HANDEBOL NA VEIA – Ping, Pong, a formação dos jogadores e o handebol brasileiro na terra do Mao

Por Jorge Dofman Knijnik

Professor da School of Education, University of Western Sydney (NSW, Australia)

Ping e Pong são dois descendentes de chineses que adoram jogar handebol. Isto mesmo, eles jogam handebol e diversos jogos com bola, pelas ruas e parques das cidades brasileiras as quais tão bem receberam seus avôs quando imigraram da China, há muitos anos… Como gostam muito de handebol, e também do Brasil, Ping e Pong torceram muito por nossas seleções em sua recente estada na terra que já foi governada por Mao Tse Tung. Até no jogo dos rapazes contra o time da casa, eles balançaram: Ping, que é mais novo, torceu pelo Brasil, e Pong se uniu ao seu pai, torcendo pelo time de seus antepassados.

Entretanto, o que os dois garotos não entenderam bem foram as campanhas das equipes brasileiras: afinal, foram boas ou ruins? Melhoramos ou não? Perdemos de pouco, ganhamos jogos importantes, mas qual o significado disto? Como todo garoto de sua idade, aficionados por esporte, mas também por internet, eles vasculharam a rede atrás de explicações ou comentários, ou análises dos Jogos, e da participação das equipes brasileiras neles. Como não encontraram nada, resolveram perguntar para o seu professor, também ele um amante do handebol.

E Ping, no MSN perguntou ao professor: Mestre, você assistiu a todos os Jogos do Brasil? Está com sono?

E o professor, feliz com aquele respeito tão difícil de ser encontrado em alunos na atualidade: Sim, Ping, estou morrendo de sono. Assisti a tudo, vibrei sozinho na frente da TV, e também fui comer pipoca na casa da Anella, que reuniu um monte de “malucos” para assistir aos jogos do Brasil…Todos ficamos decepcionados, queríamos mais, achávamos que podíamos mais…

Ao que o Pong entra na conversa – Por que malucos professor?

Ora, Pong, gostamos tanto do handebol, queríamos ganhar! Está certo que não é só a vitória que interessa, mas achávamos que estava na hora de algo melhor. Mas não deu…

E Ping, mais espontâneo. Olha, professor, eu também torci para o Brasil, até contra a China, meu pai ficou bravo. Mas depois das derrotas, não ouvi ninguém comentando nada, parece que ninguém sabia… Pelo menos no meu bairro, ninguém sabia, depois dos Jogos, eu saía prá jogar handebol, pois se alguém tivesse visto a seleção podia se empolgar, pois o que eu queria mesmo era jogar handebol na rua, mas ninguém estava jogando… Às vezes é domingo, eu saio com a minha bola para o parque, mas nunca ninguém está jogando… Outro dia eu li um artigo na internet, daquele seu amigo, o prof. Riller, reclamando que não há handebol prá gente jogar nas ruas ou praças do Brasil. Por quê?

Ping, esta é uma boa pergunta. E você sabe que ela tem tudo a ver, do meu ponto de vista, com o fato das seleções não “chegarem lá”, para nossa tristeza?

Pong interrompeu, irado: Ora, qual a relação do Ping não jogar handebol na rua com as seleções? Manda ele arremessar a bola na parede!

Calma, Pong, este é o problema, arremessar a bola na parede é outro jogo, não tem nada a ver com handebol. Handebol precisa de gente, de adversários, de companheiros, de vibração. Na verdade, eu penso que o ensino e o treinamento do handebol, no Brasil, ainda hoje são muito tecnicistas, embasados em exercícios do tipo “arremessar na parede” – contudo, do outro lado, não há paredes,  mas sim pessoas, que se movem, pensam e sentem. Assim, nossos jogadores ficam limitados a condutas estereotipadas, como se fosse possível fintar alguém, ou arremessar uma bola ao gol, sem considerar que do outro lado o adversário vai se opor, vai te provocar, tentar te enganar ou te atrapalhar. Assim, de nada adianta treinar uma jogada, fazer tudo direitinho até chegar à cara do gol, se o goleiro fizer algo diferente, e não soubermos, no calor da partida, mudar a nossa visão do gol, e arremessarmos de forma diferente, sem o objetivo de furar um muro, mas sim pensando, e agindo com o objetivo correto de colocar a bola dentro da baliza.

Enquanto o Ping sorria discretamente, já prevendo novo estouro do irmão, este, mais calmamente, perguntou de novo: Professor desculpe a falta de educação anterior, mas ainda não entendi: o que tem a ver o jogo do Ping com a seleção?

Pong, não tem problema – na verdade é no jogo que as pessoas percebem a importância das coisas no esporte como um todo, e do handebol em particular. Ora, eu jamais ficaria diversas madrugadas acordado assistindo um treino, mas fiquei para ver os jogos. Certamente, quem joga, gosta de jogar. É ali que as coisas se decidem, é em um jogo, com todo o seu atrativo e desafio, que o jogador pode pensar, descobrir novas coisas, e desenvolver a sua inteligência…

Oba, então vamos jogar, interrompe Ping.

