Jogo de Defesa 3

Por Jorge Dofman Knijnik

Professor da School of Education, University of Western Sydney (NSW, Australia)

Nos artigos anteriores, discorri sobre os objetivos do jogo de defesa (clique aqui) e principalmente sobre os princípios do jogo de defesa (clique aqui), falando ao final sobre a defesa individual, bem como sobre os sistemas por zona de defesa, principalmente sobre os subsistemas fechados  6:0 e 5:1.

Nesta parte final desta miniserie de textos sobre o Jogo de defesa, gostaria de comentar sobre os sistemas por zona abertos, e também por aqueles conhecidos como mistos ou combinados. Cabe citar que os sistemas abertos podem sofrer uma grande transformação caso se confirme aquilo que o Lucas Leonardo citou em artigo neste site (clique aqui), ou seja, que o handebol passe a ser um jogo não mais com 3 passos, mas sim com 5 contatos no solo, e com a permissão do ‘duplo pentafásico’ – o que ao meu ver criará um novo jogo, diferente do handebol que conhecemos até então. A conferir.

Relembro que este texto é parte do meu livro “Handebol” recentemente lancado pela editora Odysseus (www.odysseus.com.br). Agradeço ao editor Stylianos Tsirazis a gentileza de autorizar a publicação deste trecho neste importante sítio do handebol da comunidade lusofona.

Sistemas abertos ou avançados

Os sistemas conhecidos como “abertos” são aqueles que, literalmente, abrem os espaços na primeira linha defensiva entre os defensores, diminuindo a amplitude de cobertura da área do goleiro. Em contrapartida, em termos de profundidade da quadra, atuam de forma a ocupar os espaços na segunda linha de defesa (nove metros) e até mesmo numa terceira linha de defesa imaginária (dez, 11 ou até 12 metros) no sentido de impedir os armadores (nove metros) atacantes de se aproximarem da baliza. Visualmente, eles são “abertos”, e suas maiores preocupações consistem em dificultar os arremessos de média e longa distância, além de dificultar a movimentação da bola por parte do ataque, através do trabalho de interceptação e dissuasão de passes. Cabe salientar que, apesar destes sistemas muitas vezes deixarem seus jogadores em situação de 1 x 1 (um defensor contra um atacante), eles  não correspondem a uma marcação individual, são organizados por zona, e cada defensor tem uma região na qual deve se deslocar e proteger, como mostraremos a seguir. Estas zonas, apesar de grandes, delimitam e colocam os sistemas abertos como sistemas zonais por excelência. Ou seja, a eles devem ser aplicados todos os princípios defensivos já mencionados, como por exemplo, o fato do espaço entre dois defensores ser de responsabilidade de ambos na hora da defesa. Os principais sistemas que se enquadram nesta classificação são denominados 3:2:1 e o 3:3[1].

Sistema 3:2:1

Esta é uma formação intermediária entre o sistema 5:1 e o 3:3. Três defensores (externo esquerdo e direito, e central recuado) defendem a primeira linha defensiva (seis metros), atuando na lateralidade, na cobertura de infiltrações com e sem bola, e na marcação direta dos atacantes de seis metros (pivô e pontas). O central ainda deve fazer bloqueios ofensivos. Dois defensores (lateral direito e esquerdo) atuam na segunda linha defensiva, atuando em profundidade (frente e atrás), na marcação direta dos armadores laterais adversários, tanto nos arremessos de média e longa distância quanto nas infiltrações com e sem bola. Devem também fazer a cobertura da marcação do pivô quando a bola se encontra no lado oposto da defesa. Um defensor (central avançado, ou “bico”) atua na terceira linha defensiva (linha imaginária, por volta de dez a 12 metros da baliza), procurando interceptar  e dissuadir passes, bloquear arremessos e passes, evitar as infiltrações com e sem bola do armador central, e se responsabilizar pela primeira onda do contra-ataque direto, de forma semelhante à atuação deste jogador no sistema por zona fechado 5:1.

