamos e cuidamos de nossa individualidade que é metaforicamente simbolizada por nosso corpo.

Imagine então o caso do esporte: o contato físico na maioria dos esportes coletivos está associado a uma ação viril (nem sempre agressiva, em verdade) e é quase sempre entendido como uma atitude transgressora. O contato gera faltas. A falta pode gerar uma punição regulamentar. Logo, ter contato nos esportes coletivos é um comportamento negativo dentro do que espera no jogo.

A isso soma-se ainda o fato de que uma criança pode não gostar de ser encostada ou de buscar o contato corporal sobre outra com o qual ela não possui uma relação de proximidade, afinal, ela é bombardeada desde muito nova com os conceitos e critérios sociais de preservação de sua integridade individual, logo tocar o outro é algo a ser evitado.

Porém, no handebol, jogar sem contato é deixar de jogar, pois a modalidade moldou-se como um esporte em que para evitar a progressão adversária a falta se torna um recurso particularmente e taticamente aceitáveis.

Logo, o contato físico transforma-se em algo a ser ensinado já nos primeiros contatos com a modalidade.

Não basta ensinar a técnica defensiva (onde colocar as mãos, como posicionar as pernas e o tronco). Deve-se, antes disso, transformar o contato em algo tolerável, aceitável e “normal”.

Considerando a iniciação ao handebol, pensando em categorias pré-mirim e mirim (10, 11 e 12 anos), a presença do elemento lúdico pode ser uma estratégia de ensino capaz de promover a suspensão momentânea das crianças das regras sociais que limitam a expressão corporal no sentido do outro, transformando o ambiente de aprendizagem num cenário cujas novas regras – condizentes à proposta de ensino (que é a tolerância ao contato físico) – sejam bem associadas pelas crianças.

Como sempre reforço, as crianças já sabem o que fazer para que a possibilidade de ter contato com o outro seja aceitável, é por isso que elas brincam. Na brincadeira, novas e emergentes regras surgem, válidas apenas naquele contexto, de maneira que numa brincadeira tradicional como o pega-pega a necessidade de tocar o outro seja o principal elemento caracterizador do jogo.

Oras, então brincar de pega-pega nas aulas de handebol é uma forma de ensinar às crianças a tolerância ao contato físico? Claro que sim!

Pega-pega, pega-ajuda, pega-gelo, pega-americano, pega-corrente, mãe da rua, rio vermelho, pega-pega salve-se com um abraço, são todas variações de brincadeiras de perseguição de ótimo apelo para o início ao contato físico.

Em jogos comuns como o “passa 10” – no qual duas equipes disputam a posse da bola e tentam realizar 10 passes para marcar um ponto – incluir uma regra simples como, se o jogador estiver sendo tocado pelo adversário de frente este não poderá receber a bola, ou então, se o jogador com bola for tocado de frente num de seus ombros ele perde a posse da bola, podemos introduzir o conceito do contato em nossas aulas.

Brincar de rúgbi, brincar de desmarque (1×1 em que um deve tentar ultrapassar o outro), dão maior especificidade ao contato por se aproximar muito do que se solicita no handebol.

Somente após brincar muito e entender que encostar no colega não é nenhum problema, é que os principais conceitos sobre o contato regulamentar do handebol – ações defensivas, ações do pivô sobre seu(s) marcador(es) e etc. –  devem ser abordados.

Dessa forma, como sugestão, entendam que é necessária uma pedagogia do contato físico antes que se cobre tal contato de seus alunos.

É necessário que seus alunos entendam que podem se tocar e que, principalmente, podem ser tocados – e que isso é normal para quem está aprendendo handebol – para só então o contato ser algo treinável dentro de padrões regulamentares.

Muitos agarrões, empurrões, puxões ocorrerão. E isso é saudável, e é o que torna o handebol, handebol.

7 comentários sobre “A pedagogia do “contato físico” no handebol

  1. Excelente reflexão. Ajuda muito a entender como pode ser um trabalho inicial junto a crianças. Só de pensar que pode partir daí a libertação de um preconceito quanto ao corpo do outro ao mesmo tempo em que se estabelece um grande respeito pelo mesmo corpo. Muitíssimo interessante.

    1. Gabriela, a diferença está no respeito ao adversário. Podemos ter contatos duros, intensos, mas respeitando o adversário enquanto um companheiro de esporte. Por exemplo, evitar empurrões laterais e pelas costas, já é um bom começo de demonstrar respeito. O contato deve ser sempre frontal, isso já minimiza ações mais violentas. Abraços!

  2. O problema é que os professores /treinadores que trabalha com a iniciação não interpretaram bem e refletiram sobre as possibilidades de contato físico nestas idades.
    Sem discutir os prós e contras do sistema defensivo individual, os treinadores não orientam seus iniciantes atletas a realizarem ações defensivas prévias ao contato físico, como controle de adversário, controle de dois pontos (bola oponente direto), ocupação de espaço, dissuasão, interceptação de passes, ou seja…antes de qualquer ação prévia, ensinam a agarrar, antes mesmo que a adversário tenha posse da bola, atrapalhando e “estragando” todo o processo.
    Poucos ensinam os “momentos defensivos ” relacionados ao espaço na quadra, atitude do adversário, orientando as possibilidades de observação, aproximação e a partir disso controle, desequilíbrio e contato desde que o atacante esteja com posse de bola e chance de ocupar um espaço próximo a linha de 6m e chance clara de arremesso livre…
    Precisamos discutir melhor, para treinadores e árbitros terem maior clareza sobre a importância desta situação de jogo decisiva e muito mal desenvolvida e treinada na base!!!

    1. Perfeito! Porém, todo esse conhecimento não é trivial. É preciso acesso, oportunidade para aprender. Para isso temos que contribur, assim como você fez. Garanto que muitos que lerem seu comentário ficarão instigados a buscar entender conceitos como marcação por observação e aproximação; o que é dissuasão e etc.. Gosto destas contribuições e espero que este espaço possa ajudar de alguma forma nesse processo. Abs!

  3. Excelente reflexão! A pedagogia do contato físico é um bom exemplo para pensarmos pedagogias que reflitam sobre os conceitos do jogo. Conceitos que se fazem presentes antes mesmo do ensino e aprendizagem dos gestos técnicos. Compreender esses conceitos exige do professor sensibilidade pedagógica e competência em transformá-los em conteúdos de aprendizagem ao longo do processo de ensino-aprendizagem. Eu trabalho com iniciação ao voleibol, e na minha prática tenho feito esforços nesse sentido. Pensando especificamente no voleibol e parafraseando a pedagogia do contato físico, pode-se pensar em uma pedagogia do “não deixe a bola cair” no vôlei, visto que esse é um dos principais conceitos que caracterizam esse esporte. Abraço!

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