HANDEBOL NA VEIA – Esporte e comunidade

Por Jorge Dofman Knijnik

Professor da School of Education, University of Western Sydney (NSW, Australia)

Você que está visitando este sítio, possivelmente já jogou handebol. Provavelmente, você conheceu um mínimo da modalidade enquanto estava na escola, e jogou handebol em aulas de Educação Física no ensino fundamental e médio. Talvez você tenha se engajado em equipes representativas da sua escola, e disputado competições intercolegiais – são dezenas, talvez centenas de competições, entre escolas do ensino oficial ou particular, algumas com nomes de patrocinadores, outras financiadas pela própria estrutura governamental – porém, todas com uma característica comum: centenas de equipes participam na modalidade, de diversas idades, de ambos os sexos.

Realmente, o handebol é um fenômeno em nível escolar, seja dentro dos muros de cada escola, ou mesmo nas competições entre as escolas. O handebol é sempre uma das modalidades mais concorridas e disputadas. Até em jogos universitários, interfaculdades, o handebol é sempre muito movimentado, há grande quantidade de atletas e equipes se envolvendo com a prática.

Entretanto, quando tentamos visualizar a modalidade na alta competição, na grande mídia, o handebol esvanece, ainda são muito poucas as notícias e as informações sobre este nível da competição – é preciso ser ‘iniciado’ na modalidade, pagar canais fechados de TV, saber onde localizar na internet (e ás vezes nem aí se encontram as novidades…) – enfim, quem quer saber algo sobre o alto nível do handebol tem que ir atrás da informação, pois esta não procura o público.

E neste ponto que, para quase todos os que conhecem, jogam ou jogaram handebol, para professores envolvidos na educação esportiva, para técnicos e dirigentes, surge sempre a pergunta: o que faz com que o handebol seja tão disputado entre a garotada em idade escolar, tão conhecido e praticado por estudantes desta faixa etária, mas seja quase que um “ilustre desconhecido” da população em geral? Ou, como comentou Júlio Lara, um colega professor de Educação Física, goleiro do seu time colegial de Itapetininga, no interior de São Paulo, nos seus tempos de estudante: “Por que o handebol é popular e não é popular?”.

Na verdade, esta aparente contradição (popularidade X “não-popularidade”) acontece, pois há pouquíssima informação em relação ao alto nível da modalidade. A alta competição no handebol existe e é organizada no Brasil, há alguns atletas, técnicos e equipes profissionais, algumas dezenas de jogadoras e jogadores participando de equipes européias com sucesso; no país, disputam-se campeonatos (ligas) estaduais e nacionais, as nossas seleções vão a Jogos Pan-americanos e Olímpicos, entre outras manifestações do esporte de rendimento. Contudo, o grande público, mesmo aquele que acompanha diariamente o esporte, não consegue estar a par do que ocorre com este alto nível da modalidade.

Nos limites desta coluna, dificilmente conseguirei – nem pretendo – responder às perguntas sobre o alto nível e financiamento esportivo, o que deixo para as pessoas, sobretudo os dirigentes, envolvidos há anos com a grande competição, sem ainda conseguir dar uma solução para o problema do destaque nacional e internacional que o handebol brasileiro poderia ter, se houvesse uma relação direta entre a grande quantidade de participantes nas escolas (a popularidade) e a competitividade e o brilho das equipes e seleções adultas.

No entanto, o que posso afirmar é que existem alguns motivos claros pela atração que a prática do handebol exerce nas crianças e jovens em idade escolar (e o grande volume de pessoas que, como dito inicialmente, jogam e jogaram na escola, e a enorme quantidade de equipes envolvidas nas competições escolares, apenas comprova esta grande simpatia e adesão à modalidade). É que o ensino do handebol para crianças e adolescentes é um grande meio e um instrumental poderoso para a consecução de diversos objetivos da educação física e da educação esportiva, tanto nas escolas como em clubes ou mesmo em organizações não-governamentais que utilizam o esporte como uma ponte para atingir crianças e jovens em situação de risco social, e ajudá-las a recuperarem a sua auto-estima, reconhecendo-se como pessoas, e também se transformando em cidadãos.

