Entre o que aprendemos a ensinar e o que aprendemos a jogar jogando

Por Riller Reverdito

Universidade Adventista de São Paulo Campus Hortolândia/IASP

Faculdade Adventista de Educação Física

Antes de falar sobre o ensinar, devo, sobretudo, começar falando sobre o objeto de ensino. Por isso, começo falando do jogo de handebol.

Contudo, ao falar do jogo, me deparo com Merleau-Ponty, em O Visível e o Invisível, me dizendo que, assim como uma criança, somos capazes de compreender muito além do que poderíamos dizer ou definir. Ou seja, nem tudo que gostaríamos de explicar, conseguimos fazer em sua totalidade, pelo fato de nossa capacidade de explicação ser insuficiente. Mesmo porque, a experiência precede a toda explicação, que se reinventa a partir de uma nova experiência.Em relação ao jogo do qual quero falar, do ato de jogar, certamente não o conseguirei abarcar em absoluto toda a sua plasticidade. No máximo conseguirei falar do jogo que me joga; do jogo jogante, da satisfação que me envolvia ao jogar.

Talvez o exemplo mais facundo dessa situação se manifeste na criança quando a perguntamos o que é jogo. Certamente a resposta será: ‘ah, jogo é jogo’.

No entanto, ao dizer que jogo é ‘jogo’, a criança dá a explicação mais densa e suficiente que poderia existir. Nesse caso a criança está explicando que jogo é jogo e não jogo. Ou seja, não esta falando apenas de suas características ou forma, mas está falando, sobretudo do jogo que a satisfaz. Nesse sentido, quando a criança diz que jogo é jogo, ela está falando do mundo jogo, no qual a explicação e a experiência coabitam em complementaridade (dialética).

Huizinga em sua obra Homo Ludens, dentre outros autores, apresenta algumas das características do jogo, como: ocupação voluntária; construção coletiva das regras, as quais são flexíveis e se adaptam as circunstâncias; frivolidade e êxtase são pólos limitadores; tem um fim em si mesmo; opõe-se ao caráter sério da vida; entre outras.

Mas não é desse jogo que quero falar. Quero falar do jogo que, nas palavras de João Batista Freire e Alcides Scaglia, é movido pela satisfação, e somente o ato de jogar é capaz de revelar o jogo.

Quando jogamos, é como se estivéssemos em outro tempo e espaço. A hora (tempo) passa de forma que nem a percebemos. Não nos cansamos, nem fisicamente ou mentalmente. Por exemplo, um jogador de xadrez, por horas fica sentado observando no tabuleiro as diversas opções para mover suas peças.

Ao jogar, a criança sede espaço para o simbólico; para o subjetivo. A realidade, momentaneamente, dá lugar ao mundo da fantasia. O objetivo dá lugar ao subjetivo. Ela se torna o ser criador do jogo.

Nesse sentido, o ato de jogar é mais do que simplesmente a manifestação de um comportamento. Em seu contexto se revela o desejo de jogar, simbolismo e manifestação mental da situação de jogo, manifestações intrínsecas (anseios, desejos, necessidades pessoais, satisfação) e extrínsecas (problemas a serem resolvidos, regulamentos), permitindo ao jogo ser representado também no plano simbólico (cognitivo) – capacidade humana – como manifestação de jogo.

Um exemplo desse mundo simbólico, da fantasia, são os jogos espetaculares que jogamos sonhando acordados. Quantas vezes uma simples bola de papel, um alvo e um adversário imaginário não se transformaram em jogos grandiosos?

Scaglia, em sua Tese de Doutorado: O Futebol e os Jogos/Brincadeiras com Bola nos Pés: todos semelhantes, todos diferentes, nos diz que o ambiente do jogo é habitado – existe um nicho ecológico – por três seres, os quais coabitam em um jogo intenso de instabilidade e estabilidade: o mundo do jogo, o ser que joga e o senhor do jogo.

No mundo do jogo é possível suspender momentaneamente a realidade, sem que ela seja excluída, cedendo espaço para o simbólico, para as transformações, para extravasar as manifestações intrínsecas (fissura, paixão, compulsão).

