Tipos de Fixação III – Mitos sobre a fixação par-ímpar

Jogar através de fixações já foi explorado em dois artigos escritos no site, um falando da fixação par e um falando da fixação ímpar.

No artigo sobre fixação par, destaquei a existência da fixação par-ímpar como uma possibilidade de resposta coletiva a partir de uma ação individual.

A fixação par-ímpar, porém, se mal ensinada e compreendida pelos alunos, pode se tornar um revés para as ações coletivas da equipe. Coloco-a em destaque, pois ouço muitos mitos sobre esse tipo de ação do jogo.

Vamos aos mitos:

MITO 1 – Fixar ímpar é o mesmo que “chamar dois defensores”?

Algumas pessoas confundem fixação par-ímpar com o famoso “chamar dois defensores e soltar a bola”, que geralmente é conseguido quando realizamos uma trajetória buscando um espaço vazio entre dois jogadores da defesa.

Em situações que buscamos um espaço vazio, não devemos buscar a utilização de fixações, mas sim, do conceito de penetração.

Pode até ser que chamemos a atenção de dois adversários, fixando-as à nossa ação, mas o que devemos tentar, numa situação dessas, é entrar com tudo nesse espaço entre ambos, sem que esse espaço se feche. Logo, isso é bem diferente de uma fixação, pois na fixação (principalmente a ímpar e par-ímpar) a intenção é criar espaço para nosso companheiro que se encontra próximo. Já numa penetração, o objetivo é conseguir ganhar o espaço que já existe para si mesmo. Existe ainda, no caso da fixação par, a tentativa de criar espaços para si mesmo.

Logo, fixar par-ímpar não significa ir num espaço vazio e “chamar dois defensores”, pois nessa situação, o bom é realizarmos uma penetração e ganhar esse espaço. Aí, somente se não conseguirmos penetrar nesse espaço é que podemos tentar procurar um companheiro livre.

MITO 2 – Fixação par-ímpar é uma estratégia?

Costumo ouvir de alguns treinadores a famosa frase: “chame dois marcadores e solte a bola!”, que de acordo com o que foi exposto à cima diferencia-se do conceito de fixação-par.

Podemos entender que ao falar isso, o treinador pede que como estratégia dominante de um jogador, ele prefira ser marcado a buscar fazer o gol. Já havia parado para pensar nisso?

Um jogador, por mais que esteja envolvido com questões coletivas no jogo, deve sempre querer fazer o gol, da maneira mais rápida e eficaz possível.

Isso implica que toda ação do jogador deve ter como primeiro objetivo, buscar o gol. Tudo o que vem depois disso, são consequências.

Uma consequência, por exemplo, pode ser ele ter que passar a bola; outra pode ser o fato dele chamar a atenção de dois jogadores e assim conseguir vantagem numérica.

Porém, todas devem ser pautadas num primeiro objetivo: buscar o gol.

A fixação par-ímpar, conforme visto anteriormente, não é o mesmo que chamar dois e soltar a bola e também não é uma ação que faz o jogador preferir ser marcado a buscar o gol. Na verdade e fixação par-ímpar é consequência de uma jogada na qual o atleta busca o gol, incondicionalmente.

Isso pode ser melhor entendido se observarmos o seguinte: uma das formas de buscarmos o gol é buscar espaços vazios na defesa e tentar penetrar (que é bem diferente de fixar) nesses espaços (conforme desmistificamos no mito 1).

Outra forma é ‘abrir espaços na defesa’, e para isso usamos ações táticas que permitam que isso aconteça. Uma forma eficiente de criar esse espaço vazio é realizarmos a chamada fixação par que já foi tratada no site em artigos anteriores.

Fixar par, segundo o que defendo nesse espaço, significa chamar a atenção do marcador direto e depois de fixá-lo à sua ação, buscar fazer o que chamo de “o algo a mais”.

De acordo com o que foi escrito no artigo sobre fixação par, destaco:

(…) fixar par apenas por fixar par não serve no jogo de handebol, pois afasta a equipe do cumprimento da lógica do jogo, que é fazer mais gols do que sofrer, mas que posso resumir em ‘fazer gols’.

Dessa forma, fixar par exige um algo mais. Exige ou uma ação individual que gere conflitos defensivos ou uma coordenação de grupo, para que a partir da fixação par a equipe tenha benefícios.

Uma possibilidade desse “algo a mais” pode ser realizar uma finta, pois assim ele buscará criar um espaço para si.

Numa ação de fixação par, o jogador pode ser impedido de ter êxito, de algumas formas, entre elas:

  • Pela ação do marcador direto (par) que não deixa ele criar esse espaço, marcando-o;
  • Pela ação do marcador indireto (ímpar) que, pelo fato da fintar ter criado um espaço, sai de seu posto defensivo para cobrir a falha do marcador direto e, para isso, deixa seu posto defensivo aberto.

A segunda consequência é que caracteriza uma fixação par-ímpar.

