Como pensar a formação de um jogador de Handebol II – 10 a 12 anos

Na iniciação, aos 10/12 anos aproximadamente, dificilmente teremos a possibilidade de encontrar um grupo capaz de jogar o handebol de maneira elaborada, quase sempre se caracterizando como um grupo que se encontra numa fase de jogo anárquico (sobre o jogo elaborado e anárquico, clique aqui) – por suas questões físicas, cognitivas e por experiências anteriores já vividas em jogos coletivos e no próprio handebol de maneira mais específica.

Logo, o jogo, nessa etapa tem como característica a centração na bola, excesso de verbalização para pedir a bola, independente de o jogador que pede a bola esteja em boa ou ruim condição de jogo, e a visão do jogo centra-se na relação com a bola (características anárquicas).

Essa característica, ao longo do planejamento de ensino do handebol para esses alunos, deve ser superada, buscando que os alunos possam jogar o handebol de forma mais desenvolvida, ou seja, com maior organização espacial, mas ainda sem uma especialização em posições do jogo, que a verbalização diminua, mas que quando ocorrer, seja para uma boa resolução dos problemas do jogo, e que a visão do jogo passe a se descentrar da bola (característica de um jogo em fase de descentração),  seguindo, assim, as idéias apresentadas por Vygotski, sobre a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZPD), havendo sempre estimulos para que os alunos superem seus conhecimentos atuais e adapetm-se a novas possibilidades de jogo. – saiba mais aqui.

Assim, os jogos nessa fase de aprendizagem devem conter estímulos para além do jogo meramente centrado na bola, muito verbalizado e essencialmente aglomerado, pois devemos sempre pensar na evolução – adequada – de nossos alunos para a compreensão dos elementos do jogo.

Dessa forma, observa-se que apesar da capacidade de compreender a lógica específica da modalidade ser algo bastante difícil para um grupo nessa faixa etária (e nessa fase de aprendizagem) pela prórpia capacidade de jogo que eles apresentam, a compreensão dessa lógica é um dos objetivos do processo de ensino-aprendizagem, pois isso é que garante que a aprendizagem ocorra: buscar novos desafios a serem enfrentados e resolvidos.

Assim, quando falamos na iniciação ao handebol, uma das principais armas pedagógicas é proporcionar para eles um ambiente rico de problemas a serem resolvidos circunstanciados com o contexto de jogos que enfatizem habilidades individuais (relação com a bola, as fintas, as habilidades técnicas) e de grupo (jogar com mais um ou dois colegas, de forma que a ação entre eles beneficiem esse grupo), cujas resoluções criarão novas demandas, cada vez mais complexas e que proporcionarão maior aprendizado, a cada aula e a cada jogo vivido em nossas aulas.

Nessa fase, esses jogos podem ser divididos em duas grandes famílias a serem muito exploradas como ferramentas pedagógicas:

  1. A família os jogos de bolas com as mãos – na qual também se inclui o próprio jogo de handebol e que se caracteriza como uma família de jogos bastante específica com o ensino do handebol em si; e
  2. A família de jogos coletivos com e sem alvos – que além do handebol, envolve outras modalidades coletivas esportivizadas – o basquete, o vôlei, o futebol e etc.. – e não esportivizadas – jogos de 2×2 com as mãos e um alvo, jogos mistos entre basquete e handebol, jogos sem alvo, jogos de perseguição em grupos, jogos de perseguição com bola, jogos de vários alvos e etc..

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Jogar outras manifestações de jogos, que não necessariamente tenham relação direta com o handebol enquanto gesto técnico e até mesmo sua lógica, faz parte do período de aprendizagem desses alunos já que seu nível de compreensão do jogo ainda não possibilita torná-los pequenos jogadores de handebol, fator tradicionalmente observado no ensino da modalidade.