E o que também afirmo é que este coluna pretende fornecer subsídios a todos que se interessarem em trabalhar com esta modalidade que, como já dito e repisado, é extremamente querida por estudantes de todo o país, por algumas razões que comento agora.

O primeiro motivo bem definido para a prática da modalidade entre crianças e jovens são os seus movimentos gerais. Driblar a bola, correr com ela, arremessá-la a gol, num primeiro momento (isto é, sem pensar no refinamento destas habilidades) são movimentos relativamente fáceis de serem aprendidos e realizados. Desta facilidade advém uma grande motivação, o aprendiz rapidamente obtém sucesso nos primeiros contatos com as habilidades e o jogo, e isto com certeza o estimula a prosseguir na prática.

Desta facilidade inicial, surgem muitos gols, pois é gostoso e não existem grandes dificuldades – para quem teve uma razoável formação psicomotora anterior – em segurar a bola, arremessá-la e fazer gols. Quanto maior o número de gols, maior a alegria, e maior a adesão ao jogo.

Junte a isto o fato do handebol ter um grande número de jogadores – sete para cada time – a maior quantidade dentre os jogos esportivos de quadra – isto é, possibilidade maior de todos participarem.

Assim, um início relativamente fácil em termos motores (a “sintonia grossa” da modalidade é aprendida sem grandes problemas), uma possibilidade de sucesso rápido, a alegria proveniente destes fatos, em conjunto com a felicidade de estar com muitos colegas (14 juntos, no mínimo), e tem-se uma reunião de fatores que favorecem a aprendizagem do handebol entre crianças e adolescentes.

Percebendo estas facilidades, os professores de educação física e educação esportiva acabam por empregar bastante a modalidade, no intuito de aprimorar habilidades e capacidades diversas de seus alunos, e concomitantemente trabalhar habilidades sociais de cooperação e rivalidade, liderança e negociação, bem como habilidades cognitivas, aprendizado de regras, localização espaço-temporal, classificação, desenvolvimento da linguagem, entre outros. Ou seja, o handebol acaba também sendo o “favorito” de muitos professores e educadores, que o utilizam como uma ferramenta dos seus programas educativos onde quer que estejam – potencializando assim o “efeito jogar handebol” na faixa etária escolar.

Desta forma, esta coluna, no interior deste valioso sítio do Leonardo, se propõe a ser um instrumental para os educadores que optaram pela atividade física e esportiva como conteúdo e meio para incrementar o processo educativo.

A área de educação esportiva no Brasil não pára de crescer. A demanda por programas esportivos de iniciação e aprofundamento é um fato inexorável. Seja nas escolas oficiais, para reunir os alunos, ou nas escolas privadas como forma de propaganda; em clubes ou escolas de esporte particulares; e, sobretudo no terceiro setor, entidades que se engajam visando atender dignamente crianças e jovens com pouco ou nenhum recurso para práticas organizadas e sadias de lazer – a realidade mostra que este campo de trabalho aumenta a cada ano, e que necessita de profissionais que entendam profundamente do processo de ensino – aprendizagem das diversas modalidades, nos seus diferentes níveis.

Após dezenas de anos como atleta de handebol (de fato, fui um jogador medíocre, mas feliz!), como professor de crianças e adolescentes, como técnicos de times das mais variadas idades, e como professor de dezenas de cursos de graduação e pós-graduação da modalidade, sou testemunha viva (e vivida…) da força do esporte, e do handebol em particular, no sentido de reunir as pessoas para uma convivência mais harmoniosa. O esporte pode, e deveria ser visto, como um dos fatores mais importantes de entrelaçamento e consolidação de relacionamentos sadios entre as pessoas, e de ampliação de laços comunitários de diversos níveis e graus. É assim em diversos países desenvolvidos, pode vir a ser no nosso.