Devemos lembrar sempre que, como foi dito anteriormente, o sistema aberto não trabalha com marcação individual, e sim com marcação por zona, por regiões da quadra. Assim, em princípio, um atacante deve ser sempre vigiado e marcado por dois defensores, ou seja, por princípio o espaço entre dois defensores, independentemente de sua amplitude, deve ser defendido por ambos. Assim, um jogador que tente se infiltrar entre o defensor externo e um dos laterais, deve ser objeto de pressão e de marcação de ambos, tal como aquele que tente passar entre o central avançado e o lateral deve ser marcado pelos dois, e assim por diante.

Desta forma, o grande segredo, o verdadeiro “pulo do gato” do sistema 3:2:1 está na marcação do pivô. Neste momento, o posicionamento do jogador central recuado é essencial e deve ser compreendido com clareza neste tipo de defesa, a fim de evitar erros e fortalecer esta marcação. Este defensor, também conhecido como o defensor que está na “base” da defesa, o marcador “base”, é fundamental, pois é ele que orienta o posicionamento da marcação, por ter uma visão geral de todos. Ele também deve fazer a cobertura do defensor avançado (seja o central ou os laterais) que marca o atacante que está com a bola. Desta forma, o central recuado desliza rapidamente por trás dos jogadores avançados, sempre próximo à primeira linha da defesa. Se a bola está na frente do central avançado, lá está o marcador da base. Se o avançado for ultrapassado, ele tentará evitar que o atacante chegue próximo ao gol. Se algum atacante avança com bola sobre um dos laterais avançados, estes têm a segurança que na cobertura atenta estará o central recuado. Pois bem, caso o pivô, o jogador do ataque que fica ali, em meio à defesa, se encontre próximo à região que o central recuado está no momento em que faz as coberturas dos demais, ótimo, ele também fica responsável pela marcação deste. Caso, porém, o pivô se encontre do lado oposto da bola, quem deve marcá-lo? O central recuado deve largar a cobertura e ir marcar o pivô? Jamais! A defesa é por zona, e a região do central recuado é ali, na cobertura dos demais, assim, quem recua momentaneamente para marcar o pivô, é o lateral avançado do mesmo lado que está o pivô, ou seja, do lado oposto ao da bola. Desta forma, como vemos no desenho, o sistema fica, neste momento, quase como um 4:2, com a vantagem que, se a bola for para o lado que este defensor lateral recuou, ele avança frontalmente para fazer a marcação, sabendo e confiando que o central recuado rapidamente chegará para ajudá-lo tanto na cobertura de suas costas, quanto na marcação do pivô.

Esta é uma das razões pelas quais o sistema 4:2 caiu em desuso, e o sistema 3:2:1 prevaleceu, pois, ao invés de dois jogadores ficarem correndo lateralmente, de forma mais lenta, optou-se, como no 3:2:1, por jogadores que possam recuar para marcar o pivô, e avançar para marcar os armadores laterais, sempre correndo frontalmente, e mais rapidamente.

Quando usar este sistema? Como sempre, ele possui vantagens e desvantagens, e o melhor jeito é conhecê-las, sabendo que grandes equipes (como a Metodista de São Bernardo, oito vezes campeã da Liga Nacional Masculina) o empregam, de acordo com as diferentes situações que o jogo apresenta.

Vantagens do sistema 3:2:1

a) Ganha profundidade em relação ao 5:1, mantendo uma razoável amplitude de cobertura da área do goleiro, em virtude da movimentação dos defensores laterais (nº 2);

b) Possui bastante flexibilidade no sentido de tornar-se mais agressivo (passando a 3:3) ou defensivo (5:1), ganhando ora em amplitude, ora em profundidade;

c) Consegue uma boa marcação de arremessos de média e longa distância;

d) Possui sempre dois defensores atuando contra os atacantes armadores.

