O JOGO II – O Jogo como um fenôneno Complexo

No artigo anterior, citei o inevitável encontro que um novo pensamento, pautado no entendimento dos fenômenos a partir da complexidade, quando pautado em relações de ensino-aprendizagem, terá com o JOGO!

Fiz uma breve explanação sobre um antigo modo de ver as coisas, pautado numa visão fragmentada, a qual acredita que para a compreensão de algo complexo, suas partes devem ser aprendidas isoladamente, a partir da crença de que através da união dessas partes aprendidas fragmentadamente, tornará possível a aprendizagem do todo.

Destaquei isso, justificando, como nossas escolas repartem o saber universalmente produzido em diferentes disciplinas, essas ensinadas de maneira isolada. Quantos de nós muitas vezes não nos perguntamos: por que aprender equação de segundo grau?

Esse questionamento surge, pelo fato de não conseguirmos fazer as conexões possíveis entre as partes aprendidas e o todo que pretendem nos fazer compreender, já que as partes ensinadas, em nada “conversam” com o todo.

Fazendo um paralelo com o ensino do handebol, podemos fazer a seguinte analogia: “Ao ensinarmos handebol, nos pautamos tradicionalmente nos gestos técnicos isolados da modalidade – o passe e suas limitadas variações, o drible, o arremesso, o difícil ritmo trifásico (decompondo em partes para depois somá-los e percebermos que mesmo assim o aluno ainda não entendeu o que ele significa), o encaixe defensivo, e assim por diante – e no fim da aula, ou de um longo processo de assimilação desses vários gestos técnicos, colocamos nossos alunos para jogar, baseado na premissa de que, o todo é a soma das partes aprendidas isoladamente, tudo isso, com base nos respaldo “cientifico” da visão positivista – entre aspas, pois para muitos, o ensino tradicional sequer é estudado, mas apenas reproduzido, ou seja, há apenas indução, e não ciência nesse fato -, tão recorrente em todos os processos educativos, corporativos, produtivos e etc.

Com esse modelo de ensino, no qual o jogo – geralmente realizado de maneira formal, através do handebol propriamente dito – é apenas uma fonte de aplicação da aula – e geralmente, motivo de barganha: “se fizerem a aula direitinho, dou jogo no final” – fazemos com que o principal momento de aplicação dos conteúdos do handebol seja minimizado a um apêndice da aula, com menor valor.

Isso se justifica pelo fato de ser o jogo muito confuso e praticamente incontrolável aos olhos do professor, sendo assim, desconsiderado como uma forma passível de estudo para os processos de aprendizagem, já que se torna difícil controlar as variáveis do jogo, em prol da excelência técnica do aluno.

Porém, é exatamente por essas características do jogo  que podemos considerá-lo uma ferramenta magnífica para a aprendizagem do aluno. Isso garante ao jogo o status de um fenômeno dotado de complexidade, algo possível sim, de ser estudado e compreendido.

Vocês devem se questionar: “Como é possível estudar o JOGO, algo caótico, sem padrão, sem controle?”

Ora, se você percebe o jogo como um ambiente caótico – e sim, ele o é – isso não significa que ele não tenha uma ordem.

Estudos sobre os sistemas dinâmicos, por exemplo, mostram que apesar de não haver uma linearidade na evolução de um sistema caótico (o jogo, por exemplo), esse fator é que trás a ele um padrão singular, sendo, inclusive, capaz de ser formulada uma equação não-linear que represente como será a evolução desse sistema caótico. Segundo Rippel e Rech, isso significa que “(…) tornou possível trazer ordem ao caos.”

Logo, ao categorizarmos o jogo como sendo um fenômeno caótico estamos, segundo novas pesquisas, afirmando que mesmo assim ele possui uma ordem específica e singular a cada manifestação do jogo. Cada jogo é um sistema caótico, complexo, logo, cada jogo possui em si uma ordem, mesmo perante a uma aparente desordem.

O Jogo também se caracteriza pela sua imprevisibilidade, uma vez que por mais que estratégias sejam traçadas inicialmente, e por mais que aparentemente essas estratégias estejam surtindo efeito durante um jogo, qualquer mudança promovida sobre essa estratégia – advinda, por exemplo, das interações da equipe adversária –  poderá fazer com que haja mudanças muito grandes no desenvolvimento do jogo, ao ponto de, inclusive, a estratégia inicialmente aplicada descaracterize-se, fazendo com que a equipe que antes tinha o “domínio” do jogo através de sua estratégia inicial, possa sofrer uma derrota incontestável, seja no placar final do jogo, seja no conceito de “domínio” do jogo.

Ao refletirmos dessa forma, podemos ir além: “Como pode um ambiente imprevisível, então, ser uma ferramenta de aprendizagem?”

E se eu afirmar, categoricamente que, apesar de haver imprevisibilidade, há nele também a previsibilidade?

Pois, se o jogo fosse somente imprevisível, como seria possível uma equipe organizar-se para jogar contra outra?

Isso só pode ocorrer devido a certo grau de previsibilidade que há no jogo, grau esse, porém, que convive harmoniosamente a imprevisibilidade do jogo, graças à perspectiva dialógica presente nos sistemas complexos, conforme destaca Fiedler-Ferrara (2003), baseado em estudos de Edgar Morin, perspectiva essa que nega a exclusividade entre conceitos antagônicos, de forma que somente esse antagonismo – previsibilidade e imprevisibilidade, por exemplo – é que permitem compreender na totalidade um sistema dotado de complexidade.

