Em Defesa de uma Abordagem Metodológica Multidimensional para o Ensino do Handebol*

Por Riller Reverdito

Universidade Adventista de São Paulo Campus Hortolândia/IASP

Faculdade Adventista de Educação Física

Ensinar não é simples, como muito bem nos apresenta Paulo Freire em sua obra “Pedagogia da Autonomia”. E não sendo simples, digo, desde já, que vou me propor a um grande desafio. Então me perdoe a aqueles que buscam respostas prontas, pois, talvez, irão encontrar mais motivos para continuarem estudando.

Nos textos anteriores me dediquei a apresentar os problemas que cercavam o handebol, especificamente dentro das escolas desde ao que defendo enquanto uma pedagogia para o handebol.

Agora, falando de uma pedagogia para o handebol devo, sobretudo, estar falando da prática educativa concreta que se realiza. Sendo assim, nesse texto vou me dedicar a um dos elementos que compõem a prática educativa: como ensinar?

Ao tentar defender uma proposta metodológica corremos sempre o risco de defender nossas concepções enquanto verdades fechadas.  Por isso, já vou me posicionar sobre alguns princípios, dos quais me permitiram  chegar até aqui. Primeiro: nenhuma abordagem metodológica e método são suficientes, pelo fato de não existir uma única forma de aprender. Segundo: do mesmo modo, é impossível pensar que frente às inúmeras situações complexas surgidas no jogo, uma única abordagem será capaz de abarcar em suas fronteiras todas as implicações e exigências requeridas ao jogar o jogo. Terceiro: qualquer pressuposto didático-metodológico deve estar orientado pelas especificidades do jogo, estando à lógica didática subordinada a lógica do jogo.

A partir dos três princípios apresentados iremos nos concentrar em responder nos próximos parágrafos, como ensinar handebol nas aulas de Educação Física.

Mas antes parece válido responder em que consiste metodologia e método, pelo fato de emergir dessas discussões algumas confusões.

A metodologia consiste em um conjunto de princípios ou pressupostos delineados para a averiguação de fatos ou verdades. Desse modo, a metodologia corresponde aos princípios ou pressupostos para a sistematização do ensino, constituído de métodos e técnicas que irão orientar o professor em sua intervenção no processo de aprendizagem do educando, capaz de realizar os objetivos educacionais propostos, de conhecimento de todos os envolvidos na prática educativa.

O método na prática de educativa corresponde às “… ações do professor pelas quais se organizam as atividades de ensino e dos alunos para atingir objetivos do trabalho docente em relação a um conteúdo específico”, determinados pela relação entre objetivo e conteúdo, orientado por ações sistematizadas e planejadas. (LIBÂNEO, 1994, p. 152).

Desse modo, as abordagens metodológicas e métodos não têm vidas independentes dos objetivos, do conteúdo e do processo de aprendizagem. Assim, “não há método único de ensino, mas uma variedade de métodos cuja escolha depende dos conteúdos da disciplina, das situações didáticas específicas e das características sócio-culturais” e de desenvolvimento ou experiência dos alunos. (LIBÂNEO, 1994, p. 152).

Por isso, ao invés de gastarmos tempo levantando os aspectos divergentes que surgem nas diferentes propostas metodológicas e métodos de ensino, devemos concentrar esforços sobre os diferentes aspectos que surgem na aprendizagem. Mesmo por que, o ‘como’ ensinar está orientado para o sujeito que aprende e não ao contrário, ou seja, para o objeto a ser aprendido.

Desse modo, defendemos como’s ensinar handebol. Ou seja, não orientamos nosso ensino sob uma única abordagem metodológica ou método. Mas buscamos nas diferentes propostas pressupostos que sejam suficientes para atender as necessidades de nossos alunos. Nessa perspectiva, buscamos ensinar handebol nas aulas de Educação Física, orientado sob três pressupostos ou princípios: os propósitos, as circunstâncias e a maneira. (REVERDITO, 2005).

