Construção de uma Progressão Pedagógica para o Ensino do Handebol Através do Jogo

Hoje, farei aqui meu primeiro e talvez único elogio ao ensino tradicionalista do esporte, este, baseado em premissas tecnicistas e que reduzem o jogo a elementos ensinados de maneira descontextualizada de seu todo (ver mais clicando aqui ):

  • Geralmente quem ensina dessa forma sabe muito bem de onde quer ir e para onde quer chegar, ou seja, essa forma de abordagem pedagógica acaba facilitando a criação de um caminho simples a ser seguido para o ensino por ele proposto.

Criar uma trilha a ser seguida, uma origem e um destino pedagógicos é algo simples de se fazer a partir dessa perspectiva e, portanto, planejar aulas bem articuladas, conteúdos a serem abordados e também avaliação dos objetivos alcançados é algo bastante factível numa abordagem de ensino tradicional.

Claro que quem souber ler aprofundadamente este “elogio” que teço nos parágrafos anteriores perceberá que por trás desse elogio há um misto de sarcasmo – afinal, ensinar de maneira tecnicista é muito fácil e planejar os conteúdos das aulas torna-se tarefa simples, mas será que isso garante a aprendizagem efetiva do handebol? – e inveja – pois gostaria que fosse assim, também simples, ensinar através de uma metodologia pautada exclusivamente em jogos.

Um exemplo do simplismo que é ensinar numa vertente tradicionalista é traçarmos uma proposta de planejamento, por exemplo, da aprendizagem do passe, que será expresso em três hipotéticas aulas que descreverei a seguir:

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Aula 1

Tipos de Passe

Atividade 1 (45 min)

Divididos em duplas, um de frente para o outro, propor que façam passes um para o outro, primeiro de ombro, depois quicado, depois em pronação e por último por trás (pelas costas), totalizando 2 séries para cada tipo de passe, com 15 repetições por série com cada braço.

Observações: corrigir o gesto, educando-os a executar a técnica da maneira correta.

Atividade 2 (45 min)

Ainda em duplas, correndo organizadamente de um gol para o outro executando passes em deslocamento frontal. Na ida, estando a 3 metros um do outro e na volta a 20 metros um do outro, executando na ida, três séries para cada tipo de passe vivenciado anteriormente, e por fora, realizando passes bem longos. Quem estiver pela esquerda deve fazer passe com a mão direita, quem estiver pela direita deve fazer passe com a mão esquerda.

Observações: corrigir o gesto, educando-os a executar a técnica da maneira correta. Cada vez que a bola cair, a dupla volta ao fim de fila e executa novamente a série de onde parou. Ter atenção para que eles recepcionem a bola sempre com as duas mãos em formato de concha com os dedos polegares apontados um para o outro.

Aula 2

Precisão

Atividade 1 (45 min)

Em trios, dois realizam passes e o terceiro aluno segura um arco. Primeiro ele segura o arco o mais alto possível, depois na altura dos ombros e depois na altura dos joelhos. Os passadores devem fazer a bola passar 10 vezes por dentro do arco cada um nas diferentes alturas, fazendo a bola chegar ao outro companheiro. Quem terminar primeiro as séries segura o arco para que o aluno que estava no arco também execute a tarefa.

Observações: mostrar a diferença do ângulo do ombro em cada tipo de passe realizado

Atividade 2 (45 min)

A mesma atividade, só que agora com deslocamento pela quadra, podendo dar apenas três passos com a bola nas mãos. Se a bola cair ou se o jogador der mais de três passos com a bola na mão, o trio volta ao fim da fila e inicia novamente a série em que estavam

Observações: as mesmas da atividade anterior, além das questões da recepção da bola.

Aula 3

Passes de Habilidade

Atividade 1 (40 min)

Em trios, dois alunos devem passar a bola sendo atrapalhadas pelo terceiro aluno – ele não pode pegar a bola, servirá apenas de obstáculo e ficará sempre entre a linha reta formada entre os dois passadores que mão poderão se mover, tendo de desviar o passe através do passe feito pela lateral do corpo (próximo a altura do quadril).

Atividade 2 (40 min)

Ainda em trios, dois jogadores passam a bola e um jogador ficará bem próximo de quem estiver com a bola. O passe será feito através da ação realizada próximo à cabeça do terceiro aluno, próximo ao quadril do aluno e entre as pernas do aluno.

Atividade 3 (10 min)

Jogo de 7×7 para avaliar quantos passes certos e errados acontecem, para verificar se os treinos de passe foram bem assimilados

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Minha inveja decorre do fato de, sobre uma perspectiva tecnicista, parecer tão simples ensinar o passe em suas variadas formas e possibilidades e ainda por cima, através de um “scout” de erros e acertos, conseguir avaliar se houve ou não aprendizagem. Em caso afirmativo, um novo conteúdo será abordado. Em caso negativo, toda sequência de aulas será retomada, para assimilação e acomodação dos conhecimentos sobre o passe.