Contudo, o mundo do jogo não está desprovido de regras. A realidade está apenas suspensa; não foi excluída. O senhor do jogo vai dizer o que é jogo. Por isso, o jogo não é qualquer coisa. Ao mesmo tempo em que é brincadeira, também é coisa séria.

Por exemplo, quando criança gostava de brincar (muitas vezes sozinho) de construir grandes fazendas, com bois, cavalos, ovelhas, currais, plantações, tratores, estradas, pontes…e até atoleiros.

Em minha infância morei em uma fazenda, era a minha realidade, meu mundo. Então, com uma enxada construía as estradas, com pedaços de gravetos construía as pontes, com alguns pedaços de ossos das patas dos bois (brinquedos comprados eram coisa rara), cuidadosamente limpos e colocados para secar, fazia os cavalos, bois e ovelhas. Mas ovelhas não são iguais a cavalos ou bois, e os touros eram maiores que as vacas. Por isso, tinham de ser diferentes. Ou seja, o senhor do jogo, não deixa que eu fique apenas no mundo simbólico, da fantasia. É um ser metafórico que dá forma ao jogo, impondo limites, para que possa existir sentido na representação do jogo, determinando as leis que irão regular o acaso.

O ser do jogo – criador do jogo – tem o poder de manipular e transformar o jogo. Mas, como vimos essa liberdade para manipular ou transformar o jogo, é aparente. Não se conclui no sentido cabal. O Ser criador do jogo não o faz de maneira descomprometida com o real, ao passo que o transforma, o constrói, o transforma comprometido com o refinamento do jogo, mediante as leis (imposições) do Senhor do jogo.

O ser do jogo e o senhor do jogo coabitam harmoniosamente jogando e sendo jogado, revelando o mundo do jogo.

E sempre que me perguntam o que é jogo, na expectativa de uma explicação, gosto de pensar na resposta dada pelo Professor João Batista Freire: “jogo é tudo que você achar que é jogo”. Foi a resposta mais complexa e intensa que já ouvi de um adulto ‘criança’. De alguém que falou não apenas de jogo, mas do ato de jogar que revela o que é jogo.

Assim, o jogo de handebol, antes de tudo, é jogo.

Nicolau Sevcenko, ao descrever como era o jogo de handebol em sua juventude, o faz da seguinte forma: “o jogo era uma fissura, uma paixão, uma compulsão. Sempre que podia, passava o dia inteiro, treinado, jogando e, exausto, voltava para casa e ia dormir sonhando que continuava no jogo”.

Agora deixo uma indagação aos amigos leitores. Esse jogo descrito como uma fissura, uma paixão, uma compulsão, que o faz depois de exausto, ir dormir sonhando que continuava no jogo, é o que ensinamos aos nossos alunos?

Nós, professores (adultos), infelizmente insistimos em explicar tanto o que é jogo que acabamos nos esquecendo da experiência (de viver) do jogar, do jogo que jogamos e que nos joga, do ambiente do jogo. Esquecemo-nos do ato de jogar.

Na sistemática de uma educação repressiva e dominadora me recordo às celebres palavras do professor Manuel Sérgio: “ignoram que a criança convive, jogando e, mais, que só através do jogo ela pode reduzir a oposição existente entre o princípio do prazer e o princípio da realidade”.

As discussões em torno do ensinar o jogo ficam restritas apenas à sua face procedimental e utilitária. Na academia (graduação) é tema tão sério que se torna apenas trabalho. Ou seja, não existe espaço para o jogo, a brincadeira, para o mundo da fantasia. Mas prevalece o espaço para o treino, para o trabalho.

Contudo, é no jogo que encontramos algumas das mais ricas implicações pedagógicas. O jogo permite à criança não esquecer as coisas aprendidas, sempre que na ânsia de re-vivenciar a satisfação eufórica, provocada ao aprender/resolver um problema, repetir intensamente aquilo que aprenderá. A manter a aprendizagem sempre que o jogo permite a criança/jovem exercitar o que aprenderá, só pelo prazer de repetir e vivenciar todas as sensações manifestas no momento de sua aprendizagem. A aperfeiçoar a aprendizagem, quando assimilado prazerosamente, a busca pelo aperfeiçoamento daquela capacidade/movimento/ação, repetidamente busca pelo aperfeiçoamento do que fora aprendido; pela beleza da ação/gesto/movimento. E após esse processo de estabilidade e fixação do aprendido, a criança está pronta, suficientemente segura e encorajada para uma nova aquisição, para os novos desafios.