Desvantagens do sistema 3:2:1

a) É frágil contra as infiltrações dos pontas adversários para a região central da primeira linha defensiva;

b) Frágil contra um ataque com dois pivôs;

c) Frágil na marcação dos pontas adversários, sobrecarregando os marcadores externos (nº1);

d) Só é eficaz com muito movimento, exigindo mais física e taticamente dos defensores.

Sistema 3:3

É o mais aberto de todos os sistemas, formado por duas linhas de defesa, sendo uma com três defensores (externos e central recuado, ou “base”) atuando na primeira linha defensiva, e outra linha composta por três defensores (laterais e central avançado) atuando numa segunda linha, que pode ser defensiva e recuada (nove metros) ou agressiva e avançada (dez a 12 metros). Este sistema difere do 3:2:1 por não existir uma terceira linha.

Na prática, os três defensores da segunda linha atuam em conjunto, não recuando a princípio para fazer coberturas quando a bola está do outro lado do ataque, como ocorre no 3:2:1 na hora da cobertura do pivô. Desta forma, e ainda considerando que, por mais aberto que seja o sistema 3:3 ainda é um sistema zonal, com os princípios de cobertura e de mútua responsabilidade sobre os espaços entre jogadores, como deve ser feita a marcação do pivô, sobretudo quando se encontra no lado oposto da bola? Ora, é claro que o defensor central recuado, o “base”, não pode ficar marcando individualmente o pivô, pois se ele assim o fizer, bastará ao ataque ganhar uma disputa, uma finta de um defensor avançado, e a área do goleiro, em sua porção central, estará totalmente desguarnecida. Desta forma, o central recuado deve sempre estar atuando na cobertura dos jogadores que avançam, dificultando a infiltração de jogadores com bola. Se o pivô estiver próximo dele, ótimo, caso o pivô se desloque para o outro lado, quem deve vir ajudá-lo nesta marcação é o defensor externo do lado oposto ao da bola, o número um

Com isso, claro que se corre o risco de deixar o ponta do lado oposto da bola livre, mas como há muitos defensores na trajetória de um possível passe cruzado (a linha do passe),  a defesa arrisca para conseguir fazer a cobertura da zona mais perigosa, e se a bola for cruzada, todos devem se deslocar correndo para fazer as respectivas coberturas. Ou seja, o “base” corre para o pivô, enquanto o externo corre para marcar o ponta que estava livre. Percebe-se assim que este é um sistema dos mais arriscados dentre os sistemas de marcação por zona, pois propicia muitas situações “1×1” e também por abrir em demasia a linha da área do goleiro. Só deve ser utilizado por defensores que possuem ótimo domínio das técnicas defensivas e, em geral, não é usado por muito tempo dentro de uma partida, pois desgasta demasiadamente os jogadores defensores, física e mentalmente. Assim, muitos técnicos optam por usá-lo em determinados momentos, quando precisam recuperar a bola rapidamente, no final de um jogo, ou quando pretendem pressionar a equipe adversária por alguns minutos.

Uma exceção a este pensamento ocorreu na final da Liga Nacional Feminina de 2002, quando jogavam A.A. Guaru contra E.C. Mauá/Universo. Esta segunda equipe estava muito reforçada, com grande parte de seu elenco estrelado sendo da seleção brasileira – jogadoras fortes, com grande potencial de arremesso de longa distância. Já a equipe de Guarulhos, do técnico Robson Andrade, contava com jogadoras novas e rápidas. Assim, ele montou a estratégia de fazer uma marcação 3:3 pressionando muito o ataque adversário, com a sua segunda linha de defesa atuando quase no meio da quadra, dificultando a troca de passes e a locomoção com bola das jogadoras do adversário. Estas , apesar de serem muito fortes no jogo com bola, pouco se deslocavam sem a bola para tentar recebê-la e, desta forma, a equipe do Guaru conseguiu forçar diversos erros de ataque do adversário, seja de passes longos (uma armadora lateral para a ponta do outro lado), ou mesmo faltas técnicas, como segurar a bola por muito tempo (mais que três segundos) ou dar mais que os três passos permitidos.