Ao pensarmos sobre esse modelo de ensino, porém, sinto-me reconfortado, pois é bastante complicado imaginar que a mera assimilação de gestos motores será capaz de garantir a transferência eficiente destes como ações para o ambiente de jogo, dotado de imprevisibilidade, incertezas, pressões e com caráter irredutível (nunca um jogo será igual ao outro).

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Gestos se diferem de ações por um simples fato – o gesto refere-se à mera execução de uma tarefa, a ação refere-se à resolução de um problema, que será feito através de uma ação motora significada dentro desse contexto

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Quantas vezes não nos deparamos com o fato de, após 1, 2 ou 3 sessões de treinos aos moldes tradicionais, como aqueles descritos anteriormente, verificarmos que em momentos de pressão por tempo e espaço (necessidade de rápida tomada de decisão e antecipação aos interesses do oponente) costumeiras em jogos e atividades de apelo coletivo que usamos em nossos treinos, outras formas/tentativas de execução do passe (às vezes interpretadas por nós como erros de alavanca, ou de ângulo entre braço e antebraço, por exemplo) acabam por emergir por visarem solucionar um problema inerente ao jogo; ou mesmo percebemos acontecerem muitos e sucessivos erros, que em nosso julgamento parecem impensáveis: “Porque você fez isso?! Cansamos de treinar a semana toda passe e você faz o gesto de qualquer jeito?! Assim não dá!”

O erro é do aluno, que não aprendeu direito, ou será do professor, que acredita que realizar passes em duplas garantirá ao aluno a capacidade de resolver os problemas circunscritos (inerentes e específicos) ao jogo? Uma questão que muitas vezes não fazemos a nós mesmos, enquanto professores, pois onde já se viu um professor errar? É assim que pensamos.

Mesmo sabendo que o ensino tecnicista – baseado em resolução de tarefas prontas – não é o caminho ideal para a formação de jogadores inteligentes para responder aos constrangimentos do jogo, reforço, mais uma vez a minha opinião inicial de que, apesar disso, o ensino tradicional possui uma grande organização de seus conteúdos, meios de ensiná-los e formas de avaliar o aprendizado.

Através desse primeiro artigo, pretendo inaugurar uma discussão sobre como garantir a “construção de um caminho pedagógico para o ensino do handebol através do jogo”, título dessa série de artigos.

Pretendo formalizar aqui caminhos e perspectivas que possam fundamentar professores e treinadores a acreditarem que através do jogo eles possam ser capazes de educar/treinar, provando que não se trata de uma “metodologia de joguinhos”, ou um monte de “joguinhos juntos” apenas, mas sim de uma sequência pedagógica.

A partir do próximo texto irei fundamentar alguns pontos que são o alicerce para compreender a construção de jogos conceituais, ou seja, que trazem consigo significados que visam à assimilação de conceitos a serem executados no jogo formal e também jogos específicos, cujos conceitos serão vividos de maneira auto-organizável, garantindo a autonomia para que o jogo se desenrole de maneira organizada, estruturada e funcional.

Assim, cada jogo terá um papel fundamental para a aprendizagem e aplicação de conteúdos inerentes ao handebol, garantindo uma melhor prática da modalidade através de um ensino preocupado com a formação de jogadores capazes de responder inteligentemente às demandas do jogo.

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14 comentários sobre “Construção de uma Progressão Pedagógica para o Ensino do Handebol Através do Jogo

  1. Construir um caminho pedagógico para o ensino do handebol através do jogo é uma ótima proposta para que alguns dos problemas na formação do jogador sejam solucionados. O texto, como sempre, muito bem elaborado pelo professor Lucas fez com que eu pensasse sobre algumas questões elementares sobre a pedagogia do handebol, mas que ainda merecem serem discutidas muitas e muitas vezes…
    A primeira questão é quanto ao verdadeiro papel do Jogo no contexto do processo de ensino-aprendizagem do handebol. Seria o Jogo o único método para “…aplicação de conteúdos inerentes ao handebol…”?
    Concordo que o Jogo “garante uma melhor prática da modalidade através de um ensino preocupado com a formação de jogadores capazes de responder inteligentemente às demandas do jogo.” Porém, a resposta inteligente é necessariamente a resposta mais eficiente?
    Penso que não, pois um jogador que toma uma decisão correta não tem garantia de que essa será efetiva. Por exemplo, numa determinada situação de jogo o atleta na defesa percebe, analisa e conclui que a melhor forma de parar a progressão do seu oponente é interceptar sua trajetória de corrida, e executa tal ação. Se o atleta de fato parar o adversário, podemos dizer que a decisão foi correta. Certo? E se o atleta não parar o adversário, o que dizer? O mais simples é responder que a decisão não foi correta. Assim, deixaríamos de analisar se o que limitou a ação foi o pensamento tático equivocado ou a execução das técnicas empregadas na tarefa motora.
    Penso que um jogador formado segundo uma metodologia baseada em Jogos, pode ter bem desenvolvidas as capacidades cognitivas, solucionando problemas táticos e tomando decisões acertadas. Por outro lado, gestos motores bem executados aumentam as chances de uma ação tática ser eficiente. Assim, o pensamento tático é concretizado por meio de uma boa execução técnica.
    Por tempos tivemos jogadores que arremessavam com muita precisão e potência, mas que não sabiam escolher o melhor momento de lançar a bola baseado no comportamento do goleiro, fruto de uma pedagogia do esporte tecnicista. Será que corremos o risco de ter, no futuro, jogadores que saberão escolher o melhor momento de lançar a bola baseado no comportamento do goleiro, mas que não dominarão a técnica de arremessar a ponto de não acertar o gol ou de permitir que o goleiro defenda com relativa facilidade? Que tipo de jogador nós buscamos?
    Dentre todas as vantagens do Jogo para o desenvolvimento dos conteúdos do handebol, podemos considerar também que é um instrumento de avaliação interessante, pois permite fazer o diagnóstico que quais gestos motores estão limitando uma participação efetiva e prazerosa do jogador. O jogador que consegue concretizar suas ações estará mais motivado em continuar jogando… ou não?
    Parabéns professor Lucas pelo blog!!! Ótimo espaço para todos que gostam do handebol…

