A miopia embutida no tecnicismo – Porque não usá-lo na iniciação ao handebol

Quando nos reportamos à iniciação ao handebol, nos reportamos para ambiente no qual se observam muitos casos de aulas baseadas nos princípios de ensino tecnicistas.

Nelas, os elementos técnicos são o principal objetivo da aula, pois esse tipo de abordagem de aulas faz acreditar que execução de tarefas, já determinadas, explicadas e organizadas anteriormente pelo professor possibilitam ao aluno a assimilação daquele determinado gesto técnico, crendo que a fragmentação do jogo em elementos técnicos ensinados de maneira isolada proporciona ao aluno a aprendizagem do jogo.

Explicado o que se entende sobre abordagem tecnicista, destaco àqueles adeptos dessa metodologia de trabalho que ela está errada, principalmente no que se diz respeito de sua compreensão de “o que é técnica”, ou seja, ela está equivocada em sua essência.

Dentro da idéia dos jogos coletivos, Garganta (1998, p.22), apoiado em Mauss (1980), destaca que a técnica esta relacionada com “as diferentes formas de utilização do corpo com os constrangimentos impostos pelas características das respectivas modalidades desportivas”.

Observando a citação à cima, deixa-se claro que técnica está associada a um constrangimento imposto pela modalidade em questão. Mas o que significa esse constrangimento citado por Garganta (1998)?

Em busca dessa resposta, imaginemos a seguinte situação hipotética: um aprendiz de sapateiro que está começando a fazer seus primeiros sapatos inicia sua empreitada. Dia após dia, o ato de fazer sapatos vai possibilitando a ele desenvolver novas e melhores formas para fazer seu sapato com maior rapidez e precisão. Ele, no entanto, experimenta formas e mais formas de fazer seus sapatos e vai aos poucos apreendendo as formas mais eficientes e eficazes, pois depois de muitas formas tentadas ele tende a encontrar um melhor modo para fazer seu sapato. Após alguns anos de labuta, ele desenvolve sua própria técnica de fazer sapatos.

Essa pequena história, quando levada para a idéia de ensino, pode propiciar a seguinte reflexão: “Então, para ele se tornar um bom sapateiro ele teve que repetir muitas vezes as ações, aperfeiçoando sua técnica através dessa repetição.”

Esse tipo de reflexão, apesar de parecer lógica e capaz de sustentar a idéia do ensino desportivo através do tecnicismo é na realidade um grande engodo que acaba caracterizando a, por mim chamada, “miopia do tecnicismo”.

Dessa forma, visando corrigir a imagem distorcida por essa “miopia”, sugiro que se reflita assim: um aprendiz de sapateiro que aprende apenas a pregar os pregos da sola do sapato, se tornará um excelente… pregador de solas de sapato. Ele não saberá, a não ser que vivencie a montagem do sapato, montar um sapato.

Ensinar um aluno a jogar futebol através de treinos de finalização onde ele receba um passe, dê três passadas, salte por um cone e arremesse a bola em um determinado alvo no gol, tornará este aluno um excelente… arremessador de bolas, saltando por cima de cones visando acertar um determinado alvo no gol.

Agora, um bom sapateiro só tornou-se um bom sapateiro não porque repetiu isoladamente diversas etapas da montagem dos sapatos, mas sim porque montou muitos sapatos e desenvolveu formas de solucionar os diversos problemas que esse processo lhe incumbia.

Dessa forma, um aluno só poderá jogar bem o jogo se ele vivenciar as ações técnicas em atividades que simulem ou que possibilitem a ele vivenciar o contexto do jogo de futebol, a final, a técnica não deve ter contexto com o jogo?

Então pra que ensinar técnicas isoladas de uma modalidade a alguém, quando se quer que seu aluno jogue bem o handebol? Então porque ensinar um aprendiz a sapateiro apenas a pregar a sola do sapato você quer ensiná-lo a ser um sapateiro?

Sob essa nova perspectiva, torna-se possível observar os problemas interpretativos que o modelo de ensino tecnicista possui quanto ao ensino da técnica e que muitas vezes nos são escondidos por uma má interpretação de exemplos como esses.

A miopia do tecnicismo até exatamente aí? A metodologia não compreende que a única forma de a técnica ser aperfeiçoada e abordada é através de situações de jogo. Pois vivenciando essas situações é possível adquirir-se formas de responder às necessidades do jogo, através das respostas corporais adequadas ao contexto do jogo.

O tecnicismo não percebe que a técnica só existe como resposta a um problema que é apresentado no contexto do jogo, assim, ensinar pelo tecnicismo é errado!!! – afirmo novamente e com muitas exclamações – pois esse tipo de abordagem não apresenta problemas a serem resolvidos a partir de soluções táticas e através de execuções técnicas, mas apresenta aos alunos soluções que devem ser repetidas através de tarefas, ou seja, primando pela mera execução.

Conclusão: Se pensarmos que técnica está associada à resposta de problemas vivenciados e apresentados no ato de jogar, verifica-se que o tecnicismo não ensina a técnica, já que não se preocupa em oferecer problemas em suas atividades.

Grande ironia essa, não? O tecnicismo não saber ensinar a técnica do jogo!

Bibliografia:

Garganta, J. Ensino dos Jogos Desportivos Coletivos. Perspectivas e Tendências. In. Movimento, ano IV, n. 8, p.19-27, 1998/1. [clique aqui e conheça este artigo]

MAUSS, M. Sociologie et anthropologie. Paris: Presses Universitaires deFrance, 1980 apud Garganta, J. Ensino dos Jogos Desportivos Coletivos. Perspectivas e Tendências. In. Movimento, p.19-27, ano IV, n. 8, 1998/1.

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3 comentários sobre “A miopia embutida no tecnicismo – Porque não usá-lo na iniciação ao handebol

  1. Excelente texto Prof. Lucas, ele retrata de forma clara para mim, quantos alunos foram prejudicados e apodados pelo tecnicismo, mas sinceramente não me sinto culpado por ter trabalhado desta forma, pois a faculdade que fiz e a experiência como atleta de handebol, me levaram a utilizar este sistema, mas o tempo, a experiência e a vontade em realizar um trabalho com melhor qualidade, me mostraram que este caminho é muito limitado.
    Ao levarmos os nossos alunos primeiro a compreençao, pra depois a execução, os tornamos responsáveis pela ação, desta forma cada ação individual, é diretamente responsável pelo resultado coletivo.

  2. Olá Denilson.
    O ponto tocado por você é verdadeiro. A formação de muitas vezes possuimos na Universidade não nos mostra outras possibilidades (mais humanas e preocupadas com a formação de um atleta inteligente e consciente).
    Também trabalhei com um pé no tradicionalismo, mas por sorte e atenção, detive a atenção para outras vertentes de ensino, mais integrativas, globais e com o jogo como foco central.
    Obrigado pelo comentário.

  3. Olá Lucas, xará no nome e xará no gosto pelo handebol, trabalho com categorias mirim e infantil, queria saber de vc, qual melhor caminho pra estas categorias, sou criticado por colegas por que trabalho o jogo de forma global, me questiono muito se estou fazendo a coisa certa, já procurei e tenho bastante material pedagógico, mas todos qdo não é com uma metodologia complexa é muito banal, os alunos querem é jogar, ou fazer algo interessante, gostam de ação, procuro transmitir tudo o que sei e o que eles querem, mas sinto que tenho que melhorar, gostaria de saber se têm alguma bibliografia boa para estas categorias e o que acha desta forma de trabalhar..um abraço,
    Lucas Prates
    Mato Grosso-Primavera do Leste

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