Os propósitos orientam as intenções, alvos ou objetivos selecionados, os quais são especificados pelo professor de acordo com as necessidades dos alunos sob cada conteúdo. Por exemplo, na Educação Física escolar as turmas são heterogêneas, tanto sobre as experiências ou vivências de cada aluno quanto sobre gênero (masculino e feminino). Todavia as aulas de Educação Física deverão abarcar a todos os alunos. Não somente aos melhores, nem tão pouco somente aos rotulados de piores. Considerando esses aspectos, o professor seleciona um tema ou conteúdo a ser abordado, por exemplo, arremesso. Agora perguntamos como abordar o tema arremesso na aula de Educação Física, privilegiando situações onde todos possam experênciar diferentes formas de finalização (arremesso)? Lembrando que a lógica didática deverá estar subordinada a lógica do jogo.

O propósito selecionado pelo professor é que todos conheçam e vivenciem diferentes formas de finalização – arremesso. Nesse caso, se nosso aluno nunca arremessou uma bola em toda a sua infância, o professor irá criar uma situação ou procedimentos em que seja possível a ele conseguir arremessar. Para isso, a atividade, brincadeira ou jogo reduzido, não poderá ser em demasiadamente complexo, ao ponto de impedir que o aluno seja capaz de alcançar o sucesso. Do mesmo modo, sendo demasiadamente fácil irá suscitar desinteresse pela aula.

As circunstâncias respondem as particularidades e as necessidades que cercam o cenário de aula, buscando atender as necessidades de cada turma ou de cada aluno. Por exemplo, geralmente encontramos alunos que não participam das aulas, por se sentirem envergonhados pelas suas capacidades ou habilidades um tanto limitadas. Possivelmente, se o professor utilizar algum jogo ou brincadeira em que esse aluno fique ainda mais exposto ao julgamento dos demais colegas, isso irá limitá-lo ainda mais. Nessa circunstância, o professor poderá recorrer às jogos, brincadeiras ou exercícios, em que sejam privilegiadas situações que exijam de habilidades individuais (eu-bola; eu-bola-alvo).

A maneira responde as estratégias, recursos didáticos, explicações, intervenções etc., ou seja, os recursos nos quais são utilizadas pelo professor com o objetivo de atingir ao propósito selecionado. Por exemplo, existem casos em que gastamos todas as formas possíveis de explicações, porém, ainda assim não conseguimos chegar a um resultado em que acreditamos ser satisfatório. Havendo decidido que será a última tentativa, buscamos utilizar um recurso visual (vídeo, desenho). Os primeiros resultados quase que surgem instantaneamente. Nessa situação, onde estava o problema: nos alunos ou nos recursos utilizados para a explicação? Desse modo, a maneira como utilizamos os recursos didáticos e comunicamos nossas explicações podem determinar a aprendizagem ou não-aprendizagem.

Desse modo, estando a lógica didática subordinada a lógica do jogo e os princípios do jogo ser o regulador da aprendizagem, buscamos ‘pedagogizar’ o jogo, para que seja jogado e jogante. No jogo jogado fazemos menção ao fazer procedimental, manipulando diferentes formas jogadas, jogos reduzidos ou funcionais, orientados para a aprendizagem de uma habilidade (conteúdo). Contudo, a aprendizagem do jogo, aqui especificamente handebol, não poderá estar limitada ao fazer procedimental, ou seja, ser apenas jogo jogado. O jogo também tem de ser jogante.

No jogo jogante fazemos alusão ao caráter festivo, metafórico, do mundo do jogo, no qual o jogador adentra para jogar e ser jogado pelo jogo. Assim, busca-se aproximar o fazer procedimental, orientado para a aprendizagem de um determinado conteúdo, do mundo da fantasia, onde a realidade é momentaneamente suspensa para dar espaço o subjetivo. E é justamente, o jogo sendo jogante, que irá levar nossos alunos a querer jogá-lo novamente.