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Podem ser explorados jogos com número menor de jogadores, como 3×3 no qual haja maior dependência dos jogadores entre si para resolver os problemas nele encontrados. Também joguinhos de estratégia de grupo, como pega-ajuda com bola, no qual os alunos pegadores devem passar a bola entre si para poderem pegar um determinado amiguinho, ou mesmo um jogo no qual as bolas devem ser passadas para livrar um fugitivo de ser pego.

Deve-se, também, ser explorado o próprio handebol, pois ele serve como termômetro do desenvolvimento do grupo ao longo do processo de formação planejado.

Dentro dessa perspectiva, a tendência é de que o jogo passe a se descentrar da bola, que alguns jogadores comecem a correr em direção ao alvo, exclusivamente para receber a bola e marcar gol e que para marcá-los, alguns defensores corram para proteger o alvo e sigam esses jogadores.

A importância de jogar com os coleguinhas também começa a surgir, mas ainda há certo grau de desorganização quanto às funções a serem executadas no jogo. Isso significa dizer que não existe na lógica de desenvolvimento dessa etapa de aprendizagem a necessidade de definir armadores, pontas e pivôs, pois ainda não existe lógica nesse tipo de organização para os alunos. Eles ainda precisam explorar jogar mais a vontade, mas sempre havendo, por parte do professor/treinador, a preocupação em fazê-los perceber a melhor forma de preencher os espaços do jogo.

Devido a essa característica desfocada da especialização em postos do jogo, também vale a pena explorar que o goleiro não é apenas um jogador que fica na área exclusivamente, mas que também é um jogador de linha, através de jogos que encorajem o goleiro a sair da área e jogar na linha, como pequenos jogos adaptados no qual o gol de goleiro valha 2 pontos, por exemplo (saiba mais sobre jogos pra goleiro clicando aqui).

Vale também,  permitir que os alunos explorem a idéia de ficarem longe de sua área para defender, pois ainda há grande centração na bola para se jogar  e isso é válido para essa idade e deve deixar ser bastante explorado, porém,  a evolução do grupo permitirá o surgimento de jogadores que ficam somente no ataque, e questioná-los e se é bom deixá-los ou não livres é importante, bem como argumentar se é bom só ficar no ataque e não ajudar a defesa.

Sob a lógica estratégica, significa dizer que o jogo de defesa individual passa a co-habitar com jogos de defesa por aproximação, no qual o objetivo de defender não seja apenas correr atrás de um jogador atacante, mas que para defender, os jogadores defensores se preocupem em proteger seu alvo, e desloquem-se menos em função dos adversários, mas organizem-se realizando trocas de marcação quando seus “adversários diretos” fogem deles, optando em proteger o alvo sem se deslocar demasiadamente (saiba mais lendo o texto sobre jogos de defesa individual, clicando aqui).

E por se tratar de um período de iniciação, definir sistemas de jogo defensivo – defender em 5×1, 6×0 e outras, e ofensivos – atacar em 3×3, 4×2, 5×1 e etc.. – pode ser desnecessário, porém, pensando na evolução da aprendizagem deles, alguns jogos adaptados que estimulem a organização defensiva e ofensiva de forma estrutural (ou seja, pensando jogadores realizando funções específicas) pode ser abordada, mais com o viés de vivência, do que de conteúdo a ser assimilado nessa fase.

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A organização defensiva, geralmente, é abordada já na iniciação com a organização da famosa “barreirinha” e muitas vezes os alunos ao serem estimulados assim, não sabem que podem se deslocar à vontade pela quadra para marcar, criando a ilusão de que se joga handebol defendendo em barreira, como se isso fosse uma regra do jogo. Nessa fase de iniciação (10 a 12 anos) como ainda há centração no jogo de defesa individual e tendência de aprenderem a fazer trocas defensivas nesse tipo de marcação (marcação por aproximação), ensiná-los a fazer “barreirinha” é limitar sua aprendizagem sobre a lógica do jogo.