Ao pensarmos que o jogo de handebol possui, então, aspectos previsíveis – como, por exemplo, o fato de uma equipe buscar o gol adversário, através da progressão dos seus jogadores, com a manutenção da posse da bola (BAYER, 1992) – também podemos inferir que há nele a presença da imprevisibilidade. Basta refletirmos o fato de que contra uma equipe que ataca, há sempre uma equipe se defende.

Logo, a essa progressão, existe em contrapartida, uma ação para impedi-la; em relação à manutenção da posse da bola, há também a busca, por parte da equipe que defende, em recuperá-la, para poder ser atacante; e para a ação de finalização ao gol, a equipe adversária irá criar estratégias e ações táticas que atrapalhem essa finalização, defendendo seu alvo.

Algo, que num primeiro momento parecia determinado, passa a ser concomitantemente, uma indeterminação. Digo concomitantemente, porque, apesar de todos os enfrentamentos que a equipe adversária faça e que caracterizem a aspectos imprevistos no jogo, há ainda uma linha que deve ser seguida: manter a posse da bola, progredir em direção ao alvo adversário e finalizar a gol, logo, uma estratégia determinada.

Previsibilidade e imprevisibilidade, ordem e desordem, harmonia e caos. Todos juntos, num mesmo fenômeno – o handebol.

Ora, e se o handebol possui todas essas características, podemos reduzi-lo ao gesto técnico para ensiná-lo? Ou mesmo à suas partes, mesmo quando pensamos nas movimentações táticas ensinadas fora de seu contexto de jogo?

O gesto técnico e as noções táticas ensinadas através do reducionismo que é feito do jogo sob a perspectiva tradicional, acaba por descaracterizar, tanto a modalidade esportiva que se está ensinando, quanto descaracterizando o próprio gesto/tática ensinados, uma vez que estes são ensinados sem seu contexto – o JOGO em si!

Concluo, portanto, esse artigo, ressaltando que, por ser o handebol um jogo dotado de complexidade (caracterizada por tantos antagonismos presentes simultaneamente num mesmo fenômeno), o gesto técnico e os aspectos táticos ensinados “des”complexados, ou seja, descontextualizados do complexo jogo, ensina tudo, menos o gesto do jogo e as noções táticas.

Jogar handebol, portanto, é uma das principais formas para se aprender o próprio handebol, já que ele representa a totalidade desse determinado jogo, porém, não é a única forma dele ser ensinado.

Jogar handebol é bom, mas não é o suficiente para aprendê-lo competentemente. Jogar, porém, é sempre bom, e basta-se em sua auto-suficiência.

Cabe agora entendermos melhor o conceito geral do que é jogo. Mas, isso fica para o próximo artigo.

Referências

  1. BAYER, Claude. La Enseñanza de los Juegos Deportivos Colectivos. 2. ed. Barcelona: Hispano Europea, 1992.
  2. FIEDLER-FERRARA, Nelson. O pensar complexo: construção de um novo paradigma. Conferência convidada apresentada no XV Simpósio Nacional de Ensino de Física. Curitiba (publicada nos anais do evento), 2003.
  3. FREIRE, João Batista. Investigações preliminares sobre o jogo. Campinas: Faculdade de Educação Física – UNICAMP (Tese de livre docência), 2001.
  4. FREIRE, João Batista.  O Jogo, entre o riso e o choro. São Paulo: Autores Associados, 2002.
  5. GARGANTA, Júlio. Para uma Teoria dos Jogos Desportivos Coletivos. In: Graça A e Oliveira J (Eds.). O ensino dos Jogos Desportivos. Centro de Estudos dos Jogos Desportivos. FCDEF-UP. Porto. Portugal, 1995.
  6. GARGANTA, Júlio. O Ensino dos Jogos Desportivos Colectivos. Perspectivas e Tendências. Int Movimento, ano 5, 8: 19-27, 1998.
  7. MORIN, E. “A inteligência da Complexidade” 2 ed. São Paulo: Peirópolis, 2000.
  8. SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003.
  9. RIPELL, Jair e RECH, Simone. Teoria do Caos – Atratores Estranhos. Disponível em: hermes.ucs.br/ccet/deme/emsoares/esac_2004_4/artigos/teoria_caos.doc
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3 comentários sobre “O JOGO II – O Jogo como um fenôneno Complexo

  1. Caríssimo, recomendo-lhe mais leitura sobre Jogo e Caos. Gosto do que escreves mas caiste na armadilha de reproduzir o comum.
    Esses temas já avançaram em conteúdo teórico e prático. Sugiro-lhe outras leituras, algumas até básicas, fora e dentro do esporte sobre esse tema.
    Cuidado quando escrever o que não dominas com profundidade porque um leitor como eu cria expectativa e já havia criado pelos seus textos.
    Esses infelizmente deixaram a desejar.
    Leias mais!

  2. Olá Marcelo,

    Obrigado pelo comentário.

    Encaminhei um e-mail para você, gostaria de conversar mais com vc! Quem sabe até a me ajudar a compreender melhor tais visões.

    Aguardo respostas pelo e-mail!

  3. Olá, achei muito pertinente seu texto e gostaria de saber se posso adaptar seu texto para o futsal e postar em um site de futsal ? com seu nome como autor é claro !!

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