Construção de uma Progressão Pedagógica no Ensino do Handebol Através do Jogo – A Escolha dos Jogos II

* Antes de prosseguir, é interessante ler os seguintes artigos:

Conforme destacado no artigo anterior, escolher os jogos que serão utilizados para a organização de aulas e sessões de treinos depende de, pelo menos, 3 aspectos de análise:

  1. Como ocorre no jogo a manifestação dos Princípios Operacionais dos Jogos Esportivos Coletivos? (Bayer, 1992)
  2. Quais regras de ação serão manifestadas nesse jogo?
  3. O jogo aproxima-se ou afasta-se da ‘lógica’ do handebol?

As respostas seguem abaixo.

1. Como ocorre no jogo a manifestação dos Princípios Operacionais dos Jogos Esportivos Coletivos?

Os princípios operacionais dos jogos esportivos coletivos descritos por Bayer (1992) referem-se à funcionalidade do jogo.

Ou seja, são aspectos sem os quais os jogos esportivos coletivos não funcionam (logo, não existem).

Chamam-se princípios exatamente pelo fato de serem hierarquicamente, o início de toda organização de um jogo.

Segundo Bayer (1992) os princípios operacionais podem ser descritos, dentro de uma relação dialética (sempre dentro de uma relação de oposição ataque e defesa, sem o qual um não poderia existir sem o outro), de acordo com a tabela abaixo:

Principios dos Jogos Desportivos Coletivos

Como se pode perceber, dentro dessa perspectiva dialética (de complementação entre princípios de ataque e defesa), os jogos devem contar com, pelo menos, a relação entre dois princípios de ataque e defesa complementares ocorrendo em sua realização.

Logo, um jogo que possui a idéia de conservação da posse da bola, deve ter, pelo menos, a presença do princípio de recuperação da bola; se o jogo visa progressão ao alvo, deve haver a presença de, pelo menos, o princípio de impedir a progressão; e se visa ataque à meta, deve haver a presença do princípio de proteção ao alvo.

Ou seja, há sempre a presença da relação de oposição entre equipe/jogador de ataque e equipe/jogador de defesa.

Sem essa relação de oposição, o jogo se afasta muito do que o handebol é, e muitas vezes, a atividade acaba por perder o caráter de jogo, perde-se a intenção na execução da ação, e torna-se uma atividade de mera execução técnica.

2. Quais regras de ação serão manifestadas nesse jogo?

As regras de ação do jogo (GARGANTA, 1998; DAOLIO, 2002) são a forma de operacionalizar os princípios operacionais do jogo.

Por exemplo: para manter a posse de bola, é necessário que o indivíduo/equipe que joga realize ações nos níveis da leitura do jogo (comunicação na ação), na estruturação do espaço do jogo e na relação com a bola, que podem ser desmarcar-se, criar linha de passe para ser apoio aos seus colegas, passar a bola, driblar, fintar, fazer tabelas, ultrapassagens, bloqueios e etc..

Todas essas ações são as manifestações das regras de ação do jogo é que criam a estruturação das funcionalidades do jogo.

Dentro da idéia de ensino do handebol, porém, essas regras de ação podem ser específicas à modalidade ou gerais a outros esportes coletivos.

Um exemplo de manifestação de regras de ação gerais está em jogos que possibilitam criar linhas de passe, desmarcar-se, fintar, driblar, bloquear, tabelas, cruzamentos e etc.. ações essas comuns a quaisquer jogos esportivos coletivos, não somente ao handebol.

Os aspectos específicos podem ser observados quando os jogos são planejados visando que aspectos específicos da modalidade sejam vivenciados, fator que aproxima mais a aprendizagem para o handebol, tais como orientar os jogos para que haja a execução do Ritmo e Duplo Ritmo Trifásico, possibilidade de contato entre jogadores (ação obrigatória no handebol), jogos com áreas exclusivas do goleiro e etc..

Pode-se observar, dessa forma, que enquanto os princípios operacionais do jogo referem-se a aspectos globais de quaisquer esportes coletivos, as regras de ação conotam a possibilidade de explorarmos a especificidade da modalidade (DAOLIO, 2002) quando trabalhamos com jogos cujas regras de ação sejam próprias da modalidade.

3. O jogo aproxima-se ou afasta-se da ‘Lógica do handebol’?

Entender a lógica do jogo pode nos capacitar a criar jogos intencionalmente semelhantes ou diferentes do handebol, porém, às vezes de maneira equivocada, ou exageramos na manutenção da lógica do jogo ao criarmos nossas atividades, ou abandonamos totalmente a lógica do jogo em nosso processo de pedagógico. Ambas as situações podem incorrer em erro dependendo da etapa de aprendizagem que nossos alunos se encontram.

