Tomada de Decisão e Antecipação – Abordagems Metodológicas no Ensino do Handebol

Trabalhar a tomada de decisão e a capacidade de antecipação de nossos alunos/atletas é um parâmetro fundamental para um processo de ensino aprendizagem de qualidade.

Após o período de centração excessiva na bola, que configura segundo Garganta (1995) a fase do jogo anárquico (que poderíamos dizer que seria comum até os 6, 7 anos de idade), as decisões passam a ser tomadas também em função de colegas e adversários, além da manutenção da objetividade de se fazer gols (e não sofrer gols), possibilitando que as primeiras decisões táticas de grupo e coletivas em situação de jogo sejam tomadas.

Após adentrar nessa fase de aprendizagem (que configura níveis de acesso ao jogo descentrado, estruturado e elaborado, segundo Garganta, 1995), estimular a tomada de decisão e a antecipação é essencial, mesmo em idades adultas.

Algumas propostas em literatura já são encontradas. A obra Iniciação Esportiva Universal (de Greco e Benda, 1998), já fala dos “jogos situacionais”, no qual uma determinada situação é “recortada do jogo” e é treinada, dentro de parâmetros relacionados à tomada e decisão do principal agente do jogo, que será o protagonista do processo de ensino-aprendizagem-treinamento.

Seria como criar uma situação controlada, na qual um armador (o protagonista do processo de ensino-aprendizagem-treinamento), ao receber a bola, pode, ou não, lidar com uma investida de seu marcador direto, que é avisado da possibilidade de ficar estático na defesa ou de realizar um combate em profundidade ao atacante que recebe a bola, devendo escolher uma das possibilidades dadas.

A partir dessa situação, o armador deverá optar por duas possibilidades:

  1. Se marcador não realiza um combate, permanecendo estático na defesa, ele deve realizar um arremesso de 9 metros, pois a segunda linha defensiva fica vulnerável;
  2. Se o marcador realiza um combate em profundidade, subindo na busca do contato corporal, o atacante deve buscar a finta, pelo fato da primeira linha defensiva ficar exposta.

A partir dessa relação dicotômica, pode-se explorar a tomada de decisão do jogador, dentro de uma situação bastante controlada, sendo possível verificar, por exemplo, se existe êxito ou falha no planejamento (tomada de decisão) da ação e nas execuções técnicas.

Nesta situação, um “jogo situacional” que promove o controle da situação dentro de relações dicotômicas (que podem ser exploradas em distintas situações, como, por exemplo, com a presença do pivô, oferecendo-se ou não, em situações de 2×2, com possibilidades de fixação par + cruzamento do atacante coligante ou fixação impar + trajetória reta do atacante coligante e etc..) o aluno passará a compreender conceitualmente elementos táticos individuais de grupo de fundamental importância para a construção coletiva do jogo de handebol.

No entanto, como sabemos, pois já foi discutido em textos anteriores, a inteligência pode se manifestar de duas formas básicas, quando pensamos o jogo: de forma circunscrita ao jogo (ou seja, em contexto de jogo propriamente) e circunstancial ao jogo (ou seja, de forma descontextualizada do jogo propriamente dito).

Observando como se desenvolvem os “jogos situacionais”, observa-se que o controle feito sobre as ações da defesa, sobre a movimentação do pivô, ou mesmo, dos companheiros de ataque ou defesa em relação ao protagonista desse processo, este acaba enfrentando situações que exigem respostas dentro de variáveis bastante controladas (pouco imprevisíveis), servindo como uma proposta de jogo para introduzir novos conceitos e elaborar ideias ainda em embora no nível de conhecimento (tendendo a uma proposta de formação de conceitos circunscritos ao jogo), que já traga possibilidades de interação com os elementos do jogo (receber bolas, atacar espaços, buscar a melhor forma de fazer gols e etc..).

Considero, dessa forma, que este tipo de jogo é um híbrido entre contextualizador e apresentador de novos conceitos e costumo considerá-lo importante como complemento de explicações em lousas, pranchetas e outras formas de apresentação circunstancial de elementos do jogo, pois acaba sendo um jogo que cognitivamente trabalha decisões, embora ainda num plano bastante simplificado se comparado ao jogo em si.

Trata-se de uma abordagem baseada em perspectivas cognitivistas.

