Como pensar a formação de um jogador de Handebol III – 13 a 14 anos

Seguindo com os artigos que falam sobre a formação de um jogador de handebol, falaremos agora sobre como pensar a formação de jogadores de 13 e 14 anos, que já estão adentrando ao período de especialização esportiva.

Gostaria, porém,  de esclarecer um ponto.

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Não penso que devemos nos empenhar única e exclusivamente na formação de um jogador focando o alto-rendimento como único caminho a ser alcançado nesse processo.

De acordo com Greco (1997, p.24), existem algumas fazes que devem ser pensadas durante o processo de formação esportiva de qualquer pessoa e gostaria de destacar aquilo que o professor Greco chama de Fase de Recreação/Saúde. (Figura abaixo)

greco-fases-de-formacao-do-jogadorNesse esquema descrito à cima, essa fase passa a ser uma preocupação após os 16 anos de idade, pois é o período em que começam a se definir o caminho de ser ou não um jogador de handebol (ou de qualquer outro esporte).

Acredito, porém, que essa característica deve ser parte presente em todo o processo de iniciação e especialização esportiva.

Já aos 10, 11 e 12 anos, a possibilidades de acesso à prática esportiva descomprometida com a única e exclusiva necessidade de “formar” o futuro jogador deve ser pensada, até mesmo em ambientes de “formação esportiva”.

Logo, ainda aos 13 e 14 anos de idade conciliar os objetivos esportivos de formação e de educação propriamente dita é necessário e viável.

Logicamente que ao passar dos anos, o esporte torna-se mais profissional para alguns poucos que decidem seguir esse caminho, isso não exclui a necessidade de formação e educação do cidadão que treina e joga, porém, a necessidade de render esportivamente passa a ser a maior preocupação desse período.

Muitos diriam, impregnados por uma visão biologicista em demasia: “Isso é natural de qualquer processo que inclua uma espécie de seleção”.

“Muitos começam, e poucos chegam ao final, essa é a lógica da formação esportiva”.

Digo, porém, que a frase deveria ser: “Muitos começam, e todos devem chegar aos vários finais desse processo de seleção”.

Ou seja, pode haver um fim que seja jogar em “alto-rendimento”, outro que seja “jogar por recreação e livre adesão à prática esportiva”, outro pode ser “não necessariamente jogar, mas gostar do esporte e ter prazer em sua fruição (assisti-lo, compreendê-lo criticamente)”, além de outros tantos fins que a formação esportiva poderá ter.

Dessa forma, atesto nesse espaço virtual a preocupação do professor Greco ao descrever que deve ser pensado o período de Recreação/Saúde enfatizando que ainda na fase de iniciação (10, 11 e 12 anos) e período de transição para a especialização (13 e 14 anos), ambas as idéias – formar o atleta e educar o cidadão para gostar do esporte – devem caminhar juntas de maneira indissociável umas da outras.

Essas idéias entram em consonância com aquilo que o professor João Batista Freire no livro Pedagogia do futebol destaca, parafraseando-o ao pensar o handebol, como nossos deveres enquanto professores:

  • Ensinar handebol a todos na iniciação (idéia de inclusão);
  • Ensinar bem handebol a todos (a questão da competência pedagógica);
  • Ensinar mais que handebol a todos (a ética profissional);
  • Ensinar a gostar de handebol/esporte (princípio do prazer e da qualidade de vida);

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Continuando com a idéia central desse artigo, o que devemos pensar quando temos em nossa mão um grupo de jovens entre 13 e 14 anos.

Bem, tudo depende do nível de compreensão do jogo que o grupo de maneira geral possui (lembrar nos níveis de compreensão do jogo, clique aqui). Claro que esperamos ter em nossas mãos jovens que, quanto mais velhos estiverem estejam mais preparados para jogar o handebol o mais formal possível.

Porém, além de idade devemos levar em consideração as experiências anteriores que nossos alunos têm em relação à pratica de jogos esportivos ou não-esportivos.

