Analisando e Respondendo à Enquete do Site – Ensinar pela Técnica, pelo Jogo, ou por Ambos?

Caros amigos, há algumas semanas adicionei uma enquete em nosso site, cuja pergunta era bastante objetiva: “Como você ensina handebol?”

Obtive, até escrever esse artigo, a seguinte estatística de respostas:

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Total de respostas: 108

Resposta 1: Através de jogos, exclusivamente: 12 votos

Resposta 2: Através de treinos visando a melhoria da técnica dos jogadores: 15 votos

Resposta 3: Através de jogos e treinos técnicos, simultaneamente: 81 votos

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Uma análise simples mostra a realidade hoje de nossos professores e treinadores de handebol: em sua maioria, um total de 96 pessoas que trabalham com o handebol adotam meios de ensino que fundamentam totalmente, ou parte das aulas, em treinos tecnicistas, visando que o aluno seja capaz de executar corretamente as diversas técnicas do jogo de handebol.

Pergunto, nesse artigo o que seria esse “executar corretamente” na visão de cada um de nós que ensinamos o handebol?

Para muitos, executar corretamente tem a ver com a biomecânica do gesto: o arremesso deve partir de cima da cabeça, com o cotovelo em 90 graus e terminar com extensão total do membro superior à frente do corpo, lançando a bola e terminando o gesto com o giro do ombro antero-posteriormente.

Para outros, o gesto ideal é a transferência daquilo que os melhores jogadores de handebol do mundo fazem: vejam só, meus alunos, a Pará faz um passe sempre com o cotovelo alto, a cima dos seus ombros, isso que todos devemos fazer.

A visão centrada na técnica faz do jogo de handebol um somatório de gestos executados de maneira sistemática. O jogo passa a ser analisado sobre a ótica do melhor jogador tecnicamente se falando – aquele que arremessa melhor, que passa melhor, que dribla melhor, que finta melhor.

Logo, sob essa lógica, jogar handebol é: passar, driblar, arremessar, fintar, bloquear, e etc..

Existe nessa visão um engodo, algo que passa despercebido pelos observadores do jogo: sim, o handebol é um jogo em que se passa, se dribla, se arremessa, se finta, se bloqueia e etc.., mas alguém sabe por que o jogador resolveu passar a bola, e não driblá-la?

Por que se arremessa? Por que se finta? Por que se passa?

O porquê acaba sendo esquecido. Essa é a conotação que o ensino tradicional, fundamentado no ensino da técnica se embasa. Para ensinar handebol, ensina-se os “modos de fazer”, e não as “razões do fazer” (Garganta, 1995)

Quando falo,  nesse site, sobre a utilização do jogo como elemento pedagógico incluo nas atividades os “porquês” de se fazer algo.

Num jogo, um aluno passa porque ele escolheu passar, arremessa, porque em uma análise de possibilidades, vê no ato de arremessar a melhor solução para o problema do jogo. Será que o aluno sempre acerta? Claro que não! E é por isso que nós, enquanto pedagogos (do esporte, dos jogos, das atividades físicas e etc..) estamos presentes no ambiente de aula.

Jogando, o aluno é obrigado a solucionar problemas. O jogo exige técnica, mas a técnica inerente ao jogo, e não a técnica inerente ao treino de passes 2 a 2, de arremessos nos bambolês e de dribles em cones.

A técnica só pode ser potencializada dentro do elemento que a fez surgir.

Um gesto técnico surge graças a uma demanda. Essa demanda, no caso do handebol, é o próprio jogo de handebol.

Mas existem outros tantos jogos similares ao handebol, por exemplo, com relação ao passe: bobinho, pega-pega com bolas, jogos de passes, como o passa 10, entre outros.

Nesses jogos, supracitados, passar é uma necessidade, e não uma obrigação.

Isso serve para muitos outros fundamentos técnicos. Basta criar jogos, além claro do ato de jogar o próprio handebol e jogos provenientes de adaptações da modalidade, para que esses fundamentos técnicos sejam aprendidos em função do jogo (necessidade), e não em função da execução (obrigação em fazer).

Gostaria que refletíssemos sobre isso: será que ensinar o gesto técnico dissociado do jogo (seja de handebol, seja de jogos de bolas com as mãos, seja de jogos coletivos de maneira geral) nos possibilita transferir as aprendizagens para o jogo?

Será que ensinar jogando e ensinar pela técnica combina? Não há problemas nisso? Não parecem idéias antagônicas?

Fica a questão.

Bibliografia

GARGANTA, Júlio. Para uma Teoria dos Jogos Desportivos Coletivos. In. Graça, A. & Oliveira, J. (Eds.). O ensino dos Jogos Desportivos. Centro de Estudos dos Jogos Desportivos. FCDEF-UP. Porto. Portugal, 1995.

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7 comentários sobre “Analisando e Respondendo à Enquete do Site – Ensinar pela Técnica, pelo Jogo, ou por Ambos?