Considerando a pluralidade de informações que estão envolvidas no jogo e, talvez, uma falta de tempo para tomada de decisões associadas ao caminho do saber cognitivo (seria como se informalmente falássemos que não existe tempo de pensar em alguns momentos específicos por haver pressão de tempo, espaço e/ou informações para serem selecionadas), a perspectiva ecológica nos mostra que jogar sem delimitações que influenciem nas questões relacionadas à imprevisibilidade do jogo acaba sendo uma importante forma de que códigos sejam mais rapidamente reconhecidos, visando garantir que “mesmo sem pensar” um atleta tome decisões em função de informações que são reconhecidas devido à grande vivência de situações “descontroladas”.

Esta forma de pensar coloca à tona a ideia dos jogos funcionais (recortes funcionais do jogo que mantém inalteradas a liberdade de agir dos envolvidos) torna-se parte fundamental do saber esportivo.

Seria como se, ao invés de elaborar atividades controladas, na qual haja um protagonista de aprendizagem, que deve tomar decisões dentro de possibilidades previamente combinadas entre os outros envolvidos na atividade (defesa sobe ou não sobe; pivô se oferece ou não; marcador par realiza combate ao atacante e ímpar fica, ou marcador ímpar realiza combate ao atacante e marcador par fica, sempre dentro de uma combinação prévia), os jogos são organizados de forma a exigir que, quem joga, passe a depender de situações emergentes (respostas) do jogo para reagir, dentro de uma perspectiva sistêmica, pois os defensores e os atacantes terão liberdade de agir como num jogo, garantindo que muitas situações sejam possíveis de ser construídas dentro de uma única atividade, propiciando apelo à criatividade do jogador.

Por exemplo, pode-se criar uma situação dividindo a quadra ofensiva em duas metades, uma esquerda e uma direita, na qual se realiza, do lado direito uma situação de 1×1 e do lado esquerdo, uma situação de 2×1. Sendo que, do lado direito, o jogador deverá superar um marcador direto e se tiver êxito, deverá buscar o gol (dentro de parâmetros já vivenciados num jogo situacional – se a defesa combater, buscar a finta, se não combater, buscar o arremesso de 9 metros) e, caso não haja êxito no 1×1, buscar um passe para o jogador de ataque da outra metade da quadra ofensiva que esteja em melhor situação de gol, pois haverá do lado esquerdo uma situação de 2×1, na qual, o marcador poderá utilizar-se de blefes (dissuasões) para enganar o atacante e, ao mesmo tempo, os atacantes deverão trabalhar sua mobilidade, os desmarques, os bloqueios ofensivos e criar apoio, de forma a superar este marcador.

Não há um protagonista. Em jogos funcionais, com base no exemplo dado, o defensor e o atacante do 1×1 treinam aspectos táticos individuais; o atacante do 1×1 treina tomada de decisões sobre qual é a melhor opção de passe; os atacantes do 2×2 jogam com táticas de grupo para superar o marcador enquanto o defensor do 2×1 trabalha táticas individuais defensivas importantes, como a luta pela ocupação dos espaços, as antecipações e as dissuasões.

Logo, enquanto os “jogos situacionais” trabalham conceitos de maneira controlada, criando ao protagonista a possibilidade de aprender a decidir frente às informações previamente combinadas, na perspectiva dos “jogos funcionais” as decisões são tomadas com base na capacidade de decifrar e reconhecer os códigos do jogo, que podem ser muitos, exigindo do aluno uma espécie de “agir sem pensar”, ou seja, de antecipar o que fazer.

Dessa forma, trabalhar a tomada de decisão, como forma de conceituar o que é melhor fazer em determinadas situações, está bastante associada à ideia de decidir frente a situações que ocorrem de forma mais padronizada (que podem ocorrer no jogo, sem dúvida) tal qual os “jogos situacionais” se configuram.

Já a antecipação é uma capacidade treinada com base em “jogos funcionais”, cuja liberdade de agir em jogo seja mantida, desenvolvendo a possibilidade de que ações criativas possam surgir, necessitando que os jogadores, em situações de extrema pressão, antecipem qual a melhor forma de agir, com base em suas experiências anteriores em situação de jogo propriamente dita (nas quais haja a permanência da imprevisibilidade, de forma inalterada e pouco controlada).

Biblografia:

GRECO, P. J.; BENDA, R. N. Iniciação Esportiva Universal I: da aprendizagem motora ao treinamento técnico. Belo Horizonte: Ed. UFMG. 1998.

GARGANTA, J. Para uma Teoria dos Jogos Desportivos Coletivos. In. Graça, A. & Oliveira, J. (Eds.). O Ensino dos Jogos Desportivos. Centro de Estudos dos Jogos Desportivos. FCDEF-UP. Porto. Portugal, 1995.

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