Entre a Finta e a Ocupação de Espaços Vazios. Como evitar conflitos no ensino do Handebol

No processo de iniciação ao handebol, geralmente, e com certa razão, valorizam-se atitudes individuais como conteúdos de ensino.

Quando se fala do jogo ofensivo, principalmente, a finta é quase sempre considerada o primeiro elemento técnico (talvez, junto com a realização do passe) a ser abordado. Não existe erro nisto, pois ensinar a fintar é o primeiro meio pelo qual um aluno aprende, mantendo a posse da bola consigo, a ultrapassar um adversário em direção ao gol.

No entanto, quando se trata da aprendizagem da finta, as abordagens de ensino mais utilizadas quase sempre se pautam na desconstrução da técnica da finta em suas partes, passadas uma de cada vez aos seus alunos. Primeiro, ensina-se a fixar (realizar a passada zero) frente a um cone, depois a mudar de direção, num terceiro momento, em duplas, um passa a bola e outro a recebe fixa-se a sua frente, saindo de um lado ou do outro do seu companheiro de dupla, que não realiza qualquer ação de resistência a essa finta, alternando uma repetição para cada um. Num quarto momento, mostra-se que ao sair para o lado oposto ao braço dominante, o jogador deve realizar uma finta de braço (mostrando como realizar esse gesto) e se sair para o mesmo lado do braço dominante, realiza-se a finta de corpo.

A partir desta sequência, se constroem variadas circunstâncias, incluindo um arremesso a gol, um passe lateral e etc.. de forma que a finta, tecnicamente, passa a ser bem assimilada. Com essa sequência de ensino não há dúvidas de que a ação motora será bem internalizada.

Esse tipo de abordagem sem dúvida se baseia no ensino da técnica e pode formar excelentes fintadores. No entanto, esse tipo de abordagem de ensino não garante que a finta seja compreendida em sua totalidade tática.

Segundo a literatura espanhola e portuguesa, a finta deve ser entendida como mais do que um recurso técnico, mas sim como um meio tático, ou seja, uma atitude que contempla uma tomada de decisão que é resolvida por uma ação individual, mediante um problema que surge na emergência do jogo.

No entanto, sob o ponto de vista tático, existe alguma razão para que, frente a um espaço vazio um jogador opte por buscar o contato com seu marcador para depois fintá-lo? Olhando sobre esse ponto de vista, esse conceito parece estranho, afinal, porque se marcar primeiro para depois se desmarcar? Não seria melhor tentar ficar sempre livre, buscando os espaços que surgem no jogo?

Quando ensinamos nossos alunos a partir de uma sequência pedagógica como a escrita anteriormente, voltada exclusivamente para o ensino da técnica, de maneira indireta, criaremos em nossos alunos o hábito de, primeiramente, buscarem atrair seus marcadores para próximo deles, para então superá-los pela finta. Ou seja, nossos alunos jogarão primeiro para serem marcados, para depois disso, tentarem se desmarcar.

Surge então, a partir deste conceito de finta, um conflito quando tentamos ensinar nossos alunos a buscarem espaços vazios, como se fintar e buscar espaços vazios fossem conceitos distintos, até certo ponto, contrastantes, criando dúvidas em nossos alunos.

Imaginemos a cabeça de um aluno, que aprendeu que fintar é buscar seu adversário para então fintá-lo, frente ao professor quando este lhe fala: “Sua frente estava livre, vai direto, aproveita o espaço”.

Um conflito se instala: “Até agora meu professor pediu pra fintar um adversário, e agora ele quer que eu vá em direção ao espaço? Mas não foi isso o que ele me ensinou até agora…”

Fintar passa a ser o antagonismo à busca do espaço vazio, de forma que ou realiza-se a finta, ou busca-se um espaço vazio, como se existisse mais do que um esporte chamado handebol.

No entanto, se o ato de fintar for ensinado enquanto meio tático, com base nos conceitos de que a finta está associada à tomada de decisão, fintar e buscar espaços vazios serão ações táticas dialogicamente complementares, de forma que fintar dependerá da busca de espaços vazios e buscar espaços vazios poderá ser a emergência da tentativa de se realizar uma finta. Confuso? Vamos tentar entender isso melhor.