Assim, nesta coluna, pretendo ampliar este diálogo com qualquer possível leitor – ouvir dúvidas, queixas, idéias, comentários – para, de fato, aumentar as possibilidades de atuação educativa, esportiva e social de todos que gostamos e temos compromisso com o esporte, e com o handebol em especial. Iremos discutir novas formas de pensar a modalidade, e a partir do pensamento, jeitos diferentes de encará-la, treiná-la, ensiná-la e aprendê-la; enfim, de curti-la. É HANDEBOL NA VEIA!

Se quiser contribuir nesta troca, aguardo suas idéias!

Um abraço

Jorge Dorfman Knijnik

P.S. – Saúdo o Lucas Leonardo, autor deste maravilhoso sítio; mando um abraço para o Diogo Castro, que me faz reenxergar o handebol; saúdo especialmente meus amicíssimos do handebol, Edilson Grum e Robson Andrade – e dedico esta coluna para a Daniela Piedade fazer muitos gols em Pequim!

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19 comentários sobre “HANDEBOL NA VEIA – Esporte e comunidade

  1. Gostei dessa análise do Handebol (agora para mim Andebol, pois vivo em Portugal). Professor de EF, mestre em Desporto para Cçs e Jovens, actualmente treinador de Basquetebol, fui enquanto praticante uma pesssoa tão razoávelmente eclético que nunca cheguei a ser suficientemente bom ou especialista para vingar na alta competição numa modalidade. Ainda assim acredito muito na tranferência entre as modalidades desportivas; e especialmente as noções táctica podem ser muito exploradas entre o Andebol, Futsal e o Basquetebol, sendo este primeiro do ponto de vista técnico dos mais “simples” para a iniciação desportiva. Aqui de longe, também penso que seria interessante, a semelhança do volei, aproveitar toda essa costa, para desenvolver a vertente de Andebol de praia, como se faz muito por aqui e com um “ventinho constante e gelado”. Grande Abraço, e sucesso para todos
    António Veleirinho

  2. Gostaria de parabenizar ao Jorge pelo artigo e ao Lucas pela iniciativa e realização do site.Lucas estou a disposição caso precise de ajuda para possíveis esclarecimentos ou comentários sobre regras e o que possa interessar sobre arbitragem.Abraços,
    Carla Righeto

  3. Olá carla, fique à vontade para sanar essa dúvidas que são constantes aqui no site.

    Escrevi alguns artigos sobre regras e considerações pedagógicas e sei que duvidas quanta ás regras sempre surgirão.

    Conto com seu apoio e colaboração!

    Abraços,

  4. Olá António, tudo bem. Não imaginava vê-lo comentando em meu site. Tenho alguns artigos seus guardados, os quais constantemente leio e reflito.
    Muito obrigado pela visita, espero mais comentários e mais colaborações suas, que com certeza enriquecerão ainda mais esse ambiente.
    Abraços para o “além mar”, nossos patrícios e queridos portugueses.

  5. Oi Gostaria de parabenizar você Jorge pela publicação e ao outros autores. Muito bom e interresante de ler, ainda mais para quem é viciada em handebol.

    Um grande Beijo e mutio sucesso para todos.

    Ana Carolina
    Mack 2008

  6. Querido amigo Jorge;
    Muito legal seu artigo, fiquei feliz em ler os comentários do Antônio Veleirinho e a qualidade de seu texto.
    É bom perceber que em várias modalidades há o vento da sagrado da renovação. Por incrível que pareça, o termo (sopro ou vento divino em japonês, significa kamikase). E vivam os kamikases, Banzai!
    Abraço à todos!

