O JOGO I

Após aprofundar alguns textos falando sobre o handebol em seus aspectos defensivos (ver aqui) e ter voltando a falar sobre a iniciação ao goleiro do handebol (ver aqui), volto a escrever sobre um dos principais motivos desse espaço existir: a utilização do JOGO como ferramenta pedagógica para o ensino do handebol.

Em oportunidades anteriores, destaquei algumas mazelas do método tecnicista, enfatizando-o como uma metodologia ultrapassada e inaplicável hoje, num modelo de sociedade que começa a acordar para a real necessidade de valorização das relações humanas e que vem evidenciando as noções de sustentabilidade relacionadas às questões ecológicas.

Relações humanas? Sustentabilidade? Mas o que isso tem haver com handebol? TUDO, porém, para entender melhor isso, devemos mudar as lentes com as quais analisamos o fenômeno esportivo tradicionalmente.

O olhar tradicional nos coloca frente a uma realidade que valoriza um ato de ensinar o handebol (ou qualquer esporte) sobre os moldes de perspectivas que em muito auxiliaram na evolução e desenvolvimento da atual sociedade em que estamos imersos:

  • A fragmentação do saber, ou seja, a compartimentalização de todo o conhecimento humano, tendo como reflexo disso, a formação e valorização de especialistas em diversas áreas, a ponto de um indivíduo saber muito, mas apenas de uma pequena fração de todo o saber humano; e
  • A visão tecnicista que complementa uma visão da fragmentação do conhecimento, a qual crê que toda ação humana resume-se à soma de partes, que quando juntas, tendem a formar a totalidade de uma determinada ação ou conhecimento;

Conforme observado, esse tradicionalismo, pautado na valorização e aprofundamento nas pequenas partes do todo acaba por refletir no ensino de maneira geral – veja nosso modelo educacional, que separa o saber humano em disciplinas, cada uma apresentada em total descontextualização umas com as outras – e, por conseguinte, na educação física escolar e nas ciências do esporte.

Essa lente – o tradicionalismo – porém, nos torna míopes para umas das principais características de toda ação humana, o fato de que cada ação não é isolada do todo, intercâmbiando seus reflexos com outras ações e até mesmo com ela própria.

Ou seja, uma ação realizada por “A” acaba por interferir em si mesma, seja por intermédio de sua própria ação, seja através das ações de “B”, “C” e de todos os indivíduos pertencentes ao mesmo sistema, ações essas que sofreram influencia de alguma forma das ações de “A”.

Essa forma de analisar as relações humanas (essa nova lente) só pode passar a ser compreendida quando aceitamos que as “coisas” não são tão simples quanto parecem, aprendendo assim a aceitar a presença das relações COMPLEXAS e do PENSAMENTO SISTÊMICO como principais atores das atividades humanas.

Sob essa perspectiva, o todo pode ser mais ou menos que a soma das partes, conforme destacam D’OTTAVIANO I.M.F. & E. BRESCIANI (2004) à luz do pensamento de autores como Edgar Morin.

Parece loucura! A soma das partes não representa o todo? Como assim?

Na realidade, a partir dessa nova forma de encarar os fenômenos, que fundamenta todas as relações humanas e preocupações com relação à sustentabilidade, não se pode compreender o todo sem conhecer suas partes, porém, suas partes estudadas de forma isolada (fragmentada) não são capazes de representar o todo, exatamente porque essas partes só podem ser compreendidas se estudadas de forma integrada com todas as outras partes do todo (idéias sustentadas, também, por Edgar Morin).

Logo, COMPLEXIDADE e PESAMENTO SISTÊMICO em nada combinam com o pensamento fragmentado, que como destaquei anteriormente, em muito contribuiu para a evolução de nossa sociedade e de nossa cultura. Porém, na atual conjectura mundial – na qual se um país entrar em recessão carrega consigo vários outros países, mesmo que estejam a léguas de distância entre si, ou na qual uma catástrofe como a que vem ocorrendo em Itajaí/SC chega ao conhecimento de todo um mundo em frações de segundo (praticamente em tempo real) – observar os fatos sobre a ótica tradicional (fragmentada, compartimentalizada e mecanicista) acaba sendo um fator contraditório e inconsistente.

Transitar de visão pautada nas idéias tradicionais, fundamentadas em idéias de Rene Descartes (pensador do século XVIII) –  revolucionárias para sua época e fundamentais em na evolução do pensamento humano – para pensar o fenômeno esportivo sob o olhar da complexidade, nos coloca frente a frente o JOGO, isso é inevitável, porém, para muitos ainda não é algo óbvio.

Em muitos dos atuais estudos sobre pedagogia do esporte (principalmente estudos advindos da década de 1970 em diante), os autores que se debruçam sobre estudos da lógica dos jogos coletivos, percebem que estes são dotados de características complexas, mas falta-lhes o JOGO para sistematizar suas idéias.