  1. muitas vezes a busca do resultado (garantia de continuidade no emprego)faz com que muitos tecnicos principalmente de base atropele muitos movimentos basicos para o desenvolvimento por completo e busca nos gestos tecnicos um resultado mais imediato. Mas com certeza um campeão mirim não vai ser um campeão adulto. gostei de suas considerações abraço saudações (handebol é o nosso esporte)

  2. “Mas com certeza um campeão mirim não vai ser um campeão adulto.” …como disse a colega acima! Discordo!

    “Com certeza” não podemos afirmar que jogadores de Handebol mirim serão jogadores de Handebol Adulto, assim concordo.

    Aqui em SP temos muitos casos em que diversos bons jogadores mirins são também bons jogadores adultos, e campeões. O assunto é mais complexo.

    Trabalho com “jogos” e “parte técnica” e continua “dando certo”, todos conhecem o jogo de Handebol, se divertem e são campeões mirins, infantis, etc, etc.
    Exemplo de jogo totalmente ligado a Handebol: pique bandeira; com diversos tipos de variações, exemplo: com bolas para driblar, com bolas para levar em vez de “bandeira”, podendo passar aos companheiros de equipes, com obstáculos pelo campo (cones) onde não se pode bater nos cones, etc. Está errado!?

    Mas e se não quiserem mais jogar!? Param e vão fazer violão, natação, basquete, bateria, etc.

    O que é “dando certo”?! Eles escolhem a modalidade que querem participar; participam ativamente, com interesse e continuidade na modalidade até as séries finais na escola; e com um pouquinho mais de dedicação, até final do ensino superior.

    Trabalho em uma escola particular com um bom leque de escolha para esportes e atividades, os alunos fazem vários desses itens. Sei que não é a realidade de todos, mas também utilizo materiais alternativos para aulas, treinos e jogos, tais como: pneus, colchões, tapetes “velhos” como goleiros, etc.

    Não vejo “erro” nisso!

    Há?

  3. Olá Sérgio, excelente comentário. Há tempos aguardo nesse espaço a discussão sobre a prática que cada um de nós vive. Gostaria que mais pessoas pudessem colaborar com a discussão, e pudessem contribuir com mais conhecimento do dia-a-dia nas quadras de todo o Brasil.
    Abraços,

  4. Caros colegas, professores (tecnicos), apaixonados pelo esporte e com o don de ensinar. Foi com muito prazer que acessei esta pagina e li a enquete: ” Ensinar pela tecnica, pelo jogo , ou ambos?” – nao participei da enquete , mas e um tema que muito me atrai…
    Bom , eu acredito que quando vc procura viabilizar um conjunto de comportamento motor, de respostas motoras, de percepcao espacial, temporal, etc…. voce esta a caminho de garantir o sucesso deste aluno no esporte.
    Existem realmente muitos estudos que comprovam que a maturacao precose nao garante o sucesso a longo prazo e vice-versa.
    Mas nos professores, temos sim que nos preocupar com a formacao global, atraves de muitos jogos, jogos adaptados, habilidades diversas e ter calma quanto a tecnica, pois ela e consequencia desta maturacao de movimentos. Em paises europeus , onde a modalidade e muito popular, as criancas aprendem handebol , antes mesmo de Jogar Handebol, pois vivenciam praticas corporais que serao agregadas ao jogo.
    Vcs lembram como a Paula do basquetearremessava..??? ,
    nao dava para dizer que tecnicamente seu arremesso era perfeito…. no entanto seu dominio espacial, sim !!!
    Quero concluir afirmando que ambos sao importantes, temos que realmente incentivar a pratica da modalidade e promover muito prazer!!!! Maos a obra e boa sorte.

  5. “quando falo que um campeão mirim não vai ser um campeão adulto” quero me referir a aquele que foi acelerado, que teve as valências fisicas (correr, saltar, lançar…) queimadas, e sim somente preparado para o arremesso por ser grande e forte e que ao chegar no adulto, esses movimentos básicos irão fazer falta. Concordo que temos muitos campeões mirins que hoje são adultos e campeões,mas os que foram trabalhados por completos…. os acelerados são poucos….

  6. Treino uma equipe heterogênea no tocante a técnica e demais aspectos do handebol, uso como metodologia dividida em quatro aspectos : a resistencia cardioresporatória e muscular, fundamentos, sistemas/tática de jogo e o coletivo, e mesmo com a diferenca de hablidades e de tempo de prática entre os atletas consigo fazer um treino com objetividade e motivação nivelando o treino para todos.
    E tenho observado o evolucao de meus jogadores de forma global.
    Observe que mesmo ele(a) não se tornando um jogador profissional ele levará consigo a bom condicionamento físico, a velocidade do tempo de reação e seu sistema musculo-esqueletico apto para exercer qualquer função no trabalho e o mesmo será saudavel que é fator importante na qualidade de vida do individuo.

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