  2. Olá Alexandre, tudo bem? Realmente, uma questão de alto nível para ser respondida de maneira pensada e clara.
    Quando falamos de padrão motor, não podemos deixar que isso deixe de fazer parte de um processo de ensino-aprendizagem também focado no Jogo.
    Porém, ao contrário de uma mera assimilação técnica (motora) o jogo permite a construção de estruturas motrizes, significantes e significadas em contexto do jogo.
    O exemplo dado sobre um atleta preciso nos arremessos, apenas, e sobre um atleta preciso na decisão de arremessar, apenas, é um grande problema pedagógico.
    Ensinar por jogos deve garantir que haja problemas suficientes para que o atleta consiga criar estruturas e experiências transferíveis para o momento do jogo (que é sempre único e irredutível), podendo-o fazer tomar decisões o mais acertadas possíveis para arremessar a gol, mas também sendo capaz de gerar repetição dessa ação, para que o atleta experimente muitas finalizações a gol e aprenda mais do que um ato motor, mas sim aprendar uma ação motora.
    Obrigado pela contribuição. Espero que com os próximos textos eu possa esclarecer melhor esses pontos, exemplificando através de uma progresssão pedagógica aquilo que pode ser conquistado com o ensino pelo jogo.
    Abraços,

  3. Olá preciso de uma ajuda, como eu poderia montar uma aula de 1 exercício específico para treinar com crianças de 12 e 13 anos, o passe ?

    Só para eu ter uma idéia, eu sei q preciso passar o referencial, que é a posição que o corpo tem que ficar. mas não sei que exercício eu posso usar.

    Obrigada !!

  4. Oi,Alexandre Almeida, tudo OK?Vejo q entende muito de handebol,eu n.Mas,penso q hoje é tudo muito rápido,os alunos querem sair jogando.Se nos ativermos ao aperfeiçoamento dos fundamentos eles se dessinteressam rapidinho.Sem falar no grande número de alunos por sala de aula,oq dificulta.Antigamente,éramos excluídos nas aulas de ed. fís.,ficávamos treinando os fundamentos enquanto quem sabia jogava.N saí disso,tinha medo de quadra,porém morria de vontade de jogar.Garanto q o professor q usa a padagogia em questão n deixa aluno fora da quadra.Sem dizer q grandes atletas aprenderam nas ruas só por prazer,sem a mínima preocupação.Um bom professor é aquele q reflete,e faz com que o aluno reflita,continui assim.Beijão.

  5. Bem montei uma ula para dar inicio ao jogo de handebol para crianças da 5º serie. O metodo utilizado foi do princípio da queimada onde o objetivo e acertar seus oponentes, mas a bola somente pode ser jogada com movimentos de passe e arremeço do jogo de handebol. PAra que os alunos queimados nao parem de jogar, assim que els saem d campo, eles se deslocam para as laterais do campo adversário onde poderão acerta-los com a bola tmbm.

  6. Ola ,td bem eu sou treinador de um time de handebol e gostari de esta recebendo algumas novidades de profissionais assim como vcs fico muito grato se me enviar algo vlw um abraço td de bom pra vcs.

  7. Ola vc poderia me fazer a gentileza de me propor algumas ideias para aula de handebol para alunos da 5º série do ensino fundamental.

    obrigado

    att…

    Davison Junio Santos.

  8. eu queria sabe o q acontece com a mao direita e mao esquerda esse site é uma bosta e ainda por sima meu trabalho né pra amanha
    que bosta!!!!!!!!!!!!

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