Digo que pensar em uma pedagogia para o handebol a devemos fazer partindo do jogo e não do handebol, do ato de jogar, do jogo jogado e jogante.

Desse modo, antes de ensinar handebol, devemos ensinar o jogo de handebol. Antes de sermos especialistas em handebol, devemos ser especialistas do jogo.

Vamos permitir que nossos alunos possam jogar; jogar conforme Freire nos diz: “jogamos quando apenas jogamos”.

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9 comentários sobre “Entre o que aprendemos a ensinar e o que aprendemos a jogar jogando

  1. O artigo apresenta uma forma de abordagem muitas vezes esquecida por nos professores.
    Ensinar um jogo é possibilitar a criança ou ao jovem de ter contato com as diversas formas de manifestação da cultura corporal. A inclusão de atividades do jogo jogado ou mesmo jogante nas aulas ou mesmo nas atividades lúdicas retorna o a criança ao seu mundo de contos e mesmo de realiazações. Estar inserido no meio do jogo é colaborar para o desenvolvimento cooperativo de todo um grupo. O jogo deve então realizar os mais diversos sonhos e ter o poder de acalentar os desejos de estar sempre com sua pratica em mente. Ensinar Handebol deve ser de forma a incluir cada vez mais a criança em seu contexto principalmente no jogo jogante e com adaptações para as realidades da mesma. Transforme o jogo fechado em um jogo aberto para demonstrar que a criança é parte importante deste processo, tera como resposta a dedicação e a paixão por uma modalidade que pode ser desenvolvida com equipamentos simples e muita participação. Transformemos o Handebol no jogo jogado com prazer e principalmente com muita paixão.

  2. Olá Helder….uma excelente análise….

    Realmente este texto do Riller é muito especial ao tratar sobre o jogo de forma tão clara e objetiva.

    Ensinar pelo jogo…é ensinar em sintonia com as necessidades humanas….

    Jogando, tudo ganha sentido e se torna mais interessante.

    Na área da educação fisica, nos privar desse instrumento de educação é negar nossa área de atuação.

    Abraços,

  3. tenhu 20 anos desde pequena jogo hand na escola mas agora eu keru continuar jogando tem alguma escola aqui em são paulo capital que atenda as minhas necessidades? se vcs souberem me ajude por favorrr!!!

    bjuxxxx

  4. sempre gostei de jogar volleyball na escola, e também já participei de aulas desse jogo particulares gostaria que desses mais oportunidades as crianças de hoje nas escolas pra que fizessem campeonatos de volleyball……………

  5. Ola Luiza..olha que grande coincidencia. Joguei voleibol durante toda minha juventude tb, e ainda jogo quado dá. Joguei dos 11 aos 17 anos, e depois reencontrei o voleibol na Faculdade.
    Acho q sua exigência faz todo o sentido.
    Faá o seguinte….organize-se com seus colegas e sugira ao professor de edicação física que realize atividades de voleibol um horário extra-aula, ou seja, fora da aula de educação física, pois assim vocês podem se aprofundar um pouco mais na modalidade e não deixam de fazer as aulas de educação fisica, que é super importante pra que você tenha acesso a mais coisas que a matéria pode te oferecer….

    Abraços,

  6. Muito feliz em encontrar este site apos um passeio descompromissado e, ainda por cima, poder ler algumas considerações do prof. Riller Riverdito, que tive a honra de conhecê-lo no ENPH-IES, em Santa Catarina, 2007.

    Feliz pelas considrações a cerca do jogo e do ato de jogar.
    Dentro dessas considerações, não na tentativa de reduzi-lo, mas poder perceber além do que é visto, estimulo os alunos a perceberem o que está em jogo no jogo? e por vezes, as aulas ganham direções não imaginadas que transcendem as limitações fisicas da quadra de handebol.

    tenho interesse nessa tematica.
    Gostaria de manter contato e poder colaborar para o cresciento deste site.

    Grande abraço,

    Angelo Amorim

  7. oi eu queria perguntar a vc como se aapersenta um jogo de handebol e quantos minutos leva o jogo me ajuda
    beijos ass sarah meu numero e 3469 2151

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