Relato de Caso (Projeto Gol de Mão) – Jogos que Trabalham a Estratégia no Handebol

Percebo que muitos profissionais ainda acreditam ser utópico o que apresentamos em nossos textos. Por isso, neste artigo estarei relatando o uso de uma brincadeira do cotidiano infantil e como ela fundamentou grande parte das aulas de um grupo de iniciação ao handebol e como a partir deste jogo foi possível a estes alunos criar estratégias específicas do handebol.

Quando falamos em jogar para que o aluno tenha estímulos para pensar e agir estrategicamente no esporte, temos que levar em consideração quais princípios estarão sendo construídos por estes alunos no decorrer da prática do jogo em si.

Ao pensar que o handebol é um jogo que além da força e da velocidade é estritamente dependente da ação tática, podemos incrementar nossas aulas com jogos que trabalhem principalmente este viés do handebol.

Como? Um exemplo que tenho tido em minhas aulas, e quero compartilhar, é o uso do jogo “pique-bandeira”. O que ele tem a ver com handebol? TUDO! Desde que esteja sobre o prisma do conteúdo específico colocado em aula.

Em um primeiro momento, esta “brincadeira” foi adaptada e colocada em sentido único, ou seja, uma equipe era responsável por capturar a bandeira – o objeto usado foi a bola – enquanto a outra tinha que defendê-la. As regras do jogo eram as seguintes: A equipe atacante deveria entrar na área da bandeira, localizada atrás da área da equipe defensora, capturar a bandeira e trazê-la até a sua área da quadra, onde tinha imunidade. Porém, caso as defensoras conseguissem tocar em alguma atacante quando esta estivesse invadindo a área da defesa, a atacante então ficaria congelada e só poderia sair do lugar ao ser tocada por uma colega da mesma equipe.

Dessa forma o jogo desenrolou-se com as duas equipes criando estratégias respectivas ao seu momento de ação. E, após algumas aulas colocando o pique-bandeira como jogo estratégico, as “respostas” táticas das alunas apareceram de forma espontânea ao jogo.

Direcionando rapidamente à defesa, sem que elas tivessem o conhecimento sobre sistemas defensivos (o que nunca foi conteúdo em aula para elas até então), as alunas criaram sistemas por zona, muito semelhantes ao 3×3, 4×2 e 5×1.

Falando do nosso objetivo quanto aos conteúdos desta série de textos referentes aos princípios ofensivos, obtivemos no ataque situações muito semelhantes as do handebol formal. Algumas alunas se deixavam pegar para que então fizessem o papel de pivô, bloqueando o caminho em meio à defesa adversária, e como era permitido que as pessoas congeladas no campo adversário recebessem e passassem a bola, elas também serviram como referência para que o passe fosse feito do ataque para dentro da área da bandeira.

Neste momento, alguns itens falados no texto anterior, sobre princípios ofensivos começaram a aparecer para estas alunas como o jogar sem a bola. Neste jogo, em quase todos os momentos, as alunas tinham como meta atravessar a defesa, e então chegar à área da bandeira. Para isso, não havia o uso da bola, e os deslocamentos sem bola para atrair a defesa, ou despistá-la surgiram de imediato, o que mais tarde refletiu sobre o coletivo final.

Em um segundo momento, o jogo foi modificado para que o objetivo mudasse e com isso a estratégia também. Ao invés de capturar a “bandeira-bola”, as alunas precisavam deixá-la no campo adversário, ou seja, a equipe atacante detinha a posse de bola e para marcar ponto era necessário atravessar a defesa e deixar a bola na área da bandeira atrás do campo adversário. Esta atividade assemelhou-se em muito a atividades de meia quadra, muito comuns nos treinamento de handebol. As alunas foram criando estratégias para levar a bola até o “gol”, e a outra equipe criou estratégias para evitar o ponto do ataque.

Isso fez com que elas entendessem e observassem a sua relação com a equipe, o seu posicionamento em relação aos companheiros, em relação aos adversários e sua relação espaço-tempo. Outros princípios muito presentes neste jogo estão a ação de aquisição da bola, as noções de passar e receber, tirar, marcar, manipular, além de desmarcar-se, saber orientar-se no espaço, tanto em relação os espaços vazios, quanto aos alinhamentos entre adversários e companheiros.

