O Handebol Precisa Pular os Muros da Escola

Por Riller Reverdito

Universidade Adventista de São Paulo Campus Hortolândia/IASP

Faculdade Adventista de Educação Física

Não é de hoje que escuto que o handebol é uma das modalidades mais práticas nas escolas. Confesso que por muito tempo estive convencido disso. E ainda hoje estou convencido que o handebol é uma das modalidades mais práticas nas escolas do Brasil.

Contudo, talvez de tanto me disserem isso, deixei de estar convencido para tentar desvendar um enigma: por que não encontro crianças jogando handebol nas ruas, praças, parques ou nos campinhos de terra batida construídos nos terrenos baldios dos grandes centros urbanos, sendo o handebol uma das modalidades mais práticas na escola?

Em busca de respostas para o meu enigma já me deparei com duas pistas. A primeira pista está diretamente relacionada a um processo de ensino orientado para a reprodução da estrutura e dinâmica formal do jogo de handebol. Ou seja, sua forma acabada (institucionalizada).

Por exemplo, o regulamento do jogo de handebol determina que o jogador com a bola dominada deva dar no máximo três passos (trifásico). E por diversas vezes acompanhei aulas em que os professores de handebol, antes mesmo de seus alunos serem capazes de correr com a bola dominada (controlada em suas mãos), já determinava que devesse dar somente três passos. Muitas vezes se utilizando de exercícios analíticos para a aprendizagem do trifásico, para então posteriormente, chegar ao jogo.

O resultado geralmente é a criança tentando alcançar o objetivo do jogo (manter a posse de bola e marcar o ponto), ao mesmo tempo em que conta de um em um, quantos passos já foram dados. Ou seja, correr com a bola dominada se torna quase impossível.

Análise Pedagógica

Conteúdo: jogos com bola nas mãos – handebol

De início perguntei quantos conheciam ou tinham vivenciado o jogo de handebol. Como muitos disseram não conhecer, apresentei-lhes um vídeo com algumas imagens do jogo, destacando principalmente seu objetivo: marcar gols (pontos) e não sobre gols (pontos). Feito isso, levei os alunos para a quadra. Organizamos-nos em 4 grupos, sendo que cada grupo deveria construir o jogo de handebol a partir do que tinham assistido no vídeo, em 15 minutos. Logo, a primeira pergunta foi: “professor, qual a regra desse jogo?”. Orientei para que eles construíssem as regras a partir do que eles tinham assistido, destacando principalmente seus objetivos.

Assim que todos os grupos terminaram seus jogos, pedi para que um primeiro grupo apresentasse o que havia feito, ou seja, deveriam convidar e explicar para outro grupo suas regras e então jogar entre eles. Da mesma forma foi feita com os outros dois grupos. Enquanto um grupo estava assistindo, o outro deveria anotar em um caderno o que poderia tornar o jogo ainda melhor. Isso aconteceu ao longo de 2 aulas de 50 minutos.

Diversos jogos de handebol foram criados, como: arremessar em gol, tinha de ter um goleiro e não poderia agarrar adversário; um grupo só poderia participar do ataque e o outro só da defesa, tinham de ter número igual de jogadores em ambas as equipes e arremessar somente de fora da área. Contudo, nenhuma das equipes limitou o número de passos que poderia ser dado com a bola nas mãos.

Conforme os jogos iam acontecendo, ainda em sua forma simples, eles iam se tornando mais complexos, conseqüentemente, a todo o momento surgia a necessidade de novas regras. Por exemplo, logo se percebeu a necessidade de estar limitando o número de passos dados com a posse de bola, em função de alguns ‘fominhas’ que cobiçavam jogar sozinhos, viu-se a necessidade de limitar uma zona proibida (área do goleiro), dentre outras.

Por que não deixar correr com a bola dominada? Na minha aula pode! Porque, nesse caso, parafraseando o professor Roberto Paes, os procedimentos pedagógicos adotados estavam em função de tornar o ‘jogo possível’ para quem joga o jogo, ao invés de adequar quem joga em função do jogo.

A segunda pista foi encontrada sobre a capacidade criadora da criança. Muitas vezes (e aqui corro o risco de ser generalista), quando nos propomos a ensinar esporte, nesse caso especificamente o handebol, provocamos um verdadeiro engessamento dessa capacidade.

Limitamos-nos a dizer as crianças como elas deverão jogar o nosso jogo. A jogar o jogo já acabado. Onde, as primeiras indagações deveriam ser “vamos construir? como construir?” o jogo de handebol.

Para a criança, o jogo só tem sentido quando ela é parte do jogo. Ou seja, criadora do jogo que ao mesmo tempo, é jogada por ele (jogo).

Análise Pedagógica

Conteúdo: introdução ao handebol

 Como professor da disciplina “Aspectos Metodológicos para o Ensino do Jogo de Handebol” para o Curso de Educação Física, após uma breve aula expositiva sobre o surgimento do jogo, concluímos que o surgimento do handebol aconteceu em diversas partes do mundo, manifesto sobre diferentes formas e dinâmicas de jogos com bola nas mãos – famílias dos jogos com bola nas mãos. Desse modo, lancei como desafio para a próxima aula que, em grupos, os alunos deveriam ‘criar’ o jogo de handebol a partir do que eles conheciam sobre o jogo, ou mesmo, transformar o jogo.

A partir do desafio proposto um dos grupos adaptou o jogo de handebol com elementos do jogo de basquete (tabela), voleibol (bola não poderia tocar o solo) e do tchoukbal (modalidade criada com elementos do basquete, handebol e voleibol).