Ao mesmo tempo, verifica-se que alguns novos trabalhos colocam o JOGO como uma ferramenta importante no processo da pedagogia do esporte, mas ainda defendem que as aulas e treinos tenham momentos de “fundamentação técnica” descontextualizada, alegando que ensinar com JOGOS é bom, mas é incabível abandonar o treino técnico, já que “sempre se fez isso”, e “muitos bons resultados são observados com o método analítico de ensino”.

Fragmentação e Complexidade –  o tecnicismo e o jogo –  não combinam, é uma questão de visão de mundo! Não dá pra misturar! E é sobre isso que quero conversar um pouco neste espaço virtual.

Venho, portanto, com esse artigo, inaugurar uma discussão longa sobre O JOGO como ferramenta de ensino do Handebol.

Acredito que muitos de vocês serão partes essenciais da construção dos próximos artigos, pois eu mesmo, não sou um expert no assunto, e devo aprender muito sobre esse fenômeno a partir de agora, que me proponho a escrever sobre ele.

Muitos de meus textos não serão conclusivos, e temo que, até certo ponto, virão a trazer algumas incertezas e antagonismos uns com os outros, mas meu desafio pessoal (meu próprio JOGO) está lançado a partir desse primeiro texto.

Espero que tenham paciência e que possam contribuir com meus devaneios sobre o assunto, que estarei compartilhando com vocês a partir de hoje.

Bibliografias Indicadas para esse Mergulho no mundo do JOGO e da Complexidade

  • MORIN, Edgar. Educação e Complexidade: Os Sete Saberes e Outros Ensaios. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
  • BAYER, Claude. La Enseñanza de los Juegos Deportivos Colectivos. 2. ed. Barcelona: Hispano Europea, 1992.
  • GARGANTA, Júlio. Para uma Teoria dos Jogos Desportivos Coletivos. In. Graça, A. & Oliveira, J. (Eds.). O ensino dos Jogos Desportivos. Centro de Estudos dos Jogos Desportivos. FCDEF-UP. Porto. Portugal, 1995.
  • FREIRE, João Batista. O Jogo, entre o riso e o choro
  • FREIRE, João Batista; SCAGLIA, Alcides José. Educação como prática Corporal. São Paulo: Scipione, 2003.
  • KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O Jogo e a educação infantil. São Paulo: Pioneira, 1998.
  • TEODORESCU, L. Problemas de Teoria e Metodologia nos Jogos Desportivos. Lisboa: Livros Horizontes, 1984.
  • SANTANA, Wilton Carlos. Futsal: apontamentos pedagógicos na iniciação e na especialização. Campinas: Autores Associados, 2004.
  • WITTGENSTEIN, L. “Investigações filosóficas”. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
  • MAUSS, M. Sociologie et anthropologie. Paris: Presses Universitaires de France, 1980.
  • BROUGÈRE, G. “O Jogo e a educação”. Porto Alegre, Artes Médicas, 1998.
  • CAILLOIS, R. “Os jogos e os homens”. Lisboa: Cotovia, 1990.
  • CHATEAU, J. “O jogo e a criança”. 2 ed. São Paulo: Summus, 1987.
  • HUIZINGA, Johann. Homo Ludens: o jogo como elemento de cultura. São Paulo: Perspectiva, 1999.
  • SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003. [clique aqui]
  • D’OTTAVIANO I.M.F. & E. BRESCIANI. Auto-organização e criação. In. Revista MultiCiência: a mente humana, outubro, 2004. [clique aqui]
  • GARGANTA, Júlio. Ensino dos Jogos Desportivos Coletivos. Perspectivas e Tendências. In. Movimento, ano IV, n. 8, p.19-27, 1998/1. [clique aqui]
  • KNIJNIK, Jorge Dorfman. Colaboração de estratégias de ensino e aprendizagem na iniciação à prática do handebol. In. Revista Ludens – Ciências o Desporto, Lisboa, p. 75-81, 2004. [clique aqui]
  • PEREZ, Talita Piccinato; REVERDITO, Riller Silva; SCAGLIA, Alcides José. Argumentos em Favor da Pedagogia do Esporte: Implicações para a Prática. In. Efdeportes Revista Digital – Buenos Aires – Ano 12 – 2008. [clique aqui]
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2 comentários sobre “O JOGO I

  1. Ensinamentos Desportivos por meios Tecnicista esta por fora !!

    – Treinar condução de bola ziguezaguiando cones !!!
    – Fintar cones.
    – Trocar Passes um para o outro parado !

    No Jogo propriamente dito uma criança não vai encontar tamanha facilidade para superar o obstaculo, pois por mais ruim que seja seu adversario ele é melhor que um cone !!!

    Quem achar que estou falando besteira pode Argumentar !!!

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