Desse modo, trazemos para o mundo de nossos alunos, sejam eles do 2º Ano, 6º Ano ou 3ª Série do Ensino Médio, um contexto carregado de sentido, atributos sócio-culturais, os quais fazem ou fizeram parte da historicidade de cada um, manifestos nos jogos/brincadeiras com bola nas mãos.

A partir dos jogos/brincadeiras, orientado pelos princípios dinâmicos e funcionais do jogo de handebol, e indicadores capazes de nos revelar um jogo de nível fraco e um jogo de nível bom, individuais (motor, cognitivo) e coletivo (jogo)1, privilegiamos a manipulação dos elementos estruturais formais do jogo, como: espaço, elemento bola, gol, participantes e as regras.

Os jogos coletivos, nesse caso o handebol, são sensíveis a qualquer modificação das suas condições iniciais. Ou seja, se fizermos qualquer modificação, seja ela o mais simples possível, irá provocar alterações em todos os demais elementos que compõem sua estrutura organizacional.

A alteração ocorrida na estrutura organizacional do jogo irá provocar uma série de emergências, em que o aluno terá de enfrentar. Por exemplo, vamos modificar as dimensões do espaço (menor) e o número de participantes (maior número). Em um espaço curto, modifica-se consideravelmente a forma de passar a bola, os jogadores têm de passar a bola o mais rápido possível, aumenta-se consideravelmente a quantidade de dribles, de deslocamentos dos jogadores sem a bola, e tantas outras situações que poderíamos observar.

Essa mesma situação transferida para um jogo/brincadeira, como golzinho, como ficaria? Só que agora vamos estabelecer um objetivo, por exemplo, passe. Colocamos um jogador coringa, o qual somente participa do ataque. Ou seja, ele sempre estará jogando para a equipe que estiver com a posse de bola. Com um jogador a mais (3×2) criamos uma situação de inferioridade numérica da defesa em relação ao ataque. Essa situação irá exigir dos jogadores atacantes disposição para passar e correr para receber novamente (passe e vai), fintar e passar (driblar, avançar e passar). Em relação aos defensores irá exigir ajudas, cobertura, dissuasão do jogador com o controle da bola.

Desse modo, privilegiamos a gestão das emergências que surgem no jogo, decorrente do confronto de objetivos como fonte geradora do progresso – aprendizagem. Assim, os procedimentos pedagógicos são orientados para criação de problemas gerados no jogo, os quais irão levar o jogador a uma nova construção criativa, ou seja, aprendizagem do jogo. (REVERDITO; SCAGLIA, 2007).

A gestão das emergências do jogo deverá acontecer sobre dois planos: ambiente exterior e interior. No ambiente exterior, fazemos menção à figura do professor, o qual tem a incumbência de analisar e mediar o nível de complexidade das atividades selecionadas, dos obstáculos e desafios a serem propostos, de acordo com a capacidade do aluno. No ambiente interior, fazemos menção à figura do aluno, no qual deverá gerir as diversas situações provocadas no encontro de objetivos inerentes ao jogo. Ou seja, o aluno participa diretamente do seu processo de aprendizagem, que se revela ao nível das soluções apresentadas nas situações especificas e características do jogo. (REVERDITO, 2005).

Nessa perspectiva, estamos gerindo intencionalmente o processo de ensino, privilegiando a jogo como elemento fundamental para o ensino e aprendizagem, pedagogicamente problematizando o jogo.

A sistematização seqüencial do conteúdo handebol nas aulas de Educação Física, na dimensão das habilidades, às orientamos segundo Garganta (1995), Freire (2003) e Reverdito (2005) da seguinte forma: habilidades voltadas para a própria pessoa; habilidades coletivas e habilidades de atuação no jogo como um todo.

As habilidades voltadas para a própria pessoa se enquadram ao nível da relação eu-bola e eu-bola-alvo, não precisando necessariamente estar sendo compartilhadas com alguém para se desenvolverem. A maior ênfase sobre essas habilidades deverá acontecer no período que corresponde entre os 06 anos aos 09 e 10/11 anos, privilegiando os fundamentos básicos: manipulação da bola, arremesso ou lançamento, posição de base, passe, recepção, drible.