Sim, Ping, é o que devíamos sempre fazer, buscar o lado lúdico e o desafio na modalidade. É com esta motivação, e com o trabalho mental propiciado pelo desafio do jogo, que formamos jogadores inteligentes, aptos a superarem as dificuldades impostas pelos adversários reais. Qualquer jogo? Não, devemos elaborar e propor jogos que propiciem que os nossos atletas entendam e vivenciem os objetivos do handebol. Por exemplo, no handebol moderno, não é possível mais que um jogador assista passivamente ao desenrolar da partida, só atuando quando a bola chegar a suas mãos. Um pivô brasileiro, por exemplo, por mais que seja forte, se ficar parado junto a linha da área do goleiro, será facilmente marcado pelos europeus – ele tem que aprender a se deslocar, ir buscar o jogo em espaços vazios, correndo no meio dos marcadores. Ora, por exemplo, o jogo dos 10 passes, que certamente vocês conhecem e já jogaram (quando uma equipe precisa, em determinado espaço, trocar 10 passes entre si para obter o ponto, enquanto o adversário tenta interceptar a bola), pode ser um bom estímulo para os pivôs se deslocarem e tentarem receber passes: basta que coloquemos uma regra a qual orienta que, a cada passe múltiplo de três, somente o pivô poderá receber a bola – assim, este jogador obrigatoriamente terá que se deslocar, em meio a forte marcação que sabe que somente ele receberá o passe. Neste mesmo jogo, os defensores deverão, aos poucos, decidir se vale a pena marcar o jogador que está com a bola, ou então aquele que poderá recebê-la, criando estratégias de marcação por pressão, ou somente de dissuasão e tentativa de interceptação da bola. Assim, o jogo é fundamental na formação do jogador inteligente e…

Vamos jogar, insiste Ping.

Sim, já vamos. Mas deixe-me colocar outros exemplos da importância do jogo. Como já afirmei anteriormente, é conhecida a ausência de movimentações sem bola do jogador brasileiro, o qual em geral passa a bola, e fica estático esperando que ela chegue a sua mão, na verdade, torcendo por isso. Por que não criar estratégias para que o jogador se movimente obrigatoriamente, ao invés de gritarmos com eles, chamando-os de tartarugas, ou de postes grudados no solo? Se dividirmos a quadra em duas, e criarmos um joguinho onde a defesa se mantém em sua meia quadra, com três defensores de cada lado da quadra, e os atacantes, obrigatoriamente, ao executarem um passe, deverão se locomover para o outro lado da quadra, ajudando o seu colega que não tem para quem passar? Podemos pontuar cada erro do ataque, seja de regra (segurar mais que três segundos, quatro passos, etc) ou mesmo de interceptação de passes – os atacantes, além disso, deverão perceber que um dos objetivos do ataque é a manutenção da posse da bola, e para isso, eles precisam se deslocar por todo o espaço, ajudando seus colegas e desenvolvendo mais ainda a percepção do que acontece na quadra toda.

E Pong questiona: mas, Mestre, você acha que os nossos jogadores são burros?

Olha,Pong, quem sou eu para chamar alguém de “burro” – além de uma ofensa, quando eu falo de jogadores inteligentes, são aqueles que conseguem ler o jogo,entender o que está se passando em uma situação de ataque, interpretar o movimento dos outros jogadores, e agir de acordo com os objetivos do jogo – ora, se o objetivo da defesa é, em primeiro lugar não tomar gol, mas também pode ser o de retomar a bola, ou então de colocar o ataque em uma condição ruim de arremesso, o jogador deve decidir isso quando está em uma situação de 2 X 1 – quem está pior colocado, como devo me portar para dificultar a situação do arremesso? A técnica que ele vai usar para isso, é decidida posteriormente a sua leitura e decisão, o que fazer precede como fazer – e o nosso treino ainda privilegia o como fazer, ou seja, repetimos inúmeras vezes uma determinada técnica, sem saber quando empregá-la… Eu mesmo, quando jovem, vivia treinando defesa, com o técnico gritando para irmos para a direita, depois para a esquerda, depois saltarmos… Sem o adversário na frente, somente o técnico… No jogo, na hora “H”, o que nos valia isso? Eu deveria saltar, se o adversário era baixo? Ou ir para a direita, saindo da quadra? Ora, éramos nós que deveríamos decidir o que fazer, a qual momento, e então pensar em como, em qual técnica usar… Não me adiantaria saltar para cima, se o arremesso fosse para o lado, e assim por diante. Desta forma, eu acho que o nosso treino, em sua grande maioria, ainda hoje objetiva criar meros repetidores de técnicas, incapazes de ler uma simples modificação no ambiente – assim, eu treino a exaustão o arremesso no “ângulo superior direito”, mas se o goleiro estiver parado lá, tenho muitas dificuldades em mudar isso, em perceber uma nova situação e alterar o meu “como”, a minha técnica, pois sou craque em colocar a bola “na coruja”, e meus arremessos, na maior parte das vezes, só chegam até lá… Precisamos aprender a ler o jogo, e não meramente a repetir técnicas com o único objetivo de ganhar um jogo hoje, e não pensar e entender o jogo como um todo, sempre.

