Jogo de defesa 1

Por Jorge Dofman Knijnik

Professor da School of Education, University of Western Sydney (NSW, Australia)

Nesta pequena serie de 3 artigos, pretendo introduzir alguns conceitos bem como algumas noções completas sobre sistemas defensivos. Este texto completo, com todas as ilustrações, faz parte do livro HANDEBOL, que publiquei recentemente pela editora Odysseus (www.odysseus.com.br) e que pode ser adquirido diretamente no site da editora, ou pelo vendas@odysseus.com.br, ou ainda pelo telefone 11+3816-0835.

Agradeço ao editor Stylianos Tsirazis a gentileza de autorizar a publicação deste trecho neste importante sitio do handebol da comunidade lusofona.

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Introdução: O Jogo de Defesa

“Atacar como podemos e defender como os pumas”. Este era o lema de algumas equipes argentinas (River Plate e depois Ferrocaril do Oeste), dirigidas pelos lendários treinadores Jorge Duhau com os adultos, e Victor Bloise com as categorias menores. Este lema menciona a velocidade que os atletas devem imprimir na tentativa de recuperar a bola quando na situação de defesa.

Entretanto, penso que esta frase também propõe uma questão de atitude defensiva. Voracidade por querer recuperar a bola, e por não deixar nenhum espaço aberto. Luta para não deixar o adversário progredir a posições melhores de finalização do arremesso. Enfim, a imagem do puma correndo nos campos representa tanto a força, a velocidade e a agilidade requeridas para a defesa, quanto uma perene atitude de atenção, determinação, luta e garra que este felino tem para atingir os seus objetivos.

E quais são os objetivos da defesa? Muitos diriam que é não tomar gol, esta deveria ser a grande razão de existir da defesa. Isso já foi assim: na década de 1970, o handebol era muito diferente, mais lento e cadenciado do que é atualmente, e as defesas tinham uma postura mais estática e objetivavam realmente “não tomar o gol”. O jogo, entretanto, mudou, está mais rápido, mas a visão do “objetivo único” sobre a função da defesa tem repercussões muito grandes até os dias de hoje nos meios do handebol. Em primeiro lugar, o objetivo único de “não tomar gols” faz com que as defesas se organizem em tradicionais e conhecidos muros estáticos, colados à linha da área do goleiro. Mais do que isso, entretanto, o objetivo único de “não tomar gols” faz com que o treino defensivo, e a atuação neste momento do jogo sejam muito desmotivantes, até paralisantes, pois apregoa atitudes muito passivas para os defensores.

Esta desmotivação faz com que uma grande maioria só dê atenção, em seus treinos e atividades, ao ataque, pois este seria o momento de prazer no handebol, deixando a ação defensiva postergada, delegada ao último plano na preparação das equipes, e na compreensão do jogo. Exatamente o inverso do que apregoa o lema argentino – que enfatiza que a defesa é o cerne do jogo, e o momento em que o empenho de todos deve ser máximo.

Defender é uma das partes do ciclo do jogo, esta eterna luta entre o ataque e a defesa, que tentam – de forma simultânea e contínua, em um pequeno espaço onde todos atuam – propor desequilíbrios constantes um ao outro. Quanto mais defendemos, mais exigimos do ataque, quanto melhor defendemos, mais chances temos de chegar ao ataque novamente, com chances reais de sempre estarmos dentro do jogo. Com toda esta importância, temos que ter clareza do que é a defesa, dos seus objetivos e princípios, para então vermos quais são as estratégias e sistemas mais indicados para cada situação do jogo, e para cada problema que o ataque nos proporcione.

Fases, objetivos e princípios

O jogo de defesa começa muito antes do momento em que os jogadores, de forma articulada e organizada, muitas vezes em um sistema defensivo, cercam a linha da área do seu goleiro, protegendo-a de invasões e defendendo a baliza dos arremessos.

Alguns autores defendem que o jogo de defesa se inicia no momento em que uma equipe perde a posse de bola no ataque, depois de um arremesso (com ou sem êxito), ou mesmo quando perdem a bola por um passe errado ou uma falta.

Eu já defendo que a atitude de defender começa alguns momentos antes, na exata hora em que tudo indica que um jogador irá realizar um arremesso, ou perder a bola. É neste momento que os jogadores que não participam diretamente desta ação devem começar a olhar os espaços que devem ocupar no sentido de proteger a sua baliza. É esta a hora em que começa a primeira fase da defesa, conhecida como retorno defensivo.

Ilustro esta afirmação com uma situação ocorrida na década de 1990, no campeonato brasileiro feminino da categoria júnior (moças de até 20 anos). Era o ano de 1997, e o torneio foi realizado em uma semana de maio, no glorioso clube do Mauá, na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, coordenado e administrado na época pelo saudoso amigo Carlinhos Goldstein.

Em uma competição na qual todas as equipes jogavam entre si, o jogo decisivo foi entre a equipe de São Bernardo (da técnica Ivonete), e a equipe da casa (da minha amiga Norma). Muitas jogadoras da seleção nacional da categoria disputavam a partida, ferrenha e decidida em detalhes – como o retorno defensivo elaborado pela equipe do Mauá, para evitar os contra-ataques da equipe do ABC paulista.

Isso porque o contra-ataque era a maior arma de gols do time de São Bernardo, mas não era uma jogada qualquer, mas corridas sensacionais e velocíssimas da jogadora Pará (já citada aqui como exemplo de jogadora inteligente). Essa menina, quando jogava nas categorias menores, entre 15 e 20 anos, tinha uma velocidade de corrida absolutamente surpreendente, e já no meio da quadra estava sempre vários metros à frente das defensoras, mesmo começando sua corrida alguns metros atrás. Parecia ter asas nos pés, literalmente voava nas quadras! Era um fator decisivo para todas as vitórias do time da ex-assistente técnica da seleção brasileira, a Ivonete.

