Teoria do Jogo – O Estado de Jogo

Venho escrever sobre algo que vem sendo foco de meus estudos atuais (há pelo menos 1 ano, é verdade), que é a Lógica do Jogo, e no caso específico a lógica do jogo do handebol.

Tudo iniciou com conversas com o Prof. Rodrigo Leitão (um grande estudioso do jogo) em que ele me instigou muito sobre isso, me deixando com muita curiosidade de investir no estudo desse assunto, que rapidamente me levou à transferência desse conhecimento para o ensino do handebol.

Não é segredo para quem acessa esse site que considero o Jogo o principal meio de ensino contextual do handebol, pois é através do jogo que o aluno/atleta condiciona-se a responder às imprevisíveis necessidades que o jogo lhe exige quando atua numa partida. Existem muitas outras justificativas que me fizeram perceber no jogo um ambiente suficientemente capaz de garantir aprendizagem e isso pode ser buscado no site.

Clicando aqui você terá acesso aos principais textos que falam sobre a importância do jogo no processo de ensino publicados no site pedagogia do handebol.

Algumas das questões que sempre ouço quando realizo cursos e palestras (ou mesmo quando converso com companheiros de trabalho que não se sentem totalmente à vontade com o jogo enquanto meio de ensino) têm como eixos principais as seguintes dúvidas: “Como é que você tem certeza de que com o jogo o aluno/atleta aprende algo?” ou então “Você quer me dizer que se eu dou um joguinho qualquer meu aluno aprende mais do que se eu ensiná-lo como fazer um gesto técnico repetindo e aprendendo o padrão motor desse gesto?”

Minha resposta sempre é: “Depende!”

Quando alguém me ouve falando que “depende” deve imaginar que nem sempre realizar atividades que sejam descritas como jogos é a melhor forma de ensinar, e essa impressão é realmente verdadeira, porém, isso não siginifica que considero que haja outras formas melhores, vou explicar melhor abaixo.

Não basta, simplesmente, criar um joguinho e colocar seus alunos/atletas para jogar.

Sobre isso, gosto muito de uma afirmação que o professor Alcides José Scaglia faz em sua Tese de Doutorado quando ele conceitua jogo:

Antes de iniciar qualquer reflexão sobre o jogo e suas teorias, quero adiantar que o fenômeno jogo será aqui estudado na perspectiva de ser esse um sistema complexo, em que seu ambiente (contexto) determinará o que é jogo e não jogo, evidenciando a predominância da subjetividade em detrimento da objetividade (o estado de jogo). E é com este sentido de totalidade e complexidade, inseridos num ambiente que lhe é próprio, que procuro entendê-lo. (SAGLIA, 2003, p. 49)

O que ele quer dizer com isso? Vamos interpretar: ao dizer que o ambiente em que a atividade está inserida é que determina se essa atividade é jogo ou não, tendo ainda a dependência da predominância da subjetividade sobre a objetividade de quem joga, o autor nos mostra que mesmo que apliquemos uma atividade que se pareça com jogo, ela deve estar inserida no contexto em que a aplicamos, ou seja, deve ser significativa para quem joga e ainda deve garantir que ao jogar, nossos alunos/atletas tenham apenas no ato de jogar sua preocupação momentânea, prevalecendo o mundo do jogo sobre o mundo real (mesmo havendo conexões entre esses mundos). É o que Reverditto e Scaglia (2007) descrevem como o “jogo jogante”.

É isso mesmo pessoal! Para jogar, nossos alunos/atletas devem atingir aquilo o que o professor Alcides chama de “estado de jogo”, ou seja, o jogar plenamente, pois somente assim seremos capazes de garantir que ao jogar nosso aluno/atleta irá finalmente aprender. Tarefa nada simples para quem ensina o esporte, pois, se ao aplicar uma atividade que tenha “cara” de jogo, nosso aluno não jogar plenamente, ou mesmo se o jogo não for significativo para quem joga (não condiz com o contexto em que está inserido), não haverá aprendizado real. Por isso que sempre respondo: “depende!”

Já passei alguns problemas com isso. Algumas aulas que aplico, às vezes, não leva as atletas com qual trabalho para o estado de jogo. É realmente um fator difícil de controlarmos.