Assim, como com os demais sistemas, vale a pena analisar o que de bom e o que de ruim tem este sistema, para decidir em quais momentos do jogo usá-lo.

Vantagens do sistema 3:3

a)  Dificulta muito os arremessos de média e longa distância;

b)  Dificulta muito a movimentação da bola entre os armadores de ataque, sobretudo quando agressivo;

c)  Dificulta muito a movimentação dos armadores de ataque, com e sem bola;

d)  Por ser um sistema baseado também na dissuasão de passes, é ideal para a retomada da bola, pois há três defensores diretamente responsáveis por este trabalho, o que pode provocar muitos erros técnicos (passes, passos) e de regras (manejo irregular de bola) no ataque.

Desvantagens do sistema 3:3

a)  Abre muito a linha da área do goleiro, facilitando infiltrações e arremessos de seis metros;

b)  Frágil contra ataque com dois pivôs;

c)  Provoca muitas situações “1×1”;

d)  Exige muito física, técnica e taticamente dos defensores, pois há uma sobrecarga de funções muito grande para cada posição.

Sistemas combinados (ou mistos)

Combinam uma defesa por zona com a marcação individual de atacantes destacados, com o objetivo de anular ou dificultar a atuação ofensiva de um jogador que esteja fazendo muitos gols, ou mesmo organizando muito bem o ataque. Este tipo de defesa chegou a ser proibido pela Federação Paulista de Handebol na década de 1990, em jogos de categorias menores, pois os técnicos consideraram que ele estava “matando” o desenvolvimento de bons jogadores, pois quando algum jogador de 15 anos ou alguma moça da mesma idade se destacava em seu clube, eram rapidamente marcados individualmente pelos demais times, e não tinha chances de se desenvolver na competição, pois ficava marcado e parado quase que um ano inteiro. Mas os tempos eram outros, e a preocupação com o desenvolvimento de jovens talentos era muito grande. Geralmente, há dois tipos de sistemas combinados:

SISTEMA 5+1

Cinco defensores atuam em bloco, na primeira linha defensiva,  como se marcassem 5:0. Um defensor marca individualmente um atacante destacado.

Vantagem principal

Anula o melhor atacante do adversário.

Desvantagem principal

Faz com que a defesa atue mais desguarnecida, tendo que cobrir mais espaços.

SISTEMA 4+2

Quatro defensores atuam em bloco, na primeira linha defensiva, como se marcassem 4:O, dois defensores marcam individualmente dois atacantes destacados

Este tipo de sistema combinado dificilmente é usado por todo o jogo, mas muitas vezes em situações específicas, como quando uma equipe está em vantagem numérica na defesa. Isso mesmo, muitas equipes pressionam os adversários quando momentaneamente em função de uma exclusão, o ataque adversário se encontra por dois minutos com um jogador a menos. Além da intenção de dificultar ainda mais o ataque, com esta pressão também se pretende fazer com que a equipe que está na defesa  não se acomode pelo fato de estar com um a mais em quadra, mas que fique bem ativa, com dois marcando individualmente, e quatro se movimentando muito na primeira linha.

Principal vantagem

Anula os principais atacantes adversários.

Principal desvantagem

Sobrecarrega os defensores que marcam na primeira linha, com muito mais espaço para cobrir e se movimentar.


[1] Há outros sistemas como o 4:2 e mesmo o 1:5, mas, nos últimos anos eles não têm sido empregados por quase nenhuma equipe, pois a maior parte dos treinadores, quando pretende usar um sistema aberto, reconhece mais vantagens naqueles que estamos discutindo aqui.

 

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