Novamente, os princípios de jogar sem a posse de bola, algumas movimentações do jogo formal – como, por exemplo, o vai-e-vem –  apareceram durante a construção estratégica dessas alunas. Cabe lembrar que em nenhum momento as alunas foram coagidas a fazer as movimentações e era permitido usar o drible à vontade. Elas conversavam entre si e criavam meios de movimentar-se para conseguir chegar ao objetivo de levar a bola até a área adversária.

Em um terceiro momento, o pique-bandeira foi transformado em um jogo com mais complexidade, pois ao mesmo momento em que tinham que atacar também deveriam defender, e foi neste momento que o jogo tornou-se um jogo de handebol. Cada equipe tinha por objetivo levar a bola até a área da bandeira localizada atrás da equipe adversária. Foram criadas estratégias coletivas, e as equipes tornaram-se ativas tanto ao atacar quanto ao defender, e a posse da bola deixou de ser individual para que então pudesse ser coletiva, ou seja, o importante foi a equipe ter a posse e o indivíduo como pertencente a esta equipe pode se localizar de forma a gerar um desequilíbrio na defesa para que alguém (a própria ou outra pessoa) pudesse fazer ponto a favor do grupo aliado.

Desta forma, foi possível trabalhar com estas alunas princípios defensivos e ofensivos, fazendo com que a estratégia fosse o ponto de partida para suas ações, e então a execução era feita de maneira a reagir de acordo com o proposto pelo grupo, sendo favoráveis as respostas tanto da própria equipe quanto da equipe adversária.

Claro que este jogo procura princípios primários como a infiltração, a busca pelo espaço vazio, a ajuda em forma de bloqueios e chamar a atenção da marcação. Porém, estes itens são primordiais para o entendimento da complexidade do jogo de handebol, e assim estas alunas conseguem entender que o handebol não é um jogo de só pegar a bola e arremessar ao gol, elas percebem que antes dessa ação existem várias estratégias e ações táticas que permitem executar um arremesso no momento certo do jogo, sendo este mais efetivo para o grupo.

Entretanto, estamos nos referindo ao início do aprendizado dos nossos alunos, sabemos que este tipo de construção leva tempo e paciência, mas se estamos pensando em formação de jogadores, futuramente, estas aulas serão muito mais efetivas para o desenvolvimento desses alunos como atletas do que treinos de arremessos específicos ou fintas isoladas do contexto do jogo em si.

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9 comentários sobre “Relato de Caso (Projeto Gol de Mão) – Jogos que Trabalham a Estratégia no Handebol

  1. Tathy…seu texto está simplesmente maravilhoso….nada como exemplos práticos de que o jogo (não só o jogo formal, mas tudo o que tange à idéia de jogo) é uma ferramenta importantíssima para a iniciação esportiva.

    A conclusão de seu texto, que mostra o fato de suas alunas perceberem que handebol é muito mais do que um “jogo de só pegar a bola e arremessar ao gol” através de jogos de estratégia, é magnífica!

    Parabéns…..uma contribuição singular para esse espaço!

  2. Parabens pelo texto, realmente nada melhor que exemplos.
    Você poderia me dizer como eu trabalhar essa mesma “brincadeira” no futsal ? Só colocar a bola no chão ?

    Bjos

  3. Muito bom o artigo! Um exemplo interessante de ser trabalhado, gostei muito. Aproveito a oportunidade para para parabenizar o trabalho dos idealizadores do site e a forma carinhosa e pedagógica como tratam do nosso esporte!!! Parabéns!!!

  4. Muito bom o seu artigo, está de parabéns!
    Realmente a forma onde ocorre o maior aprendizado é utilizando jogos, não só de aprendizado como forma de motivação para a prática do Handebol. E da forma como você colocou está de fácil entendimento, vou colocar isso em prática aqui….
    Valeu Parabéns….

  5. Parabéns pelo artigo. Ele traz uma representação da realidade da iniciação esportiva, não só no handebol, mas em todos os esportes escolares.
    Noara Resende
    Professora de Educação Física
    Rede Municipal de Belo Horizonte

  6. Sou professora de Literatura, meu esposo é professor de Educação Física. Seus artigos são maravilhosos e enriquessem muito as aulas do Fran.
    Um abraço!
    Macapá-Ap.

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