O jogo foi desenvolvido em uma quadra de basquete. Foram dispostas duas equipes com o mesmo número de jogadores. O objetivo do jogo era atingir com uma bola de handebol a tabela de basquete, para que a mesma pudesse voltar para a quadra de jogo. Para se conseguir o ponto a bola deveria tocar o solo (como no voleibol) após o lançamento. A equipe que estivesse defendendo, para impedir o ponto, não poderia deixar a bola tocar o solo. Não era permitido o contato corporal. Para recuperar a bola a equipe defensora deveria tentar antecipar a bola. Com a posse de bola nas mãos o jogador só poderia dar três passos (trifásico) ou três passos, drible e três passos (duplo trifásico).

O jogo se tornou extremamente dinâmico. O fato de simultaneamente ter de impedir o arremesso ou antecipar um passe e ainda impedir que a bola venha tocar o solo, exigiu dos defensores extrema atenção. Em função de a defesa ter de marcar toda a quadra de jogo, fez com que os atacantes tivessem de se deslocar intensamente e de forma constante.

O jogo é, sobretudo, uma construção. E por isso, corroboro com Claude Bayer ao dizer que devemos valorizar a criança enquanto ser que age, enquanto produtor do seu jogo.

E somente re-criando o jogo de handebol em função das necessidades de quem o jogo ele conseguirá pular os muros da escola. E isso não é difícil, pelo fato do handebol ser uma modalidade que exige a combinação de habilidades básicas, como: saltar, correr, arremessar, manipular e passar.

Contudo, para isso, devemos preconizar uma pedagogia para a criação. Na qual, os procedimentos pedagógicos, longe de dizer apenas o que fazer (respostas prontas), possa facilitar um ambiente próprio para manifestar toda plasticidade criadora de nossos alunos.

Análise Pedagógica

Conteúdo: arremesso e lançamento

Nas ruas o jogo ‘artilheiro’ é muito conhecido das crianças. A idéia de adaptar esse jogo para o handebol surgiu com um grupo de alunos da 7ª série do ensino fundamental na aula de Educação Física. O jogo artilheiro, tradicionalmente é jogado entre duplas, sendo 1 atacante e na outra metade o defensor. Em uma metade da quadra ficam 1 jogador atacante e outro defensor. O atacante e o defensor que esta em uma das metades da quadra não poderá invadir a outra metade.

O jogo começa com o defensor (goleiro) lançamento a bola para a outra metade da quadra (companheiro), o qual deverá arremessar (ou chutar, no caso do futebol) para conseguir marcar o gol. O defensor (goleiro), apenas dentro do espaço da área do goleiro, terá a incumbência de impedir o gol. Contudo, o atacante não poderá invadir a área do goleiro (defensor) e o goleiro (defensor) não poderá deixar a área do gol. Se acontecer um gol, a dupla que o marcou, deverá imediatamente trocar as funções (mudar de lado na quadra, ou seja, aquele que estava atacando deverá rapidamente se torna defensor e o defensor atacante), com o jogo em andamento.

Claro que esse jogo, feito pelos alunos é muito mais rico em detalhes do que os que pude colocar aqui. Contudo, para aproximá-lo do handebol algumas regras foram colocadas. Por exemplo, o atacante só poderia arremessar antes da linha dos 9 metros (pontilhada) e não poderia dar mais que três passos com a bola dominada. Se o goleiro (defensor) efetuasse a defesa parcialmente e houvesse um rebote, ou seja, a bola tenha sido recuperada, o atacante teria direito a três passos, um drible e mais três passos.

Em outros momentos era possível jogar em trios ou quartetos, colocando mais um defensor para tentar impedir o arremesso.

O mais importante dessa última análise foi que dias depois, fui abordado por um aluno dizendo ‘professor, sabe aquele jogo que fizemos na aula da semana passada, nós jogamos ele na praça perto da minha casa’. Por isso, digo novamente, o handebol preciso pular os muros da escola.

Ai, talvez, possa ter handebol para todos e em qualquer lugar.

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7 comentários sobre “O Handebol Precisa Pular os Muros da Escola

  1. adorei esse artigo estou vendo o mesmo da disciplina de handebol na faculdade estamos discuitindo a prática do handebol dentro das escolas publicas.

  2. Olá Professor!
    Adorei o site e os artigos. Achei muito interessante.
    Mas tenho uma dúvida:
    Na escola onde leciono, ensino handebol, pelo menos tento, mas a dificuldade que enfrento é que os alunos só querem saber de jogar futsal. Muita das vezes até as meninas preferem o futsal ao handebol. Gostaria de saber se teria como pedagógicamente quebrar esse preconceito e fazer com que meus alunos tomem gosto pelo handebol e não precise mais ficar implorando pra eles terem que jogá-lo. Desde ja agradeço a resposta!
    Abraços!!

  3. Ahn eu acheii esse site muito legal…
    Ele ajuda a desenvolver o raciocinio sobre o handebol,e,acima de tudo nao deixar as pessoas em duvidas quantoo ao que falam sobre o esporte.
    O Handebol é um jogo facil, mais que exige muita atençao,
    nao é um jogo qualquer que só pega abola e joga pra cima assim como alguns esportes o hadebol é um jogo de atençao e muita concentraçao.Apesar de ser um jogo muito bom de se praticar muitas pessoas a maioria dos alunos querem saber mais de futsal,entretanto as meninas estao presentes no meio desse porcentual.
    Poderiam os professores de hoje ajudar os alunos a se enteressar por outros jogos (handebol,voleibol e basquetebol)exemplos de alguns.
    Muito obrigadoo e espero que o que eu falei seja util.
    Beijoss!

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