Conforme já foi citado neste texto, ensinar nossos alunos a marcarem-se, primeiro, para depois desmarcarem-se, parece algo estranho à lógica interna do jogo. Logo, antes de se ensinar a finta, de forma fragmentada e pautada apenas na ação técnica, deve-se ensinar o principal conceito individual do handebol: Se tenho a bola, devo tentar progredir com ela ao alvo adversário, pelos espaços vazios da defesa adversária. Se existe espaço, devo tentar ocupá-lo antes de meus adversários.

Esse conceito deve ser ensinado antes de qualquer outro, até mesmo antes de se ensinar a passar a bola, segundo minha opinião, pois passar a bola também será uma emergência da necessidade de se procurar espaços vazios (mas isto é tema para outro texto).

Imaginemos uma situação dinâmica do jogo, com base no entendimento de que buscar espaços vazios em posse da bola deve ser o primeiro a ser apreendido pelos nossos alunos: Ao receber a bola e buscar um espaço vazio, duas situações podem ocorrer: 1. O espaço permanecer aberto e ser aproveitado pelo aluno, seja por uma dúvida defensiva, seja porque o atacante foi mais rápido do que a defesa; 2. A defesa se ajusta e fecha este espaço vazio, com um jogador defensor se colocando entre o atacante e o gol.

A situação 1 é a mais desejável, pois pensando na lógica do jogo, se existe situação de liberdade para progredir a gol ela deve ser aproveitada, pois a chance clara de gol é a melhor possibilidade do jogo. No entanto, a situação 2 é aquela que poderá fazer emergir a necessidade de ser realizada uma finta (ou ainda outras respostas).

Assim, a partir da compreensão de que a finta é uma emergência da busca inicial de um espaço vazio, o conflito pedagógico pode ser evitado, tornando finta e ocupação de espaços vazios conceitos que dialogam entre si.

Como aplicar esse conceito para o ensino da finta? No próximo artigo serão apresentados alguns exemplos de jogos, agrupados em atividades que cada vez mais se aproximam da lógica do jogo, para que a finta seja inserida como um conceito tático individual do handebol durante o processo pedagógico.

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7 comentários sobre “Entre a Finta e a Ocupação de Espaços Vazios. Como evitar conflitos no ensino do Handebol

  1. Boa Noite Lucas!
    Parabéns pelo artigo! Muito bom para reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem-treinamento do handebol.
    Entender a finta como meio tático é sem duvida de grande importância para o ensino do handebol. Ate mesmo porque o iniciante utiliza-se da finta sem mesmo ter sido ensinado, pois é um comportamento intuitivo que costumamos denominar “malandragem”. Ensinar a finta como elemento técnico é desconstruir a tática!
    Ocupação dos espaços vazios com bola em direção ao gol pode ser ainda melhor compreendido quando complementa o desmarque, que é a finta sem bola.
    Talvez tenhamos atletas melhores formados quando o handebol brasileiro deixar de ser ensinado, prioritariamente, através de engajamento “coreografado” e sistema defensivo 6:0.
    Grande abraço,
    Alexandre

  2. Lucas,
    Em quase 100% dos casos, quando um atleta de handebol faz seu primeiro treino de Beach, utiliza fixação par mesmo com ataque em superioridade numérica. Pra ele é natural marcar-se primeiro para depois realizar outra ação. No entanto, o handebol de areia tem por principio a ocupação dos espaços vazios.
    Mais interessante é observar que praticantes de outras modalidades buscam a alternativa dos espaços vazios com mais naturalidade. Buscam obter vantagem tática.
    Algo a ser investigado…
    Grande abraço,
    Alexandre

    1. Em pleno acordo! Por isso considero a dinâmica do handebol de areia completamente adequada como proposta de ensino-aprendizagem do handebol de quadra! Excrevi há algum tempo o artigo: https://pedagogiadohandebol.wordpress.com/2008/07/30/logica-do-jogo-analise-pedagogica-do-handebol-de-areia/
      Handebol de areia ensina a jogar handebol, fazem parte da mesma família de jogos, podem ser complementares nas fases iniciais de ensino do handebol. Valeu Alexandre! Vamos nos falando! Manda e-mail quando puder! Abraços!

  3. Oi Lucas,

    lembra de mim, você fez estágio na minha escola, o CAP, com o Lula.

    Eu estou em outra escola, em São Bento do Sapucaí, agora trabalhando com ensino médio e consultando o seu site para aprender a ensinar hande.

    abração,
    Marina.

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