Considerando que nossos alunos de 13 e 14 anos estão dentro de nosso processo de formação embasado nas idéias descritas anteriormente (clique aqui), podemos hipoteticamente imaginar que nossos jogadores, através de um processo de ensino baseado nas idéias da família de jogos de bolas com as mãos e da família de jogos coletivos com e sem alvos (veja mais sobre eles aqui), já estarão aptos a transcenderem para um nível de compreensão do jogo de maneira estruturada e elaborada.

Ou seja, espera-se que aos 13 e 14 anos nossos alunos sejam capazes de executar funções específicas dentro dos jogos (mesmo sem a preocupação de haver uma especialização já formal em postos específicos do jogo), isso significa dizer que conceitos de auto-organização (estruturar bem os espaços do jogo, comunicar-se na ação de maneira não mais verbal, mas compreendendo as ações de outros jogadores de maneira coletiva – as chamadas respostas) já estão bem maduros e mesmo que um jogador que tipicamente joga como armador, pode, por auto-organização do jogo, acabar jogando como um pivô ou ponta, sem que haja uma pré-organização estabelecida de “quem faz o que” no jogo.

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Um aspecto importante, porém, nessa fase, é a especialização do goleiro, pensando em sua atuação exclusiva no gol. Os jogos para goleiros passarão a fazer parte do cotidiano desses jogadores, além, claro, de estimulá-los a aprender a se auto-organizar no jogo quando for necessário fazer funções de jogadores de quadra.

Isso é comum quando jogamos, por exemplo, contra uma equipe que realiza marcação mista.

O goleiro atuar como jogador de quadra nos garante a composição numérica em superioridade com a defesa adversária e mesmo que seja arriscado jogar assim, é um fator de incomodo ao time adversário que não terá um benefício imediato com a ação defensiva individualizada em um de nossos jogadores.

É um caso a se pensar, mas só possível se nossos goleiros forem especializados como realmente um goleiro deve o ser, sabendo jogar o handebol em sua totalidade, e não apenas debaixo das traves (ver mais aqui).

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Essas características de jogo auto-organizado nos garantem a polivalência funcional dos jogadores dentro da quadra, isso significa que eles saberão como “se virar” nas mais diferentes situações que o jogo lhes oferecer.

Isso garante que possamos, a partir dessa idade, explorar com mais ênfase as ações táticas coletivas (ou de equipe), ou seja, aquelas que demandam relações entre os vários jogadores da equipe em prol do ganho comum.

As ações táticas coletivas (ou de equipe), incluem os cruzamentos, as trocas de posto (cruzamento sem bola), as quedas de pivô dos jogadores de armação e pontas e recuperações como armadores de jogadores de pontas e pivôs (que são também trocas de posto), o engajamento com diversas variações (pra dentro, pra fora, reto, em fixação par, ímpar ou par-ímpar), a potencialização das tabelas (passe-e-vai) em suas variadas possibilidades, como o passe e vai falso, onde o jogador que receberia a bola depois de passá-la se projeta para recebê-la, mas não a recebe, chamando a atenção dos marcadores e liberando outro jogador para estar livre momentaneamente para a execução da jogada, entre outros.

Isso significa que uma nova família de jogos deve surgir nesse período de formação: uma família de jogos mais específica com a modalidade, pensando realmente na formação de conhecimentos do handebol.

Logo, além de jogar com “jogos de bolas com as mãos” e “jogos coletivos com e sem alvo” (inerentes ao período de 10 a 12 anos), uma subfamília que interage com ambas deve ser inclusa nesse período do processo: a “família de jogos situacionais do handebol”.

Ou seja, a especificidade com a modalidade deve aumentar, mas não necessariamente ser hegemônica nos treinos. Os jogos de meia quadra, um quarto de quadra, jogos de 3×3, 4×4, jogos de contra-ataque, jogos de superioridade e inferioridade numérica e etc.. devem ser muito enfatizados, utilizando das regras formais do handebol o ponto principal para a execução desses jogos, para que eles sejam fundamentados na modalidade específica que pretendemos ensiná-los.

Isso ainda deve co-habitar com jogos mais gerais, típicos dos jogos da fase anterior de aprendizagem, capazes de criar demandas de aprendizagens mais genéricas e diversas, o que potencializará nossos alunos a manterem consigo estimulá-los que possuem semelhanças e diferenças com o handebol formal, potencializando a criatividade e a resolução de problemas os mais variados possíveis, que muitas vezes não são corriqueiros no handebol, mas que mesmo assim, podem trazer muitas melhoras nas ações circunscritas no jogo de handebol propriamente dito.