  7. Salve Grande Jorge,
    Parabéns pelo texto muito bem escrito, como lhe é peculliar!!!!
    Esta proposta de discussão é extremamente interessante e só irá incentivar o crescimento desta modalidade realmente praticada por todos e infelizmente esquecida pela maioria.
    Gostaria que outras modalidades tivessem contribuições positivas como a sua para que todos pudessem crescer com consistência.
    Um grande abraço do seu amigo
    Rubens Gabriel

  8. Fico feliz de saber e agradecido pelos espaços de aprendizagem que somente são abertos pelos que são verdadeiramente professores.
    Que este seja mais um espaço importante de reflexão, onde se debate com qualidade nosso tão amado Handebol.
    Grande abraço ao Professor Jorge e a todos e todas.
    Diogo Castro

  9. Olá Diogo, obrigado pela visita. Quando desenvolvia a idéia do site, era exatamente com a idéia de criar um ambiente socializador de novos conhecimentos acerca do JEC e mais precisamente do Handebol. E fico feliz disso estar acontecendo!
    Muito obrigado pela visita!
    Até mais!

  10. Apaixonei-me recentemente pelo handebol depois que comecei namorar um ex-atleta da modalidade que tem me ensinado muito sobre esse delicioso e viciante esporte.
    Lamento não tê-lo praticado com tanta frequencia no colégio e nem ter me dedicado a ele antes pois, meu grande sonho sempre foi ser atleta (volei ou natação, a princípio). Agora, descobri que poderia este também ter sido um caminho e, inclusive me recordei de inter-classes que joguei no primário, ou, o que chamamos hoje de Ensino Fundamental.
    Parabéns pelo sitio, pelo texto e por todo o conteúdo!
    Um abraço!

  11. Olá Caroline, tudo bem?
    O handebol realmente é um esporte “viciante”. Minha experiência como atleta de handebol também é bem pequena. Digo que quase nenhuma (joguei apenas na faculdade, como goleiro, depois joguei na seleção da Universidade – erá reserva, mas sem problemas rsrs – e tive uma participação na liga de handebol de indaiatuba e região.)
    No entanto, estudá-lo vem sendo algo muito interessante e ensiná-lo também!
    Esse é o handebol, só quem vive é que sabe o quanto ele é “viciante” como você mesmo disse!
    Obrigado pela visita!
    Esperamos mais acessos!
    Abraços,

  12. Fala Jorge….
    Um gde abraço e parabens pelo sucesso.
    Eu estou morando me MG, na cidade de Caxambu, e comecei um trabalho aqui com handebol, e olha ta indo muito bem recentemente minha equipes feminina foi campeã dos jogos escolares na fase micro regional e 4ª colocada na fase regional.
    Fica aqui um convite qdo quiser aparecer e so avisar.
    Abraço
    Waldir Tapetti

  13. Ola Lucas td bem?
    Muito interessante seu texto, estou pesquisando para minha monografia sobre handebol, e pretendo trabalhar +ou – esse tema, se tiver algumas pesquisas ou mais textos sobre a grande sucesso do hand nas escolas e tal e me puder passar por e-mail eu agradeco !!
    Hoje em dia o Hand é o segundo esporte mais ensinado nas escolas (disse na globo né huahua ) entao to a procura de artigos, de materias, de pesquisar sobre isso , se vc tiver mais textos escritos sobre isso e puder enviar para mim por e-mail ou compartilhar conosco pelo site agradeco desde de ja …

    obrigada

    parabéns

  14. Ola,Tapetti,tudo bom?
    Legal,obrigado pela visita,certamente vou aparecer em caxambu ver este seu trabalho ao vivo,parabens,um forte abracao!
    Jorge

  15. oie adorei seu depo e sou super apaixonada por handebol.
    eu fazia aula ganhei varias bolças mais resolvi parar agora quero voltar a fazer mais ja procurei em varios lugares e nao acho…
    se vc souber algum lugar e poder me informar ficarei agradecida beijos e abraços

  16. Boa noite.
    Estou aki para pedir a colaboraçao de vcs.
    se souberem um lugar aonde procura jovens talentos para o Handebol pelo amor de Deus me falem
    eu sou de Pompéu e acho q aki nao temos futuro no handebol e aki somos muitos jogadores excelentes
    Poe Favor me respondemm abraçoss

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