Análise Pedagógica do Handebol de Areia (Beach Handball)

Introdução:

Você conhece o handebol de areia? Você sabia que o Brasil é uma das principais seleções (masculinas e femininas) nessa modalidade? Pois é, além de muitos títulos mundiais, na última edição da competição mundial, a equipe feminina saiu com um 3º lugar e a maculina com a Prata, mostrando assim que a cada ano a equipe tem conseguido se manter na elite mundial da modalidade.

O Handebol de areia é uma modalidade que, apesar de carregar o nome “handebol” possui diferenças significativas se comparada ao “handebol de quadra”.

<!–[if gte vml 1]> <![endif]–>Essas mudanças iniciam-se pelo número de jogadores em quadra. Enquanto que no handebol de quadra, temos 7 jogadores, dos quais 1 deve ser um goleiro, no handebol de areia esse número é diminuído para 4 jogadores dos quais 1 é o goleiro. A quadra também é substancialmente menor.

Figura 1. Dimensões da quadra de “Handebol de Areia” e área do holeiro em formato diferente – uma possibilidade para exploração pedagógica (fonte: http://www.handbonline.blogger.com.br)

Figura 2. Distribuição Clássica de Jogadores na Quadra – Goleiros não participam da construção do ataque

Figura 3. Distribuição Clássica de Jogadores no Handebol de Areia – Verificar o goleiro participando da construção do ataque

Além desses números reduzidos, nesse jogo, finalizações com características “malabarísticas” (giro de 360°, gols de “ponte aérea” e cambalhotas no ar) e o gol de goleiro têm um valor dobrado, logo, valem 2 pontos.

Vídeo 1. Lances de Ponte Aérea

Vídeo 2. Gols com giros de 360°

Vídeo 3. Gol de Cambalhota

Vídeo 4. Gol de Goleiro

Outras regras diferenciadas regem essa modalidade, mas com essa descrição básica, é possível caracterizar o handebol de areia para esse artigo.

Objetivos

Esse artigo vem mostrar como a organização lógica do handebol de areia pode ser útil no processo pedagógico do handebol.

Será analisado como tais diferenças citadas anteriormente – tamanho de quadra, número de jogadores em quadra e as regras que incidem sobre os goleiros poderem fazer gols com valor dobrado – podem contribuir para enriquecer ainda mais o processo de aprendizagem do handebol de quadra.

A possibilidade de transferência de aprendizado:

Scaglia (2003), através do seu estudo dos jogos de bolas com os pés, defende a idéia de que a aprendizagem do jogo deve valorizar em seu processo a vivência de jogos que pertençam à mesma “família de jogos”. Ou seja, o processo de ensino-aprendizagem deve possibilitar ao aluno vivenciar jogos que sejam capazes de levar adaptações positivas, de ordem lógica e das ações, a outros jogos.

Sob a perspectiva das “famílias de jogos”, jogo passa a ser analisado como uma unidade complexa, cujos elementos que o constituem – os jogadores, as condições externas, as estruturas motrizes e as regras do jogo – interagem entre si simultaneamente.

A partir dessas relações, é possível observar a aprendizagem de conceitos que além de serem específicos àquele jogo, passam a ser transferidos para outros jogos, de modo a influenciar positivamente as ações do jogador neste novo jogo, desde que entre esses jogos haja semelhanças dos padrões organizacionais e lógicos, ou seja, desde que eles pertençam à mesma uma “família de jogos”.

Scaglia (2003) dá a essas capacidades aprendidas e capazes de transferência para outros jogos, o nome de “emergências”, pelo fato de emergirem de um jogo para outro, de maneira a possibilitar adaptações positivas de aprendizagem de jogo para jogo.

Os Jogos Desportivos Coletivos podem, sob essa perspectiva, serem considerados como uma “família de jogos”, devido à presença de princípios em comum, que podem ser transferidos de uma modalidade para outra.

Essa característica de transferência de aprendizado, Bayer (1992) chama de transfert. Segundo o autor, essa transferência está associada principalmente aos fatores organizacionais que são comuns à maioria dos Jogos Desportivos Coletivos.

Esses fatores são denominados por Bayer (1992) de “Princípios Operacionais do Jogo”, que podem ser descritos por seis princípios que estão presentes à todas as modalidades desportivas coletivas com característica de invasão de campo, sendo esses princípios:

Ofensivos

Manutenção da Posse de Bola;

Progressão da Bola e da Equipe ao Campo Adversário;

Finalização ao Alvo;

Defensivos

Recuperação da Posse de Bola;

Impedir a Progressão da Bola e da Equipe ao Próprio Campo;

Proteção do Alvo;

Ao observar esses princípios destacados por Bayer (1992) e pensá-los para qualquer modalidade coletiva, podemos perceber a existência de cada um deles nessas modalidades, podendo portanto, concluir que o futebol, basquete, râguebi, hóquei, o handebol (dentre outras modalidades) podem ser considerados de uma mesma “família de jogos” sob a ótica organizacional.