Veremos nos conteúdos inerentes ao grupo de 13 e 14 anos que o ensino defensivo em zona passa a ser uma realidade (defender em barreira é uma espécie de defesa em zona), mas a barreira – na verdade algo muito mais complexo, chamado de defesa 6:0, no qual os 6 jogadores ficam próximos da área e nenhum longe dela – deverá ser uma das últimas variações de aprendizagem defensiva a ser pensada.

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São muitas essas possibilidades de atividades e jogos nessa fase da formação do jogador de handebol, pois há grande liberdade de atividades a serem planejadas, fator que pode tanto auxiliar professores criativos, a criarem aulas com estímulos variados, porém, organizados, quanto de dificuldade para o planejamento, devido à grande gama de possíveis jogos a serem explorados.

Resumidamente existem pontos que devem ser destacados, quando falamos dessa primeira etapa da iniciação, que são:

  • Devemos perceber que existe um handebol possível de ser jogador para essa faixa etária, e é um grande erro forçá-los a jogar um jogo ainda não compreensível para eles, principalmente quando o abordamos de maneira mecânica e técnica. Para isso, temos como possibilidade observar nossos alunos jogando e perceber por meio de análises das relações entre os indicadores dos níveis de jogo – a comunicação na ação, a relação com a bola e a estruturação de espaço – como se desenvolve a evolução do grupo enquanto aos aspectos lógicos do jogo.
  • A melhor forma de tornar nossos alunos capazes de melhorar seu nível de compreensão do jogo é estimulando-os a jogar diversas manifestações de jogos de grupo e coletivos, que podem ser divididos dentro de uma família mais específica da modalidade (a família de jogos de bolas com as mãos) e outra família mais geral, porém, cuja lógica básica dos jogos não precisem se assemelhar tanto ao jogo de handebol (família de jogos coletivos com e sem alvo).
  • Jogando, nossos alunos serão estimulados a resolver problemas circunstanciados em ambientes de jogo, criando novas possibilidades de resolução desses problemas, fator que potencializará a transferência de aprendizagem para o momento de jogo de handebol.
  • Ter no jogo de handebol o termômetro de desenvolvimento do nível de jogo de nossos alunos, pois ele é nossa principal meta do processo de ensino-aprendizagem, logo, jogar handebol possível de ser jogado por eles (que envolva a liberdade de organização defensiva, tendendo de uma defesa individualizada para uma defesa por aproximação e organização ofensiva sem postos específicos, mas possibilitando que os jogadores se distribuam no campo de jogo, sempre dando feedbacks para que seja uma organização equilibrada), é muito importante nesse período do processo de formação de nossos alunos.
  • Não é necessário ater-se a sistemas de jogo ofensivo e defensivo, devemos deixá-los explorar ao máximo as possibilidades do jogo. Ensinar a defender em zona será um passo para uma próxima etapa de aprendizagem, porém, isso não significa que se deve criar jogos de lógica defensiva em zona, mas isso não significa que os alunos dessa faixa etária tenham necessariamente que já saber jogar assim.

O próximo texto abordará conteúdos inerentes à formação de jogadores de 13 e 14 anos, a categoria infantil, de acordo com a classificação da confederação brasileira de handebol.

Artigos Relacionados

  1. Como pensar a formação de um jogador de Handebol I – Disposições Preliminares
  2. Como pensar a formação de um jogador de Handebol III – 13 a 14 anos

    Bibliografia

    GARGANTA, Júlio. Para uma Teoria dos Jogos Desportivos Coletivos. In: Graça A e Oliveira J (Eds.). O ensino dos Jogos Desportivos. Centro de Estudos dos Jogos Desportivos. FCDEF-UP. Porto. Portugal, 1995.

    SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003. [clique aqui]

    SCAGLIA, Alcides José. O que as crianças de 8 e 9 anos devem aprender numa escola de futebo. Cidade do Futebol, 2008. [clique aqui]

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