A equipe carioca, para conquistar um bom resultado neste jogo, sabia que anular a velocidade dos contra-ataques da “Paraíba” era fundamental, e assim o fez, atuando com uma atitude defensiva que já começava no momento da finalização de seu próprio ataque. Explico: Paraíba jogava na posição de externo esquerdo de sua defesa e, assim que uma equipe arremessava para o gol, ela saía correndo em direção ao ataque, chegando sempre primeiro e recebendo inúmeros lançamentos, que a deixavam na “cara” do gol, somente contra a goleira, fazendo a festa e sendo uma das principais artilheiras do campeonato. Assim, as jogadoras do Mauá, de forma muito determinada e atenta, assim que percebiam que haveria um arremesso ou uma ação ofensiva da qual não participariam em seu ataque, retornavam para a defesa, marcando já no meio da quadra a disparada da adversária, impedindo que esta tivesse acesso a um lançamento mesmo antes de a bola ser definitivamente perdida em seu próprio ataque. Revezavam-se neste retorno defensivo, a ponta direita, a armadora lateral direita e mesmo a armadora central, quando não estavam, como já afirmado, arremessando ou apoiando a arremessadora no ataque. Com esta atitude determinada de proteger sua baliza, elas conseguiram praticamente anular a grande arma do time de São Bernardo, o contra-ataque desta jogadora, arrancaram o empate naquela partida e foram campeãs do torneio.

Esta situação mostra que a atitude de defender começa na iminência da perda da bola, e deve ser constante durante o jogo. É com esta atitude que se constroem jogadores e equipes vitoriosos.

As fases da defesa, desta forma, são:

Retorno defensivo: ao pressentir ou mesmo ver a perda da bola no ataque, os jogadores devem fazer um esforço máximo para impedir o contra-ataque do adversário, e concomitantemente recuperar a posição defensiva, no sentido de proteger a própria baliza;

Zona defensiva temporária: é um momento de transição entre o retorno defensivo e a defesa organizada. Os jogadores devem se posicionar no primeiro espaço possível, para dificultar as ações ofensivas ao mesmo tempo em que buscam retomar a organização de seu sistema defensivo;

Defesa organizada ou posicionada: é a hora em que cada jogador já assume a sua posição e funções previamente combinadas na defesa, organizando o seu sistema estrategicamente planejado.

Na atualidade, então, podemos dizer que os objetivos da defesa de fato são:

– Não tomar o gol;

– Recuperar a posse da bola o mais rapidamente possível;

– Evitar arremessos em zonas consideradas perigosas (muito próximas da área ou já conhecidas como de grande eficácia de uma equipe, em virtude de um grande desempenho de algum atleta específico);

– Dificultar a ação dos adversários nestas zonas perigosas;

– Incomodar e atrapalhar ao máximo a condição do arremessador, por meio de bloqueios corporais ou outras ações;

– Ajudar o goleiro, levando o ataque a zonas de maior dificuldade de arremessos ou mesmo auxiliando no bloqueio ou na obstrução da visão da baliza aos atacantes.

Escrevi que outros objetivos podem suplantar aquele de “não tomar o gol” porque muitas vezes uma equipe tem outras necessidades com seu jogo de defesa, e prioriza outros objetivos na frente deste.

Um exemplo aconteceu no Campeonato Paulista masculino, no início da década de 2000. Naquela ocasião, a equipe de São Caetano pretendia terminar a fase de classificação em primeiro lugar, pois isso lhe daria algumas vantagens práticas nas fases decisivas da competição. Poderia obter empates nas semifinais e nas finais, iria disputar as partidas decisivas em sua própria “casa” e, principalmente, enfrentaria nas semifinais um adversário teoricamente mais fraco, que havia terminado a primeira fase deste campeonato em quarto lugar.

Entretanto, para classificar-se em primeiro, esta equipe não somente precisava vencer o seu último jogo, contra o time de São Vicente – pois assim se igualaria em número de pontos com a equipe da Metodista – mas precisava vencer por uma diferença maior de 50 gols! A equipe adversária realmente era inferior, estava em último lugar no campeonato, havia perdido jogos por 30 gols de diferença no torneio, mas uma diferença desta era realmente muito difícil.

Qual foi a estratégia então decidida pela comissão técnica de São Caetano, que priorizava outro objetivo acima daquele de “não tomar gol”? Para eles, tendo em mente o objetivo de conquistar rapidamente a bola para fazer o maior número de gols possível, a solução encontrada foi a de defender somente com cinco jogadores, deixando o sexto já posicionado no meio da quadra. Assim que recuperassem a bola, acionariam este jogador, que nem precisaria correr para o contra-ataque, e já estaria livre para fazer o arremesso somente contra o goleiro.

Nesta estratégia de risco, priorizando o objetivo de recuperar rapidamente a bola (como os pumas!), além de levar o adversário para zonas pouco perigosas na quadra, de onde os arremessos fossem feitos com maior facilidade para a defesa do goleiro, a equipe de São Caetano conquistou a sua meta, ou seja, venceu com uma enorme diferença de gols, maior do que cinquenta! A sua estratégia, baseada nestes objetivos, preconizava que eles retomariam a bola mais vezes do que sofreriam gols, e assim foi feito.

Nesta situação de jogo, vê-se claramente o quanto o handebol deve ser contextualizado e como, a partir dos objetivos de cada competição, estratégias podem ser traçadas a partir de princípios, que definem as táticas e técnicas empregadas

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