No caso do handebol e do handebol de areia, isso fica ainda mais claro, principalmente por fatores ainda mais semelhantes os aproximarem, que os caracterizam como um jogo de handebol. Se você tem dúvida disso, veja o vídeo abaixo que mostra um pouco do que é o handebol de areia:

Vídeo 5. Um Pouco de Handebol de Areia

Pensando sobre a lógica da “família de jogos” o handebol de areia e o “handebol de quadra” acabam por ser modalidades que, além da transferência dos aspectos organizacionais (princípios do jogo) apresentam a característica de serem jogos de bolas com as mãos, com um alvo que é protegido por uma área exclusiva (área do goleiro).

Seguindo a idéia defendida por Scaglia (2003), ambos, como jogos de uma mesma família (poderíamos usar o termo “jogo de bolas com as mãos”), são capazes de possibilitar ajustes de aprendizagem (emergências) que beneficiem tanto um jogo quanto o outro.

Portanto, o aprendizado do handebol é capaz de regular positivamente o handebol de areia (como é o caso hoje, que muitos jogadores de handebol acabam migrando para o handebol de areia) e o aprendizado do handebol de areia é capaz de regular positivamente a aprendizagem do handebol de quadra.

Utilização Pedagógica da Lógica do Handebol de Areia para Aprendizagem do Handebol de Quadra:

Conforme destacado na introdução desse artigo, analisaremos como a mudança do número de jogadores, a redução do tamanho da quadra e a possibilidade do goleiro fazer gols que valham 2 pontos, podem ser transferidas positivamente no processo pedagógico do handebol.

A aplicação de um jogo com as seguintes regras: jogo com 3 jogadores de quadra e 1 goleiro, em espaço reduzido, dando ao goleiro a possibilidade de marcar gols valendo 2 pontos; cria a demanda de um jogo com particularidades pedagógicas muito interessantes.

1. A realização de pequenos jogos em ambientes de treinamento e pedagogia do esporte amplia as possibilidades dos jogadores em vivenciar com maior especificidade as ações que o jogo formal (em nosso caso handebol de quadra);

2. O jogo é jogado com um número menor de jogadores, mas que cria a oportunidade de resolver os problemas do jogo de maneira bastante análoga ao jogo de handebol de quadra, pois, uma situação mínima de 3×3 dá ao jogador em posse de bola, a oportunidade de, além de tomar atitudes táticas individuais, ter o apoio de mais de um jogador em sua equipe, tornando o jogo mais complexo do que, por exemplo, um jogo de 2×2, em que as opções de apoio tornam-se limitadas, diminuindo o grau de dificuldade do jogo e tornando-o menos imprevisível;

3. A diminuição do tamanho da quadra em detrimento de um menor número de jogadores possibilita que a “intensidade tática” para execução das ações mantenha-se alta, pois uma quadra grande com poucos jogadores diminuiria a carga para a resolução dos problemas, enquanto que a quadra diminuída mantém essa carga em altos níveis, aproximando-o ao do jogo formal;

4. Reforçar o fato de que o goleiro pode realizar gols que valem dois pontos cria a possibilidade de o goleiro arriscar-se a jogar como jogadores de quadra, algo que o goleiro que joga o handebol de quadra também pode realizar – fato muitas vezes esquecido pelos Professores de handebol.

Com jogos que estimulem essa participação dos “goleiros” do jogo em atuar na linha, além de vivência das ações específicas do goleiro, o jogador também realiza as ações gerais do jogador de handebol, que consistem na participação das ações ofensivas e defensivas do jogo.

Esse é um ponto importantíssimo a ser destacado nesse artigo que trás a utilização de jogos análogos ao handebol de areia nas aulas de handebol, pois é uma forma de estimular a participação de alunos/atletas no gol, mas sem que haja o esquecimento do ensino das ações de quadra e, portanto, fugindo do problema da especialização precoce desses jogadores.

5. Ao estimular do goleiro a atuar na quadra, cria-se uma situação de sobrecarga numérica de jogadores de ataque em relação aos jogadores de defesa (4×3), situação essa que facilita as ações ofensivas e dificulta as tomadas de decisão defensivas.