Quando minhas aulas têm esse problema, costumo parar a aula (ou chamar de canto a atleta – pois trabalho com equipes femininas), conversar e entender o que está ocorrendo.

Geralmente há dois macro-fatores que levam a esse problema:

  • A existência de algum problema extraquadra intervindo diretamente no dia de treino delas (já me deparei com pais em processo de separação, brigas com avós e tios, brigas internas entre as atletas, problemas na escola, algumas dúvidas sobre sexualidade e gênero – comum entre adolescentes – interferindo na entrega da aluna/atleta ao treino, entre outros fatores) que quando tratados de maneira aberta com o professor ou entre todos os colegas da equipe, possibilitam finalmente ao atleta suspender-se (mas não desligar-se) do mundo real (e seus problemas) e entrar no mundo do jogo.
  • Elas me dizem que acharam o jogo chato, muito fácil ou muito difícil, levando-me a adaptar as regras do jogo, garantindo que o jogo seja adequado ao contexto que o aplico, levando as atletas a finalmente atingirem o estado de jogo necessário para que a aula se desenvolva de maneira normal e satisfatória.

Logo, como eu já escrevi em um artigo desse mesmo site em abril/2008 (clique aqui para ler o artigo), não basta ser jogo, pois ele deve ser significativo para quem o joga.

Dessa forma, destaco a necessidade de entendermos o jogo enquanto metodologia e para isso faz-se necessário entender como garantir o estado de jogo (o jogar plenamente).

Espero que esse texto introdutório mostre que não basta aplicar um atividade que se pareça com jogo para falarmos que ensinamos pelo jogo.

Bibliografia

SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003. [clique aqui]

REVERDITO, Riller Silva & SCAGLIA, Alcides José. A gestão do processo organizacional do jogo: uma proposta metodológica para o ensino dos jogos coletivos. In. Motriz, Rio Claro, v.13 n.1 p.51-63, jan./mar. 2007 [clique aqui]

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2 comentários sobre “Teoria do Jogo – O Estado de Jogo

  1. Boa noite professor,
    Sou alguém que na verdade não vivo do handebol ou mesmo não trabalho com ele. Minha relação deveria ser extritamente como atleta praticante e amante do esporte. Porém quando entrei pra faculdade de arquitetura e urbanismo na UEL em londrina, passei a jogar pelo time que não tem treinador nem masculino e nem feminino. A atlética, que representa os alinos nos assuntos esportivos, me pediu que montasse um programa de treinos para o primeiro semestre de 2010, onde conseguisse abordar desde os principios básicos de fundamentos até alguma cosa de tático mais desenvolvido. Não tenho experiência nenhuma em planejamento tecnico nesta area exatamente por estar me formando em uma area muito diferente desta. Gostaria muito de saber de você se existe algo pré pensado em que eu possa me basear pra montar os esquemas de treino, e assim apresentar o tal programa…

    Espero que possa me ajudar como esse blog enriqueceu minha opnião e conteudo no que se refere ao handebol!
    Obrigado pela atencão!

    Felipe

  2. Fala Lucão!! Muito interessante esse seu artigo. Porém, de certo modo eu ainda tenho algumas dúvidas sobre tal teoria.

    Será, de fato, possível se desligar do mundo real e ingressar no mundo do jogo, ou ambos indissociavelmente convivem juntos, tendo pesos diferentes em diversos momentos da prática durante os processos cognitivos dos jogadores? Por exemplo, um time em situação delicada em um campeonato toma dois gols logo no início da partida: o que vem à cabeça dos jogadores relaciona-se exclusivamente ao jogo e ao campeonato ou também às consequências sociais dessa derrota (valorização, cobrança da torcida, “bixo”)?

    Fiquei imaginando possíveis flutuações que esse “estado de jogo” pode ter dentro de um treino ou de uma partida, influenciados por aspectos intrínsecos (traço) e de estado de fatores como personalidade, motivação, ativação, entre outros… Enfim, mais uma daquelas discussões que seriam muito mais legais na Casazul com muita Coca-cola!!!

    Grande abraço

    Marcel

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