Quando exageramos em focar o ensino nos aspectos lógicos do jogo, principalmente na iniciação, acabamos por tender à especialização precoce de nossos alunos/atletas, uma vez que seguir a lógica do jogo como única tendência de ensino fará com que desde muito cedo, jogue-se, exclusivamente, o handebol formal, não levando em consideração os aspectos cognitivos e a capacidade de compreensão que crianças ou mesmo iniciantes possuem do handebol possível de ser jogado por eles.

Quando abandonamos o a lógica do jogo no ensino do handebol caímos no erro de criarmos uma ‘pedagogia’ de joguinhos, sem levar em consideração que o objetivo final, desse processo de formação esportiva é, sem dúvida, fazer nossos alunos/atletas jogarem bem o handebol.

Todo jogo, independente da sua forma, organização e manifestação, possui nele uma lógica inexorável (FREIRE, 2002). Isso é um indicativo que ao jogarmos, se compreendermos sua lógica (que não muda para aquele determinado jogo) teremos grandes chances de conquistar a vitória!

________________

No entanto, como quaisquer fenômenos humanos, a imprevisibilidade também é inerente ao jogo, e mesmo que tenhamos total conhecimento de sua lógica, podemos, devido à fatores imprevistos, perder o jogo.

Trata-se de um constante confronto entre lógica e imprevisibilidade, aspectos aparentemente antagônicos, mas que dialogicamente coexistem no mesmo fenômeno, o jogo.

________________

O handebol possui aspectos lógicos gerenciados pelos princípios do jogo, regras de ação do jogo, regulamentos da modalidade e nível de compreensão dos jogadores que o jogam; fatores esses que através de suas complexas relações fazem emergir o Handebol que conhecemos.

Dentre alguns aspectos lógicos da modalidade, temos:

  • Para vencer, devo fazer mais gols do que sofrer;
  • Características funcionais (relativas aos princípios operacionais do jogo) defensivas:
    • Visa-se predominantemente proteger o alvo e impedir progressão, com poucas ações de interceptação (recuperação) da bola;
  • A finalização deve vencer um goleiro, ou seja, não basta arremessar a bola ao gol;
  • O ataque é feito geralmente por 6 dos 7 os jogadores;
  • Balanço Defensivo deficiente (quanto mais rápido transitar da defesa para o ataque, maior chance de êxito)
  • O Ataque sobressai à defesa:
    • Alto índice na relação entre ataques feitos e gols marcados;
    • Um sistema defensivo bem treinado pode vencer um jogo.

Através desse mapeamento, podemos observar o quanto um jogo criado ou mesmo adaptado para ser utilizado em nosso processo pedagógico aproxima-se ou afasta-se da lógica do jogo de handebol.

Quanto mais próximo da lógica, mais ele tende a ser semelhante ao handebol, quanto mais se aproxima da lógica, menos semelhante ao handebol é o jogo.

4. Conclusões

Elaborar ou aplicar um jogo dentro de uma aula ou treinamento de handebol não é algo simples, pois deve passar por um processo de reflexão compreendida pela definição da ‘Família de Jogos’ (SCAGLIA,2003) a ser utilizada para o ensino do handebol, analisar o jogo em relação aos ‘princípios operacionais do jogo’ e também com relação à gestão de suas ‘regras de ação’.

Esses aspectos influenciam diretamente na lógica do jogo elaborado em sua relação com a lógica do jogo de handebol, e assim pode-se observar se esse jogo aproxima-se ou afasta-se do que é em essência o handebol.

Afastar-se da lógica do jogo de handebol, no entanto, não descarta o jogo do processo de progressão pedagógica a ser organizado, pois, muitas vezes, a quebra da lógica permite fixação de conceitos gerais, que posteriormente poderão ser essenciais para o acesso ao bom jogo de handebol de nosso aluno, hoje iniciante na modalidade, mas que amanhã, poderá estar jogando um campeonato.

No próximo artigo, trataremos exclusivamente desse assunto: como criar um currículo (planejamento) utilizando aspectos gerais (afastados da lógica do jogo) e específicos (próximos da lógica do jogo).

Bibliografia

BAYER, Claude. La Enseñanza de los Juegos Deportivos Colectivos. 2. ed. Barcelona: Hispano Europea, 1992.

DAOLIO, Jocimar & MARQUES, Renato Francisco Rodrigues. Relato de uma experiência com o ensino de futsal para crianças de 9 a 12 anos. In. Motriz Rio Claro, v.9, n.3, p.169-174, set./dez. 2003. [clique aqui]

FREIRE, J. B. O Jogo, entre o riso e o choro. São Paulo: Autores Associados, 2002.

GARGANTA, Júlio. Ensino dos Jogos Desportivos Coletivos. Perspectivas e Tendências. In. Movimento, ano IV, n. 8, p.19-27, 1998/1. [clique aqui]

SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003. [clique aqui]

Anúncios

Um comentário sobre “Construção de uma Progressão Pedagógica no Ensino do Handebol Através do Jogo – A Escolha dos Jogos II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s