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Um trunfo muito importante nessa fase de especialização é desenvolver as habilidades individuais dos nossos alunos, como fintar, deslocar-se, desmarcar-se, marcar corretamente as trajetórias e os espaços adversários, transitando essas habilidades para os seus desdobramentos coletivos, fundamentados nos ganhos de superioridade numérica momentânea durante o jogo.

Saber fintar bem pode garantir, por exemplo, que o aluno utilize-se dessa habilidade para criar situações de superioridade numérica momentânea, pois o fato de tentar usar a finta poderá criar uma demanda de 2 jogadores procurando pressioná-lo para interceptar sua ação, o que possibilitará que um jogador co-ligante (próximo a ele) se beneficie com essa sua ação que parece ser meramente individual, mas que na verdade tem grande reflexo nas ações coletivas da equipe.

Logo, jogos que enfatizem a criação de situações em superioridade numérica são importantíssimos de serem enfatizados nesse período, não apenas sob a lógica da família de jogos situacionais, mas também na família de jogos de bolas com as mãos e de jogos coletivos com e sem alvo.

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Pensando nas ações defensivas, transitar das defesas individuais e por aproximação também será algo que ocorrerá de maneira praticamente autônoma.

A defesa por aproximação facilita em muito a percepção de que se torna mais fácil defender tendo como principal foco de atenção proteger uma dada região da quadra do que ficar correndo atrás de um jogador adversário que está atacando.

Logo, a transição da defesa por aproximação para os conceitos defensivos em zona, deverá respeitar um fator bastante relacionado à estrutura de organização ofensiva.

Torna-se mais fácil e didático ensiná-los a marcar em zona, iniciando por zonas mais altas, como o 3:3, 3:2:1, 4:2, 2:4, 1:5, ou seja, se o ataque geralmente ainda não explora tanto as zonas das pontas, porque deixar um marcador lá, marcando uma zona sem ninguém nela? Ao temos armadores que geralmente serão 3 ou 4, dependendo da auto-organização ofensiva da equipe, por que deixar nossos alunos plantados em linha de 6 metros se eles podem organizadamente marcar mais próximo desses atacantes em uma linha de defesa zonal mais adiantada?

Isso facilita certa individualização da marcação, aproximando-se muito de uma defesa por aproximação, mas cujas orientações sejam feitas pensando na sua organização zonal (saiba mais sobre jogos de defesa em zona clicando aqui)

Logo, aos 13 e 14 anos, o handebol formal passa a ser uma das ênfases do processo de ensino-aprendizagem, porém, ainda não podemos pensar na especialização precoce de nossos jogadores e muito menos que o handebol que eles são capazes de jogar será o handebol do adulto e do alto-nível.

Haverá demandas que ainda terão de ser consideradas. A adaptação de regras em competições oficiais, por exemplo deverá ser uma delas. Marcar em zona baixa é algo desprovido de lógica para essa faixa etária, é como mandar os alunos fazerem algo que não entendem o porquê, ainda.

Possibilitar que os goleiros arrisquem-se jogando na quadra também não é um absurdo total, pois goleiros bons jogadores na quadra poderão ser um trunfo para sua equipe, ou mesmo um fator que poderá dar maior longevidade ao seu aluno, que por ventura pode não querer mais ser goleiro.

Artigos Relacionados

  1. Como pensar a formação de um jogador de Handebol I – Disposições Preliminares
  2. Como pensar a formação de um jogador de Handebol II – 10 a 12 anos

    Referências Bibliográficas

    GRECO, Pablo Juan I.D.U. Fase Central do Sistema de Formação e Treinamento Desportivo. In: GRECO, P.J.; SAMULSKI, D.M.; JÚNIOR, E.C. Temas Atuais em Educação Física e Esportes. Belo Horizonte: Health, 1997. p.13-32.

    FREIRE, João Batista. Pedagogia do Futebol. 2.ed. Autores Associados, 2003.

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