Em tempos de reflexões olímpicas

Artigo gentilmente cedido pelo Prof. Dr. Alcides Scaglia

Artigo também disponível em: www.cidadedofutebol.com.br

O espaço científico é um local impróprio para os saudosistas do passado e para os desatentos à realidade presente e à sua evolução”. Jorge Olímpio Bento

Neste período de balanço sobre o esporte olímpico brasileiro, quero ampliar a discussão retórica e por meio desta crônica pedagógica buscar conectar pessoas que pensam o esporte de maneira diferenciada, ou seja, que o olham por outro prisma.

É tempo de entender o esporte, e conseqüentemente o futebol, inserido no emergente paradigma da complexidade, o qual respalda as novas tendências em pedagogia do esporte.

Sendo que estas novas tendências em pedagogia do esporte devem oportunizar muito mais as lógicas e razões do jogo, do que proporcionar o aprendizado de gestos técnicos estereotipados; devem formar o homem em humanidade e não apenas em “esportividade”; devem levar todos a níveis superiores de conhecimentos independentes do grau de conhecimentos que se alcance; devem facilitar o superar-se; devem permitir a conservação da alegria originária da criança, sua ingenuidade, seu espontaneísmo e criatividade; devem ser uma ponte e não um final de processo, ou seja, “ser transição e não naufrágio”; devem ser uma pedagogia da dor (no sentido de luta pela superação), do desejo, da desocultação da realidade, da descoberta, da modéstia, da humildade, das pequenas grandes coisas, do Eu moral. Enfim, esta pedagogia do esporte vem configurar-se, como bem diz o professor Jorge Olímpio Bento, numa oficina de aperfeiçoamento do homem, do crescimento dos humanos em humanidade.

Mas, para que estes pensamentos possam emergir e tornarem-se realidade aplicada, faz-se necessário que se pense o esporte muito mais na perspectiva de quem o pratica, partindo de uma pedagogia que prima pela qualidade no processo e respaldo teórico científico na aplicabilidade técnica.

Desse modo a mais importante premissa dessa nova perspectiva de entendimento do esporte, que deixará com certeza muitos profissionais do meio esportivo indignados, deve ser: O ESPORTE PODE SER PRATICADO POR TODOS AQUELES QUE QUEIRAM.

Infelizmente, muitas pessoas e, por incrível que possa parecer, muitos profissionais do esporte, não pensam assim, ou são levados a não pensar. Muitos que poderiam vivê-lo, senti-lo, tocá-lo, são condicionados a pensar que o esporte existe apenas para alguns poucos olímpicos escolhidos e, por isso, aos simples mortais, resta, apenas, a posição de espectadores, admiradores do monte Olimpo.

Assistir esportes, concordo, tem lá seu prazer, mas praticá-lo, é muito, mas muito mais prazeroso. Não falo apenas pensando em questões de saúde, digo em respeito ao ego, em respeito à coragem, em respeito à possibilidade do superar-se. Quem vive esporte se descobre guerreiro, se descobre capaz de feitos inacreditáveis. Aflora do seu interior, um poder que o impulsiona, que o põe inquieto frente aos desafios, frente às batalhas, frente ao mundo.

Um esportista, não se contenta com sons e imagens, não quer ser apenas um espectador. Quer estar no campo, competindo, lutando, mostrando sua força e grandeza. Cantando seu hino; hasteando sua bandeira.

Quando digo um esportista, deu para perceber que não estou falando apenas do atleta olímpico, do jogador profissional de futebol, enfim, de atletas de alta performance, estou querendo dizer: TODOS AQUELES QUE PRATICAM ESPORTES! E preciso enfatizar isso.

Todo ser humano pode ser esportista! Todo ser humano é inquieto por natureza e, por essa razão, todos deveriam viver em busca de sua auto-superação. Pois o esportista, antes de vencer alguém, vence a si mesmo.

Mas, será assim que as pessoas responsáveis em promover, divulgar e ensinar esportes pensam? Será que não estão apenas atrás de algum talento para colocá-lo na mídia, ou na arena para entreter os passivos espectadores, e render alguns milhões, por exemplo?

Gostaria de estar errado. Gostaria de julgar que nossas últimas medalhas olímpicas fossem frutos de estruturados programas esportivos sustentáveis, e não de especializações precoces, de elitizações esportivas, ou mesmo de nichos isolados e temporários de rendimento ótimo.

Sonho com o dia em que teremos uma política esportiva decente, robusta e com verbas (e não com quirelas), empenhada e compromissada em desenvolver o esporte nas suas três grandes dimensões: educacional, participação e alto-rendimento.

Trabalho para que o esporte escolar (não em conflito com as aulas de Educação Física escolar), envolto pelos preceitos das novas tendências em pedagogia do esporte, possa se materializar em condutas pedagógicas alicerçadas pelos quatro princípios (pilares) pedagógicos, destacados pelo professor João Batista Freire: ensinar esporte a todos (princípios da inclusão); ensinar bem esporte a todos (princípio da competência pedagógica); ensinar mais que esporte a todos (princípio ético); ensinar a gostar de esportes (princípio do prazer).

Anseio em ver o dia em que o esporte universitário seja valorizado e estimulado (por meio de incentivos fiscais), de modo a abarcar todos os esportes amadores, relacionando esporte e profissionalização especializada.

Adoraria que nossas crianças carentes não vissem o esporte apenas como um meio de ascensão social – como é exaustivamente divulgado -, mas que o esporte para elas fosse o propulsor, o estimulador, para que não desistam tão cedo do jogo da vida.

Todavia… medalha é o que interessa…

Por isso, que o esporte, a partir da soberana visão hegemônica, assuma sua “função social” e tire mais um menino da rua, apenas um, mas desde que ele tenha chance de ser um recordista. O restante? Bem, o restante que pratique o seqüestro 4X4, o assalto com vara, o assalto à distância, o assalto triplo… pois aí sim, somos campeões (processo construído de modo sustentável) e ganhamos muitas, mais muitas, medalhas de sangue, dor e desespero.

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2 comentários sobre “Em tempos de reflexões olímpicas

  1. Alcides, seu texto é brilhante, lindo mesmo rapaz! Tem critica, análise, desalento, utopia e proposta!
    Muito bonito, mesmo, obrigado pelas palavras e pensamento articulado!
    Forte abraco
    Jorge
    obs – tomei a liberdade de divulga-lo para outras listas do cev que assino

  2. Interesante artículo, sin embargo es importante tener en cuenta que hoy en día la influencia de los medias y la económia ha provocado efectos perversos en el deporte de alto rendimiento, la búsqueda del ascenso social mediante la medalla transformada en dinero no tiene límites. Estas diferencia se notan demasiado en los países tercer mundistas o en vías de desarrollo. La pregunta es tener muchas medallas olímpicas o tener a una población con una cultura y hábitus deportivo?.

    Prof. Dr. Miguel Cornejo A.

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