Figura 4. Estrutura do Jogo com a Atuação do Goleiro como Jogador de Quadra.

Dessa forma, é um estímulo aos jogadores de defesa procurar melhores opções defensivas (bom para a etapa de adaptação da marcação individual para a marcação em zona).

Do ponto de vista ofensivo, esses jogos mostram como a sobrecarga numérica é algo importante de ser buscada no ataque, criando a possibilidade dos alunos transferirem ações coletivas que potencializem a situação de sobrecarga numérica em outros jogos (como o próprio handebol formal) vivenciados no processo de ensino-aprendizagem.

Conclusões:

Tendo em vista um processo pedagógico do handebol de qualidade, deve-se potencializar a utilização de jogos que cujas “emergências” aprendidas sejam capazes de ser transferidas para outros jogos, e dentre eles o próprio handebol.

Conhecer o handebol de areia e analisá-lo como mais um jogo da “família de jogo de bolas com as mãos”, pode possibilitar a utilização de regras semelhantes para a criação de jogos que estimulem novas situações a ocorrerem naturalmente no percurso do jogo, possibilitando o exercício da criatividade e da solução de problemas semelhantes aos presentes no handebol de quadra.

Bibliografia:

BAYER, Claude. La Enseñanza de los Juegos Deportivos Colectivos. 2. ed. Barcelona: Hispano Europea, 1992.

SCAGLIA, Alcides José. O Futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação Física, Campinas, 2003. [clique aqui]

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13 comentários sobre “Análise Pedagógica do Handebol de Areia (Beach Handball)

  1. Prezado Lucas,
    Seu artigo é interessante na medida que procura desvelar novos caminhos para o aprendizado do Handebol Indoor. Gostei muito, pois não é pretencioso e deixa margem para muitas questões que serão investigadas com o tempo.
    Gostaria de contribuir com uma observação nesse contexto de transferência. Tenho atleta de areia, que aponta para algumas facilidades após passar por eventos na areia e retornar para a quadra. Entre outras, cito a questão da melhoria no entendimento do jogo em superioridade. Naturalmente, isso precisa ser investigado, porém, me parece possível que jovens que demonstram dificuldades no jogo de superioridade e inferioridade, possam encontrar no beach handball um grande intrumento de desenvolvimento/aperfeiçoamento.
    Aproveito esse espaço e peço sua autorização para, no meu blog, colocar um endereço de seu artigo.
    Forte abraço,
    Prof. Guerra-Peixe

  2. Olá professor, nossa que honra tê-lo interagindo no site.

    Realmente a idéia desse artigo é desvelar as possibilidades pedagógicas que o handebol de areia tem em relação ao handebol de quadra (indoor) e vice-versa.

    Trabalho nesse artigo a idéia da Família dos Jogos, classificação que eu adoto e que é defendida pelo Prof. Dr. Alcides José Scaglia, em sua tese de doutorado.

    Nessa forma de classificação o handebol de areia e o handebol indoor passam a ser analisados não como modalidades exclusivas, diferentes entre si, com regras e possibilidades de jogo diferentes. Mas passam a ser analisadas como Jogo de Bolas com as Mãos, com características transferíveis entre si.

    Logo, que joga handebol é capaz de transferir aprendizagens para o handebol de areia e quem joga handebol de areia passa a transferir aprendizagens para o handebol indoor.

    Defendo isso também na iniciação ao Desporto Coletivo, caracterizando os Jogos Desportivos Coletivos como uma grande família de jogos, que possuem uma matriz funcional muito semelhante, apontada por Claude Bayer já na decada de 1970, mas que chegou no Braisl apenas em meados dos anos 90.

    Passe pra mim o nome e endereço do seu blog. Gostaria muito de poder divulgá-lo aqui também.

    Forte Abraço! E bom trabalho com nossa seleção de handebol de areia masculino.

    Até mais,

  3. Olá professor, nossa que honra tê-lo interagindo no site.

    Realmente a idéia desse artigo é desvelar as possibilidades pedagógicas que o handebol de areia tem em relação ao handebol de quadra (indoor) e vice-versa.
    d+

    tudo aver com handebol eo amo handebol!!!!!!!!!!!!1

  4. Fala camaradas,

    eu amo as duas modalidades do handebol na areia e o idoor. Sou professor de educação física a 10 anos e jogo o hand de areia 15. gostei muito de entra neste papo…

  5. Buscando os melhores conhecimento! Pensando em fazer meu pré projeto com a iniciação ao handebol areia bem como base já para o tcc

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