As habilidades coletivas se enquadram ao nível da relação eu-bola-oponente e eu-bola-colega-oponente, ou seja, dependem da relação com alguém para que possam se desenvolver. A maior ênfase sobre essas habilidades deverá acontecer entre os 10/11 anos até aos 12 e 13/14 anos, privilegiando os fundamentos derivados: cruzamento, passa e vai, bloqueio, ajudas, engajamento, finta/fixação.

As habilidades de atuação no jogo como um todo, são aquelas que ao nível das relações dependem do eu-bola-colegas-adversários e eu-bola-equipe-adversários para que possam se desenvolver. A maior ênfase sobre essas habilidades deverá acontece entre os 13/14 anos em diante, privilegiando os fundamentos específicos orientados de acordo com as características próprias de cada posição ou posto especifico. Nessa fase ainda não se deve buscar a especialização em postos específicos. Mas permitir que os alunos possam vivenciar ao máximo o jogo em diferentes espaços da quadra2.

Contudo, a sistematização do conteúdo de forma seqüencial não poderá provocar o engessamento do processo de ensino e aprendizagem. Mas ser entendido como sugestão sobre o que se acredita que é importante o aluno conhecer em determinado período, de acordo com seu desenvolvimento (motor, cognitivo, emocional, social, espiritual) e o contexto em que estão inseridos. Desse modo, sendo uma facilitadora na organização e estruturação de objetivos específicos adequados ao aluno. (REVERDITO, 2005).

O handebol é uma modalidade de fácil aprendizagem, pelo fato de seus fundamentos específicos emanarem da combinação de múltiplos movimentos, dos quais derivam diretamente do andar, correr, saltar e arremessar. E, a partir da concepção metodológica  defendida para o ensino do handebol nas aulas de Educação Física, em nosso próximo texto nos concentraremos nos procedimentos pedagógicos aplicados no ensino dos jogos com bola nas mãos e na análise pedagógica de alguns temas ou conteúdos aplicados as aulas de Educação Física.

Referências Bibliográficas

FREIRE, J. B. Pedagogia do Futebol. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.

GARGANTA, J. Para Uma Teoria dos Jogos Desportivos Colectivos. In: GRAÇA, A.; OLIVEIRA, J. (Org.). O Ensino dos Jogos Desportivos. 2ª Edição. Faculdade de Ciências do Desporto e da Educação Física. Universidade do Porto: Porto, 1995.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

REVERDITO, R. S. Pedagogia do Esporte: da revisão de literatura à construção de pressupostos didático-metodológicos para o ensino do jogo de handebol. 2005. 140 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Educação Física) – Faculdade Adventista de Educação Física, Campus Hortolândia, Universidade Adventista de São Paulo, Hortolândia, SP, 2005.

REVERDITO, R. S.; SCAGLIA, A. J. A Gestão do Processo Organizacional do Jogo: uma proposta metodológica para o ensino dos jogos coletivos. Revista Motriz, Rio Claro, v. 13, n. 1, p. 51-63, jan./mar. 2007. Disponível em: http://cecemca.rc.unesp.br/ojs/index.php/motriz/article/view/256/742

Notas de Rodapé

* O conteúdo discutido nesse texto foi publicado anteriormente na Cidade do Futebol, estando disponível no site: www.cidadedofutebol.com.br.

1 Sugestão de Leitura: REVERDITO, R. S.; SCAGLIA, A. J. A Gestão do Processo Organizacional do Jogo: uma proposta metodológica para o ensino dos jogos coletivos. Revista Motriz, Rio Claro, v. 13, n. 1, p. 51-63, jan./mar. 2007.

2 Quando nos remetemos às habilidades específicas para o jogo handebol as compreendemos como habilidades voltadas para a família dos jogos com bola nas mãos, como: handebol de areia, handebol de campo, queimada, bobinho com bola nas mãos etc.

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