E o que isso tem a ver com a China, perguntou Ping, já aflito

Ora, lá tínhamos a elite do nosso handebol. Muito investimento, tempo, dinheiro, energia, expectativas – que se frustraram. Valeu a pena? Difícil dizer, é sempre bom ter o handebol brasileiro nos Jogos, assim como é ruim ouvir o “sarro” dos colegas de outras modalidades, e, sobretudo, é triste perdermos novamente. E se ao invés disso, investíssemos bastante em muitos jogos de handebol nas praças, nas ruas e comunidades, mini-jogos, atividades adaptadas, para que a garotada do país conhecesse de verdade o jogo, pensasse sobre ele, criasse novas situações, e a partir daí inventassem novas técnicas, com aquela criatividade que nos é peculiar? Para que muitos pudessem realmente “bater uma bola” de handebol, em situações menos formais, mas com o grande diferencial do jogo, o atrativo que de fato cria bons jogadores, pois estes teriam que se adaptarem as condições mais imprevisíveis possíveis, com diversos adversários, com a rua, com equipamentos e pessoas diferentes, colocando situações inesperadas? É assim que ficamos inteligentes, nos adaptando ao meio, já diria um grande estudioso chamado Jean Piaget – não dá para esperamos que o meio se adapte as nossas vontades – a defesa não vai sair da frente no grito, temos então duas possibilidades: criar algo para a defesa sair de lá, ou então irmos á procura de um espaço vazio. E esta criatividade, certamente, provém do jogo e de todo o seu potencial criador, lúdico, e motivante. Ping, não precisa mais falar, já estamos indo… Ih, está chovendo!

Não faz mal, mestre, aqui em casa tem um salão coberto, é só fazer uma bola de meia, que dá prá jogar, meu pai se empolgou, e vem também! E meu primo Pung,idem!

Vamos aos jogos, então, mas com uma condição – quem perder paga o rolinho primavera!

(dedico esta coluna aos incansáveis Ping e Pong, que sozinhos não são ninguém, mas que juntos, dão um belo e animado jogo!)

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13 comentários sobre “HANDEBOL NA VEIA – Ping, Pong, a formação dos jogadores e o handebol brasileiro na terra do Mao

  1. É isso ai Jorjão, precisamos de mais criatividade e solução de problemas, deixar a molecado mais livre para “descobrir” o que é bom durante o jogo, além é claro, de termos espaços para jogar. É assim que acontece com o nosso “esporte maior”, o futebol, a molecada joga em qualquer espaço, cria, inventa, adapta o que é necessário.
    Um grande abraço
    Grum

  2. Fantástico, este é o grande professor que conheço,parece que ouso sua voz quando lí esta crônica. E viajando um pouco na criatividade, fiquei pensando nas soluções que estão escondidas dentro das nossas outras forças regionais, como por exemplo a capoeira, já pensou! se um técnico começasse a perguntar para um mestre como ele poderia ajudar a fazer uma infiltração ou como melhorar a defesa…nossa! o que sairia desta mistura? não técnica mas lúdica…vamos sonhar os sonhos possiveis…

    Forte abraço mestre, com saudades…

  3. Como pode um aluno que escreve “ouso” ter um professor bom…..è por isso que handebol nunca sairá de inde está. Nas incompetências dos Jorges da vida.
    Sergio de LUca
    RG 745646464

  4. Grande Mestre JDK.

    A cada leitura relacionada a esta temática, vejo como a literatura é escassa perante a isso, sobretudo no tênis. Vejo também, como os treinamentos e aulas de tênis ainda passam pela discussão acima, nos quais formam-se “batedores” e não jogadores.

    Belíssimo texto.

    Grande abraço,

    Pacharoni

  5. eu quero algo relacionado com situaçoes de jogo tipo:
    um jogador do time azul deixo cair a bola no pe do adversario de qem é a bola?
    francamente eu nao sei

    1. A bola é de sua equipe, vc cobrará um tiro livre do local a infração. Caso ela ocorra entre a linha tracejada (de 9m) e a linha da área do goleiro, você cobrará a falta imediatamente após a linha tracejada.
      Abraços,

  6. eu tenho um jogo, importante na copa petrobras i
    quero um adicas sou goleiro do time
    e nos vamos joga cotra são bento do sul e o time deles é bem mas forte em forma fisica e tem um pia de 1,m 97 eu so goleiro e tenho 1m60 eu queria que tambem vcs falacm se vcs acham que nois temos alguma chance de ganhar?

    valeuu!!!
    abrçaoss

  7. eu gosto muito de handebol !

    po handebol é um esporte ótimo para aprender e encinar

    eu gosto muito de jogar e encinar handebol

    handebol é a minha 3º paixão !…

  8. po o time que eu jogo está participando de um campeonato eu

    jogo como armador central e de armador direito nosso time é

    bom já ganhamos 2 jogos estamos em primeiro da nossa chave

    todos os time são muitos bons.

    se DEUS quiser nos vamos ser campeaõ…

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