Nela, observamos que o atacante, após fixar par e executar uma finta, conseguiu criar espaço para si, porém, ele é rapidamente impelido pelo marcador ímpar, que para tentar impedir o êxito da finta, deixa seu espaço defensivo vulnerável.

Logo, uma fixação par-ímpar (que é fixar o marcador direto e logo após isso deslocar um marcador indireto de seu posto defensivo de origem) não pode ser considerada uma estratégia, pois não depende apenas da vontade do jogador para que ela aconteça. Na verdade, a fixação par-ímpar é uma das três possibilidades que a fixação par nos dá:

  1. O marcador direto seguir o atacante, deixando um espaço vazio onde ele estava posicionado (manutenção da fixação par) gerando um cruzamento;
  2. O marcador direto ficar estático (fixado), assim como o marcador indireto, ocasionando a penetração do jogador que realizou a finta, criando uma situação de 1xgoleiro (ganho ofensivo da fixação par);
  3. O marcador indireto fechar o espaço ganho pelo atacante e deixar um espaço aberto momentâneo, para que o próximo jogador responda indo direto nesse espaço, visado penetrar nele (caracterizando a fixação par-ímpar).

Dessa forma, podemos considerar como estratégia a fixação par, e a fixação par-ímpar como uma das emergências advindas da fixação par.

Assim, nossos jogadores devem ser ensinados a saber responder às três possibilidades que a fixação par dá a eles no momento de sua ação.

MITO 3 – Fixar par ímpar é fixar o marcador direto e ir em direção ao marcador indireto?

Muitos ensinam seus jogadores que realizar uma fixação par-ímpar significa fixar no marcador direto e depois disso, buscar o marcador indireto, deixando um marcador para trás, criando, a partir disso, sempre fixações ímpares para os demais jogadores, até que um deles sobre sozinho (geralmente o ponta) para finalizar sozinho com o goleiro.

Sem dúvida, a ideia é valida, pois ao fixar o marcador par (marcador direto) e depois, ir de encontro com o marcador ímpar (marcador indireto), a resposta do próximo jogador será ir em direção a seu marcador indireto mais próximo e assim por diante, até que sobre sozinho o ponta.

A questão que fica sobre essa forma de jogar é: será que o jogador da ponta sobra com espaço suficiente para conseguir ter êxito ofensivo?

Esse tipo de ação coletiva é quase ideal, pois peca apenas pelo fato de “espremer” muito o ataque de um lado da quadra, e com isso, mesmo com ganho na relação numérica (pois um jogador sobra), a equipe não consegue tirar vantagem dessa superioridade.

A resposta para esse mito pode ser observada nas reflexões realizadas nos outros mitos: Para que uma fixação par-ímpar se caracterize, devemos fixar nosso marcador par e, ao tentar abrir espaço através de uma finta, obrigar o marcador indireto a deixar seu posto defensivo, abrindo um espaço vazio que poderá ser aproveitado pelo próximo atacante, pois assim temos ganhos ofensivos!

fixação par 4

Veja como essa ideia é bem diferente da ideia anterior, pois com essa forma de organização ofensiva, o ataque continua bem distribuído na quadra fazendo a defesa se movimentar no sentido oposto em que a bola caminha, abrindo espaços sempre por onde ela estiver.

Logo, fixar par-ímpar não significa fixar o marcador direto e ir de encontro ao marcador indireto. Na realidade, é o marcador que deve sair de seu lugar e ir de encontro ao atacante.

Dois princípios (e seus sub-princípios) que nossos alunos devem saber sobre a utilização da fixação ímpar

1. Se chamarmos dois marcadores quando buscamos o espaço vazio, não se deve fixar, mas sim penetrar nesse espaço, pois penetrar no espaço vazio já te deixa cara a cara com o goleiro.

2. Fixação par-ímpar não deve ser sua estratégia, mas sim uma consequência de uma fixação par, pois ao fixar par, você sempre tem que tentar fazer alguma coisa a mais, pois só fixar par não garante ganho ofensivo e essa coisa a mais pode ser, por exemplo:

  • Um passe para o pivô que correu atrás do seu marcador (criando assim uma fixação par-ímpar pelo deslocamento dele).
  • Uma finta buscando um espaço vazio ganhando esse espaço e ficando cara a cara com o goleiro.
  • Ao fintar, não ir em direção do próximo marcador e sempre buscar um espaço vazio. Deixe que o marcador saia de seu lugar e venha na sua direção, pois assim sobrará um companheiro seu na cara do gol (criando uma fixação par-ímpar), basta você realizar o passe pra ele assim que perceber que chamou a atenção de seu marcador indireto (que era o marcado dele).

Com esses princípios baseados no conceito de fixação par, quebramos os mitos que imperam sobre a utilização desse conceito ofensivo no handebol, fazendo-os aprender que fixar par-ímpar é na verdade uma consequência e não uma finalidade.

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